Bullitt

Dez minutos alucinantes. A perseguição automóvel nas ruas de São Francisco, com a duração exacta de dez minutos e cinquenta e três segundos, é a mais lendária da história do cinema e, quando recordamos Bullitt, é sempre dessa sequência que falamos. Realizado em 1968 pelo britânico Peter Yates, com Steve McQueen no papel principal, o filme parecerá a muitos uma vulgar fita policial, terrivelmente datada, até grotesca. No entanto, Bullitté muito mais denso do que parece, e sobre ele têm sido escritos autênticos tratados em várias línguas, como um, bem volumoso, da autoria dos espanhóis Luis Aragón e Iván Gómez (Bullitt. Un Policía Llamado Steve McQueen. Historia, Análisis, Mito, 2016). Bullitt, sem receio de exagero, é uma obra essencial para compreender a masculinidade contemporânea, as relações homem/mulher, os casamentos e os divórcios, a moda, o sexo, os acidentes de viação que vitimam os adolescentes, até as discussões recentes sobre a malfadada "ideologia de género". Porquê? Por causa do cool.

Terrence Stephen McQueen, de nome artístico Steve McQueen, é considerado a quintessência do cool, o actor mais cool de todos os tempos. Chamavam-lhe "king of the cool", e está tudo dito. Talvez isso se deva a uma infância trágica, não sei, mas que a vida lhe foi madrasta, ai isso foi. O pai, um aviador acrobático que trabalhava num circo ambulante, abandonou a mãe quando esta se encontrava grávida de seis meses. A mãe, ao que dizem, era alcoólica, e deixou a criança ao cuidado dos avós, nos tempos agrestes da Grande Depressão. Disléxico e parcialmente surdo devido a uma infecção auricular contraída em tenra idade, Steve não se adaptou à escola e, com apenas 8 anos, já vagueava pelas ruas de um subúrbio de Indianápolis, integrando um gangue de jovens delinquentes. Aos 14, fugiu de casa para trabalhar num circo. O padrasto maltratava-o, batia-lhe, e, após uma briga mais violenta em que Steve ameaçou matá-lo, convenceu a mãe a pedir a um juiz que o internasse num reformatório. Aí, o infante rebelde endureceu ainda mais. Aos 16 anos, inscreveu-se na marinha mercante, navegou ao largo da República Dominicana, mas abandonou os mares para ir trabalhar num bordel e escapar para o Texas, onde teve uma sucessão de ofícios mais do que precários: operário da construção civil, apresentador de circos e espectáculos de rua, lenhador, estivador, etc. A tropa, como tantas vezes sucede, salvá-lo-ia de um destino traçado à nascença. Incorporado na marinha em 1947, ao princípio teve dificuldades com a disciplina castrense, sofreu vários castigos, chegou a estar preso 41 dias, mas depois atinou, fez-se militar garboso, foi herói numa expedição ao Árctico e aí salvou a vida de cinco camaradas, convocaram-no até para a guarda de honra do iate presidencial de Truman. Ao sair da tropa em 1952, pôde beneficiar da assistência financeira aos soldados criada pelo G.I. Bill e com o dinheiro foi estudar artes dramáticas em Nova Iorque. Assim nascia uma estrela, primeiro da TV, a seguir do cinema, com êxitos como Os Sete Magníficos (1960), A Grande Evasão (1963), The Cincinnati Kid (1965) ou The Thomas Crown Affair (1968). E depois, Bullitt.

