Chuva e vento causam danos avultados. Costa não fecha a porta a ajuda europeia

Esta terça-feira, as cheias voltaram à zona de Lisboa e os estragos agravaram-se. Mas desta vez o fenómeno estendeu-se também ao Alto Alentejo, onde houve várias estradas danificadas em diferentes pontos. Recorrer ao Fundo de Solidariedade Europeia é uma possibilidade real, admitiu o primeiro-ministro
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Em menos de uma semana, a região da Grande Lisboa voltou a ser fustigada por chuva e vento fortes. Com algumas zonas ainda a recuperar dos estragos de há uma semana, esta terça-feira foi novamente marcada por cheias, sobretudo nas zonas mais baixas. Desde que há registos, nunca tinha chovido tanto em Lisboa no espaço de 24 horas, anunciou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Isto levou a que, tal como há uma semana, se voltassem a registar vários incidentes. Desta vez não só na zona da Grande Lisboa, como também noutros pontos do país. Na capital, Alcântara foi a zona mais afetada pela chuva, tal como já havia acontecido, com 16 pessoas retiradas das suas habitações e outras seis de um supermercado. Na Serra de Monsanto uma árvore caiu e causou estragos, danificando um táxi. Já na Freguesia de Santa Clara, um deslizamento de terras trancou dez pessoas dentro de casa.

Ali ao lado, em Algés, já no concelho de Oeiras, o cenário da passada quarta-feira voltou a repetir-se: ruas inundadas na zona baixa da freguesia, a passagem subterrânea que dá acesso à estação acumulou água até ao teto, e diversos estabelecimentos comerciais ficaram danificados. No Dafundo, houve também um muro que ruiu e danificou um automóvel estacionado na zona. Em Oeiras, o pavilhão da Associação Desportiva local ficou danificado, com água a entrar para o interior das instalações e uma parede acabou por ceder. Um pouco mais a norte, já no concelho de Loures, os rios voltaram a acumular tanta água que acabaram por transbordar. Em Frielas, o campo da União Desportiva ficou completamente submerso.

Como consequência, houve vários acessos viários a serem cortados ou a terem a circulação condicionada. Alguns deles, como o Eixo Norte-Sul ou a Radial de Benfica, são considerados artérias principais no acesso a Lisboa.

Segundo apurou ainda o DN junto de fonte da NAV, a operação de voos no aeroporto de Lisboa não chegou a ser suspensa, tendo havido, no entanto, "alguns processos mais lentos e voos que só conseguiram aterrar à segunda ou terceira tentativa". Houve, contudo, voos a serem cancelados na Madeira - onde o mau tempo também se fez sentir.

Às 20.00 horas, aquando do briefing da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), havia registo de 2.777 ocorrências em todo o país (1.638 só em Lisboa). Segundo André Fernandes, comandante nacional da ANEPC, houve um total de 82 desalojados ao longo do dia. A acrescentar a estes há, no entanto, mais 17 desalojados "por precaução", devido a uma instabilidade de terras.

Ainda de acordo com André Fernandes, registou-se um ferido leve (em Lisboa) e duas pessoas assistidas (em Oeiras e Coimbra).

Na sequência dos casos em Lisboa, o autarca da cidade declarou, durante a manhã, que as equipas de resposta às ocorrências estavam em "reforço constante", sublinhando haver situações que, devido às características da cidade, não podem ser evitadas. "Vamos ter eventos [meteorológicos significativos] cada vez mais próximos, por isso é tão importante fazer mudanças estruturais", acrescentou.

Horas mais tarde, foi a vez de o PSD reagir, através do líder Luís Montenegro, que deixou "uma palavra de solidariedade a autarcas, forças de segurança e prevenção e às pessoas afetadas" pelo fenómeno climatérico. "Está a ser um momento de grande aflição em alguns pontos do país e não posso deixar de estar solidário com todos aqueles que se estão a confrontar-se com esta situação", salientou. No entanto, o líder social-democrata reconheceu que "em alguns destes casos faltam medidas estruturais" que permitam resolver estes episódios.

Já o Chega considera que existem responsabilidades que devem ser assumidas. Em declarações na Assembleia da República, André Ventura foi questionado se há responsabilidades que devam ser retiradas e respondeu que "sim, é evidente". "Há zonas de Lisboa que estão parcialmente inundadas, escolas fechadas, prejuízos incalculáveis em Loures, há zonas que parecem um rio". "Isso é muita responsabilidade pública que tem de ser assumida", defendeu.

Na perspetiva dos vereadores do PCP em Lisboa é importante que a autarquia, juntamente com o governo, "agilize os procedimentos de apuramento dos danos e prejuízos, para que, com a maior brevidade, possível se prestar apoio".

