Por Esse Rio abaixo

Wilson Witzel, governador do estado do Rio de Janeiro, e Marcelo Crivella, prefeito da capital estadual, vêm mantendo conversa sobre Harvard, considerada uma das melhores universidades do mundo. Quem apanhe a conversa a meio pode pensar que, finalmente, a tão castigada Cidade Maravilhosa está a ser tratada com a excelência que merece. Que vem, portanto, por esse rio acima, como diz a canção portuguesa.

Puro engano.

Witzel, que é juiz, irritado por Crivella ter criticado uma decisão judicial que fechava a importante Avenida Niemeyer por risco de deslizamentos de terras, confrontou o prefeito e defendeu a sua classe dizendo que "quem não tem do que falar deve manter a boca fechada, deve ter um filtro entre o cérebro e a boca".

Crivella respondeu então que agradecia o conselho do governador e que iria "procurar esse filtro em Harvard".

Era um ataque indireto a Witzel, que incluiu no seu currículo um período de estudos na universidade americana saído da sua fértil imaginação - na esteira de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, que culpou a sua assessoria de comunicação pelo equívoco de se apresentar como mestre em Yale, ou da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que explicou que o mestrado incluído no seu currículo não foi tirado numa instituição de ensino mas na Bíblia.

Mais uma gafe de Witzel, um clone assumido de Jair Bolsonaro, mas cujos estragos, por enquanto, se confinam ao Rio de Janeiro. Dias antes de ser desmascarado o seu delírio académico, o governador pulou para um helicóptero e filmou-se dizendo que ia "botar fim na bandidagem". A seu lado, um polícia metralhou a meio da viagem uma barraca de lona no cimo de um pequeno monte. Segundo populares, a lona que o agente achou ser um ponto de tráfico de droga é local de oração. "É um espaço onde vão idosos e crianças estar com Deus", contou Shirton Leone, diácono da Assembleia de Deus, denominação evangélica.

Na semana passada, levado a tiracolo por Bolsonaro em viagem oficial a Buenos Aires, o governador comparou a morte de Evaldo Rosa - um músico assassinado com 257 tiros de uma brigada do exército enquanto seguia de carro com a família rumo a um chá de bebé - aos atentados de Paris, em 2015.

Crivella, por sua vez, escolheu para secretário-chefe da Casa Civil, o posto mais bem remunerado da autarquia e também o mais poderoso, com capacidade para nomear dez mil cargos, um profissional sem carreira na gestão pública. Esse profissional chama-se Marcelinho Crivella e, como o nome denuncia, é filho do prefeito. O prefeito, entretanto, é sobrinho de Edir Macedo, patrão da empresa religiosa IURD, onde antes de enveredar pela política exercia a função de bispo (e de cantor gospel nas horas vagas).

Em pleno processo de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio, o autarca teve mesmo assim ânimo para fazer uma piada com o viaduto Tim Maia, que já desabou três vezes e até matou duas pessoas em 2016, ao compará-lo ao Vasco da Gama, "que também vive caindo", numa alusão às descidas de divisão do gigante clube carioca de futebol.

Não cabem num texto de jornal o restante das gafes, escândalos e horrores de uma região que, governada por Bolsonaro na esfera federal, Witzel na estadual e Crivella na municipal, é o ponto mais à direita da terra - mas não uma direita liberal, cosmopolita, moderna e eficiente, mas sim uma direita retrógrada, curta, fanática e sanguinária.

Nelson Rodrigues, o dramaturgo (e muito mais) pernambucano de origem e carioca de adoção, dizia que "subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos".

Tinha razão, isto não vem de hoje: antes de Witzel, os últimos cinco governadores eleitos, Anthony Garotinho, Rosana Garotinho, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão e Moreira Franco, acabaram presos. E, antes de Crivella, os prefeitos Eduardo Paes e Cesar Maia também tiveram (têm, na verdade) a justiça à perna. Três presidentes da Assembleia Legislativa do Rio foram detidos. Só em novembro do ano passado, dez deputados estaduais acabaram atrás das grades. Um outro, Flávio Bolsonaro, faz manchetes semanais por causa de falcatruas. Seis membros do Tribunal de Contas do Estado foram parar atrás das grades.

Crivella e Witzel, assim como o presidente da República, foram eleitos "para acabar com essa pouca vergonha". Mas não só não acabam como fazem a Cidade Maravilhosa passar por muita vergonha. E também há uma canção portuguesa chamada Por Esse Rio abaixo.

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