Na aparência, mais um filme policial, com uma trama simples e linear, transparente e maniqueísta: de um lado os maus; do outro, o tenente Frank Bullitt, que mata os vilões e ganha o final. Para os cinéfilos, Bullitt não ombreia sequer com outras películas de acção feitas na altura, como The French Connection/Os Incorruptíveis contra a Droga ou Dirty Harry/A Fúria da Razão, ambas de 1971. O filme surgiu numa época de crise - e de transição - do cinema norte-americano, em que este perdia na concorrência com a televisão e andava bem longe dos assombrosos números do pós-guerra, quando, em 1946, chegou a alcançar-se 90 milhões de espectadores por semana. Apesar dos hippies e das drogas, o espírito do tempo era algo crepuscular e melancólico, ainda marcado pelo assassinato de Kennedy em 1963, e o cinema reflectia-o, com títulos como Bonnie and Clyde, o Cowboy da Meia-Noite ou Easy Rider. Em Bullitt, o espantoso é o modo como o carisma e a personalidade magnética de Steve McQueen dominam o filme do primeiro ao último minuto. O argumento, aliás, fora escrito a pensar nele, na sua figura, mesmo quando nem se sabia sequer se estaria disponível para actuar ou se teriam dinheiro para o contratar, pois McQueen cobrava altíssimo, e não muito depois, em 1974, chegou a ser o actor mais bem pago de Hollywood. Era lendário o seu péssimo feitio, as zangas épicas durante as filmagens, e nas suas memórias Roman Polanski recorda-o como um bruto insensível, autocentrado e machista, indiferente à dor que infligia nos outros, em especial nas mulheres. Talvez tudo isso fosse o produto dos muitos traumas de infância, mas o certo é que McQueen era também capaz de gestos de enorme generosidade para com os mais fracos e desvalidos: fazia inúmeros e vultuosos donativos anónimos, sobretudo para o reformatório onde esteve internado, passava horas na companhia de crianças carenciadas, convidava legiões de estudantes de arte e cinema para assistirem às rodagens dos seus filmes. Ficaram mais conhecidas, contudo, as suas atitudes de uma rudeza brutal e, entre muitos e lamentáveis episódios com produtores, realizadores e colegas, lembra-se de que nas filmagens de Papillon expulsou sem contemplações do plateau os convidados pessoais de Dustin Hoffmann. Mulherengo incorrigível, senhor de um enorme ego, afundado nas drogas e nos ciúmes, acabou por se divorciar da primeira mulher não muito depois da estreia de outro dos seus êxitos, As 24 Horas de Le Mans, de 1971, e rezam as más-línguas que teve um caso com Jacqueline Bisset, a protagonista de Bullitt, mas a actriz sempre o negou.

Em Bullitt, Steve McQueen encarna, como sempre, a figura de um anti-herói desgastado pela vida e pelas misérias de um mundo corrompido e vil. Eterno adolescente rebelde, McQueen teve as maiores reservas quanto ao sucesso do filme quando leu o guião, já que este glorificava a polícia e a autoridade num tempo marcado pela contestação juvenil a tudo e a todos, em especial à guerra do Vietname. Foi talvez por isso que modulou a personagem de forma subtil, dando-lhe contornos anti-establishment ao gosto daquela endiabrada época. O filme seria um tremendo sucesso de bilheteira e, para um custo de 5,5 milhões de dólares, arrecadou quase 25 milhões de dólares logo nos primeiros 18 meses de exibição, dos quais 42,5% foram directos para a produtora de McQueen (no total, estima-se que Bullitt tenha feito até hoje 42 milhões de dólares de lucro). O seu inconformismo levava-o a dizer que não gostava de encarnar um polícia ("cops make me nervous"), mas McQueen fez o trabalho de casa e conversou aturadamente com vários detectives na preparação do papel, um dos quais lhe disse o óbvio: era impensável um agente da polícia empenhar o seu carro particular numa perseguição alucinante como aquela. McQueen era um amante da velocidade e do risco, tinha uma fabulosa colecção de automóveis (Porsches, Ferraris, Jaguares...) e o contrato do filme, precavido, proibia-o de pôr em perigo a vida ou a integridade física. O actor, como é óbvio, iludiu essa proibição e escapava com frequência do local das filmagens para ir acelerar nas Harley-Davidson que tinha guardado secretamente numa garagem próxima, do mesmo modo que ficou furioso por muitas das cenas de Bullitt, em especial as da perseguição vertiginosa nas ruas de São Francisco, serem rodadas com o auxílio de duplos. Miles Davis, um outro nome maior do cool, autor do mítico Birth of the Cool, álbum de 1957, era também conhecido pela sua paixão automobilística, a mesma paixão que, dois anos antes, em 1955, vitimara outro ícone do cool, James Dean. Curiosamente, um dos duplos de Bullitt, Bill Hickman, considerado o melhor condutor de Hollywood, tinha participado em Rebel without a Cause/Fúria de Viver e era grande amigo de Dean.

