Premium Portugueses em Londres contra Donald Trump

Pelos direitos das mulheres, contra o aquecimento global, o brexit, contra May ter convidado o presidente dos EUA para uma visita oficial. Dezenas de milhares protestaram contra Trump em Londres. E alguns portugueses juntaram-se

Maria, 48 anos, juntou-se à manifestação contra Trump em Trafalgar Square como "cidadã do mundo" e não como portuguesa. "Ele provoca-me um ódio profundo. Aquelas cenas com as crianças enjauladas toca-me profundamente," diz. Há dez anos, Maria estudou no Estados Unidos com um visto de turista, trabalhando em alguns restaurantes para conseguir pagar o curso.

Um dia, ao entrar no país, levaram-na para ser interrogada e Maria acabou por confessar os trabalhos ilegais. Esteve detida até ser expulsa para Londres. Não voltou a entrar nos EUA desde então. A experiência foi traumática. Ao ver as reportagens sobre crianças migrantes separadas das famílias que tentam entrar nos Estados Unidos, Maria reconhece o mesmo tratamento de que foi vítima e que tanto a surpreendeu na altura. "Nunca imaginei que os norte-americanos pudessem ser assim contra os imigrantes. Na altura descobri um mundo novo," diz.

Na sexta-feira, dezenas de milhares gritaram pelos direitos das mulheres, pelos direitos LGBT, pela Palestina, contra o aquecimento global, contra o brexit, contra o facto de Theresa May ter convidado Donald Trump para uma visita oficial ao Reino Unido. Muitos compararam Trump a Hitler em cartazes e em T-shirts, outros lembraram como o presidente americano está nas mãos de Vladimir Putin. Um grupo carregou uma boneca em tamanho real de Oprah Winfrey enviando-lhe, assim esperam, "o sinal de Deus" que ela pediu para levar a sério a candidatura à presidência em 2020.

Um casal cobriu-se com mantos vermelhos como as escravas sexuais da série The Handmaid"s Tale, baseada no romance distópico de Margaret Atwood e cuja adaptação televisiva está a ser vista como um aviso sobre os perigos da América de Trump. Ao mesmo tempo, um balão gigante com a figura de Donal Trump bebé, de fraldas, circulava pelos céus de Londres.

Os cartazes que proclamavam que aquele era "o Carnaval da resistência" descreveram de forma correta o tom festivo e burlesco da manifestação. Mas o eixo central do protesto que inundou Londres foi o apoio aos imigrantes e, acima de tudo, a condenação às políticas do presidente americano de separar crianças das famílias. "Fascista enjaulador de bebés cor de laranja, não és bem-vindo no Reino Unido," lia-se num cartaz.

De uma forma geral, aqueles que protestavam diziam estar ali por uma razão específica - contra o machismo de Trump, contra o ódio que, dizem muitos, o presidente inspira. Mas todos acabavam por referir o apoio aos imigrantes e a necessidade de se unirem contra a retórica divisiva de Trump e da onda nacionalista e xenófoba que tem varrido a Europa.

Foi também essa a mensagem que o líder do partido Trabalhista Jeremy Corbyn levou aos manifestantes reunidos em Trafalgar Square. "Estamos a declarar o nosso direito à democracia, o nosso direito à liberdade de expressão e o nosso direito a querer um mundo que não está dividido pela misoginia, pelo racismo e pelo ódio," disse.

Paulo Costa, 60 anos, trabalha como informático em Londres há cerca de seis anos. Depois do referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia tornou-se ativo no grupo 3 Million, que luta pelos direitos dos migrantes da UE a viver no Reino Unido. Paulo tentou organizar um protesto de portugueses contra Trump, mas à hora da manifestação a maioria estava a trabalhar. Ele próprio só chegou no fim, depois de o protesto desaguar em Trafalgar Square, mas não quis deixar de marcar presença.

"Tinha de marcar presença para protestar contra a postura anti-imigrantes que ele tem. Ele alimenta a onda europeia contra a imigração e nenhum de nós gosta disso," diz.

Nicole Wevers, 47 anos, é uma das principais ativistas do grupo 3 Million. A holandesa vive em Londres há 29 anos e passa frequentemente por britânica. Por isso mesmo ouve muitas vezes comentários racistas contra imigrantes que não ouviria se soubessem que era estrangeira.
"Eu sei que a minha situação não pode ser comparada à de um migrante africano em Londres, mas os direitos de todos os migrantes estão ameaçados. Somos todos migrantes e não importa a cor. Se estão contra um de nós, estão contra todos nós," diz.

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