Morte de Marielle continua sem respostas seis meses depois

"Ela é um símbolo de esperança", diz Monica Benício, viúva da vereadora do Rio de Janeiro executada no dia 14 de março.

As autoridades brasileiras ainda não prenderam nenhum suspeito pelas mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, seis meses após a execução de ambos, a tiros de pistola, no centro do Rio de Janeiro. Apesar do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, dias depois dos homicídios, ter classificado o caso como "prioritário" e de, em maio, uma testemunha apontar um outro vereador e um ex-agente da polícia como autores do crime, as investigações não progrediram. Monica Benício, viúva de Marielle, lamenta. Mas afirma que, "pelo menos, ela continua sendo um símbolo de esperança".

"A dor é uma certa forma de combustível para poder se manter na luta, é motivador ver as pessoas dizerem que a nossa luta é inspiradora e que a Marielle segue sendo um símbolo de esperança", disse Monica, em entrevista à AFP.

Sobre a demora nas investigações revela que só ouve das autoridades "estamos investigando, estamos avançando mas sem consistência". "Não só como esposa, que tem uma dor bastante particular, mas como brasileira, ver um crime que chegou a seis meses sem nenhum tipo de resposta é uma pena não por uma questão de vingança mas por uma questão de justiça, para sentir que ainda existe um Estado de direito no Brasil."

Monica Benício, que vem fazendo um périplo por países americanos e europeus para manter viva a memória de Marielle, prepara-se para na próxima quinta-feira ser recebida e ouvida pelo Conselho de Direitos Humanos, em Genebra.

Um crime que chocou o Brasil e o mundo

Marielle foi assassinada após um evento no bairro carioca da Lapa, organizado pelo seu partido, o PSOL, com jovens negras. Por volta das 21.00, saiu do local, acompanhada da assessora, numa viatura conduzida por Anderson Gomes. Imagens de câmaras de segurança mostraram que essa viatura foi perseguida por duas outras.

Poucos quilómetros depois, no centro do Rio, uma delas encostou no carro onde seguia a vereadora. Do banco de trás foram disparados 13 tiros, dos quais quatro atingiram Marielle, no pescoço e na cabeça, e três as costas de Anderson. Os dois faleceram imediatamente. A assessora escapou sem ferimentos graves.

Mais tarde, a TV Globo revelou que as munições usadas pertenciam a um lote vendido à polícia federal que fora utilizado três anos antes numa chacina de 17 pessoas em Osasco, na Grande São Paulo, que resultou na condenação de quatro polícias.

No dia 8 de maio, as investigações pareceram ter forte avanço, após uma testemunha ter dado detalhes sobre preparativos, reuniões, datas e horários da execução e acusado um vereador do PHS, Marcelo Siciliano, e um ex-polícia hoje na prisão, Orlando Araújo, de serem os autores morais do crime.

A motivação, ainda segundo a testemunha, teriam sido ações comunitárias de Marielle na zona oeste do Rio, onde age uma milícia a que os dois estão ligados. Ambos negaram as acusações - Siciliano promoveu mesmo uma conferência de imprensa onde se disse amigo pessoal da vereadora executada.

Dois criminosos, conhecidos como Thiago Macaco e Cachorro Louco, suspeitos de outros crimes relacionados com Orlando Araújo, foram entretanto detidos, no final de julho. Mas a polícia disse que não podia, ainda, ligá-los à morte de Marielle, que segue com mais perguntas do que respostas.

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