Das 12 semanas de filmagens, três foram dedicadas em exclusivo à perseguição automóvel, de que muitos, inclusive o próprio actor, reclamaram a paternidade (McQueen também dizia que actuara sem duplos, o que era uma mentira descarada, havendo quem garanta que não participou em mais de 10% daqueles asfixiantes dez minutos). A par da escolha de São Francisco, cujas colinas se prestam sobremaneira a uma perseguição pelo asfalto e pelos ares, a opção pelo blues na banda sonora foi outro dos achados do filme. Os dois automóveis, um Ford Mustang Fastback GT de 1968, pintado de verde Highland, e um Dodge Charger 440 R/T Magnum negro de 1968, provavelmente destruídos após as filmagens, são hoje objecto de veneração e insano culto, e aquela escolha foi tão importante para a Ford que o presidente da companhia escreveu ao produtor do filme, felicitando-o pelo "melhor anúncio de automóveis da história" e oferecendo-lhe um Mustang novinho em folha. Steve McQueen, zangado com a Ford por esta reclamar o pagamento a pronto dos veículos comprados para as filmagens, exigiu que todos os emblemas da marca fossem tirados dos carros que surgissem em cena.

Muito mais importante do que os carros ou a música, o decisivo para o sucesso do filme foi a interpretação de McQueen, o rei do cool. A expressão é quase indefinível e intraduzível e, segundo parece, remonta aos anos 1940, quando o saxofonista Lester Young a introduziu no mundo do jazz. Joel Dinerstein, um dos maiores especialistas no tema, autor do livro The Origins of Cool in Postwar America e curador da exposição American Cool, patente no Smithsonian em 2014, sustenta que enquanto nas décadas de 1940 e 50 o cool se referia essencialmente à posse de um certo carisma ou dom pessoal, a partir da década de 1960 passou a definir uma atitude contracultural, e até política, anti-establishment e antiautoridade. Seja ou não verdade, o certo é que o cool ainda constitui o modelo e o padrão dominante da masculinidade contemporânea, retratando o magnetismo e a fleuma dos grandes machos, mas ao mesmo tempo o seu lado obscuro e sombrio, introspectivo, solitário e desgastado. O cool é emotivo mas controlado, sério e indiferente, despretensioso e irónico, contido na expressão dos sentimentos, parco nas palavras e nos gestos. No seu estoicismo, aproxima-se do imaginário existencialista (Camus, como é óbvio, era tremendamente cool), mas tem igualmente o seu quê de oriental e zen e, não por acaso, Steve McQueen era um fervoroso praticante de karaté coreano e carregaria às costas o caixão de Bruce Lee, um dos seus maiores amigos. É também sabido que os africanos, considerados os pais do cool, são seus exímios praticantes.

A publicidade, sempre atenta, tem feito uso e abuso do cool, na convicção certeira de que o cool, para ser cool, tem de ser insinuado, não proclamado, e que, como disse o porta-voz da Ford numa campanha com Steve McQueen, se algo é anunciado como cool, deixa imediatamente de o ser. Sem se aperceberem, milhões de jovens de sucessivas gerações têm sido socializados na vertigem do cool e ele determina a forma como vêem o mundo e todos os aspectos das suas vidas, desde os relacionamentos amorosos à escolha da profissão, dos hábitos de consumo às opções políticas, a postura corporal, os gostos e as tendências, tudo aquilo, enfim, que o sociólogo Erving Goffman definiu como "a apresentação do eu na vida de todos os dias". O cool, evidentemente, tem o seu lado negro e desprezível, pelo que transporta de misoginia e estereótipos de género, mesmo que alguns digam que há uma versão feminina do cool, a femme fatale. E o cool, é claro, serve também para camuflar os grandes traumas e as muitas inseguranças dos machos alfa, como o exemplo de Steve McQueen o demonstra à saciedade. Ainda assim, jovens e não jovens, homens e também mulheres, todos procuram ser cool e mostrar-se impassíveis perante as adversidades da vida. Todos querem ser autoconfiantes e "autênticos" como os grandes senhores do cool, Humphrey Bogart, Robert Mitchum, Marlon Brando, James Dean e, obviamente, Steve McQueen.

Steve McQueen nunca conheceu o pai mas, quando já era rico e famoso tentou localizá-lo. Descobriu-lhe o paradeiro, ele tinha morrido há tês meses. Casara, tivera uma filha, meia-irmã do actor. Esta procurou-o nas filmagens de Bullitt, escreveu-lhe um bilhete para que se conhecessem. Uma anotadora levou-lhe o bilhete ao camarim. McQueen olhou para o papel, leu-o, e deitou-o para o lixo. Cool.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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