Falta de educação

Completou-se no ano passado o centenário de Jango, ou João Goulart, o descendente de açorianos que foi vice-presidente de Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros e, em 1961, ele próprio presidente do Brasil. Se não houvesse outras razões para o celebrar, haveria pelo menos a de ter escolhido para ministro da Educação Darcy Ribeiro, fundador da Universidade de Brasília, membro da Academia Brasileira de Letras e um grande defensor da democratização do ensino. Quer como antropólogo quer como político, este homem fez um trabalho notável na protecção das comunidades indígenas, realizou reformas educativas de peso e, além de escrever (entre outras) uma obra de referência - O Povo Brasileiro: a Formação e o Sentido do Brasil -, fugindo do hospital onde estava internado para a poder terminar, é sempre lembrado pelas suas frases lapidares, como a que proferiu anos depois de a ditadura militar ter sido instaurada no Brasil, obrigando-o ao exílio: "Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu." (E, notem bem, morreu vinte e tal anos antes de Bolsonaro chegar ao poder...) É outra, porém, a sua frase que hoje me interessa trazer aqui e cuja clareza a nossa Esquerda, que gosta de falar difícil e depois se queixa de perder votos para os demagogos, podia adoptar: "Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios." Estava coberto de razão; mas, como defendeu Rafael Alcadipani, professor na Fundação Getúlio Vargas, "é preciso ir além desse mantra e exigir qualidade no ensino".

E eu, que vivo num país seguro onde todos podem ir à escola e os índices de criminalidade são baixíssimos quando comparados com os do Brasil, penso nestes "mantras" ao ler num jornal nacional como a falta de qualidade da nossa educação pode realmente levar a situações criminosas (ainda que os seus autores não vão parar à cadeia): um homem com um tractor danificou uma villa romana num sítio arqueológico porque a confundiu com um monte de pedras; e os espertos de uma autarquia desmantelaram e puseram na sucata um projecto artístico só porque ganhou ferrugem, o que, de resto, o escultor já tinha previsto. Adeus, futuro.

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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