Em comunicado, o Livre apelou ao governo para acionar "todos os meios disponíveis" de prevenção de danos face à chuva intensa e cheias no país e defendeu que cabe aos executivos locais a articulação e adoção de medidas mitigadoras. "Até ao momento, a falta de ação tem contribuído para um aumento do impacto da chuva intensa, como é exemplo a falta de orientações concretas da parte do Ministério da Educação relativamente ao encerramento das escolas - o que fez com que vários pais se tenham deslocado para levar os filhos à escola para, momentos depois, estas serem encerradas. É fundamental reforçar os meios onde necessário", defende.

Por sua vez, o PAN pede que o governo declare Situação de Calamidade nos concelhos mais afetados pelo mau tempo. Ao mesmo tempo, o partido liderado por Inês Sousa Real quer que os apoios financeiros para compensar os estragos cheguem de forma rápida.

Para isso, a líder e deputada única do partido entregou no Parlamento três iniciativas que visam, além disso, exortar o executivo a ativar "instrumentos de auxílio financeiro para fazer face aos estragos causados, inclusivamente junto do Fundo de Solidariedade Europeu".

Algo a que o primeiro-ministro, António Costa, não fechou a porta. Caso se verifiquem os requisitos, Portugal poderá acionar o Fundo de Solidariedade da União Europeia, depois de apurados os montantes dos danos sofridos. "É preciso apurar os montantes dos danos, e para isso a ministra da Presidência [Mariana Vieira da Silva] já reuniu com as autoridades locais das zonas mais afetadas", referiu o primeiro-ministro no Parlamento.

Os efeitos da intempérie não se fizeram sentir apenas na capital. Também o Alentejo, em particular o Distrito de Portalegre, foi palco de danos avultados, com praticamente todos os concelhos do distrito a serem afetados.

O IP2 (que liga Estremoz a Portalegre) foi cortado junto a Monforte, depois de uma parte da estrada ter ruído. Também parte da estrada que faz a ligação entre a vila alentejana e a freguesia de Santo Aleixo ruiu.

De acordo com alguns meios de comunicação locais, a intensidade e persistência de chuva naquela região permitiram à Barragem do Caia (localizada junto à fronteira com Espanha) ganhar cerca de 26 milhões de metros cúbicos em volume de água armazenada em 24 horas. Isto representa uma subida de 2,5 metros na cota da barragem.

Noutro ponto do distrito, em Campo Maior, a chuva fez com que a que a lama fosse transportada para o centro da vila e acabou por acumular-se, levando a que várias casas ficassem com as portas praticamente submersas.

Na sequência da situação que o autarca local classificou como "dantesca", o município ativou o Plano Municipal de Emergência. Não fazendo quaisquer balanços, Luís Rosinha referiu à Agência Lusa que havia "um cenário crítico" numa zona mais baixa da vila, "em que ficaram inundadas várias habitações". Os municípios de Sousel, Arronches e Fronteira também acionaram este plano.

6.51: Câmara de Lisboa emite Alerta Vermelho devido ao mau tempo e pede que população fique em casa.

7.30: Linhas ferroviárias do Norte, Sintra e Cascais suspendem temporariamente a operação em algumas vias.

8.00: Tal como há uma semana, a Baixa de Algés volta a ficar intransitável.

9.00: Parte do troço do IP2, junto a Monforte, não resiste à pressão da água acumulada e dá-se um aluimento. Estrada é cortada.

11.40: Campo Maior anuncia que vai acionar o Plano Municipal de Emergência, depois das muitas inundações na vila.

12.45: Há conhecimento de cinco pessoas desalojadas em Odivelas. No concelho vizinho de Loures, oito pessoas são colocadas em acolhimento temporário.

13.30: Espera-se um agravamento das condições até às 18.00 horas e a Proteção Civil coloca todos os distritos - exceto Bragança - em Alerta Laranja, o segundo mais elevado.

15.15: Devido ao agravamento do estado do tempo, os planos de cheia das bacias do Rio Douro e do Rio Tejo passam a estar em Nível Amarelo.

17.00: Bombeiros Sapadores de Lisboa anunciam números até às 16.00: 538 ocorrências devido ao mau tempo, a maior parte relacionada com inundações, verificando-se cerca de 20 pessoas desalojadas.

18.05: O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) anuncia que os distritos de Lisboa e Setúbal passam a estar em Alerta Amarelo, baixando um nível na escala.

19.35: O IPMA desagrava o alerta em todo o território continental para as próximas horas. Hoje todos os distritos, exceto Bragança, estão novamente em Alerta Amarelo.

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