Premium Jean-Michel Basquiat: um miúdo sem-abrigo no Lower East Side

Realizado por Sara Driver, Boom for Real: A Adolescência Tardia de Jean-Michel Basquiat é um documentário à procura do artista na paisagem nova-iorquina do final dos anos 1970. Estreia-se hoje.

Atente-se na seguinte situação: há um cenário rocambolesco, feito de diversa parafernália, montado sobre um palco. No interior desta estrutura idealizada e concebida pelo baterista, os restantes elementos da banda organizam-se de forma a tirar o máximo proveito criativo do espaço, para divertir o público. Estava tudo planeado. Quando chega o único músico que faltava - sem saber nada do plano - volta para trás e em poucos minutos reaparece com uma simples caixa de madeira na mão, enfia-se lá dentro, põe a cabeça de fora, sorri e torna-se o centro das atenções do espetáculo... O seu nome, Jean-Michel Basquiat. O da banda, Gray. E este é apenas um dos episódios que revelam a espontaneidade do artista self-made.

A história é contada em Boom for Real: A Adolescência Tardia de Jean-Michel Basquiat, e o primeiro elogio que se pode tecer ao documentário de Sara Driver tem precisamente que ver com a orientação para o olhar do grupo (mais do que o exemplo da banda, que é transitório, um coletivo geracional). Fala-se do indivíduo sempre em contexto, isto é, em relação direta com a conjuntura histórica e o ambiente artístico que o moldou - algo que, importa sublinhar, vai escasseando nos filmes documentais biográficos, geralmente empenhados em colar-nos à pele da personalidade retratada, reduzindo a efeito decorativo o "ar do tempo" em que esta emergiu.

Foi, pois, claramente nesse sentido de conjunto que Driver trabalhou, assinando um documentário tão pulsante na qualidade de radiografia cultural quanto fantasmagórico na abordagem: mais do que o centro deste olhar, o jovem sem-abrigo Jean-Michel Basquiat (1960-1988) é aqui uma figura na paisagem nova-iorquina, espécie de aparição enigmática que circulava no bairro degradado do Lower East Side, no final da década de 1970, deixando vestígios mais ou menos decifráveis nas paredes. Ele é, por isso, o mistério auscultado pelo filme, e não o seu ponto de esclarecimento. Já a rua, sim, pode dizer-se que surge como protagonista de Bomm for Real. Era através desse ato de se pintar nas paredes que a arte então explodia no espaço público - em oposição à arte de galeria - como linguagem imediata.

"Ele andava sempre por ali"

Ao entrevistar várias pessoas, dentro e fora da cena artística, que conviveram com Basquiat ou que experienciaram a atmosfera desta geração - inclusive o seu companheiro Jim Jarmusch -, Sara Driver procura tomar o pulso a uma realidade bastante vívida para nela proporcionar a descoberta de uma sedutora personagem, anterior à celebridade. E é assim, entre imagens de arquivo, música e depoimentos, que Basquiat aflora (nunca em viva voz) como uma presença, ao mesmo tempo, discreta e fascinante, marginal e categórica. "Ele andava sempre por ali", diz-se a dada altura. E esta ideia repete-se em diversos testemunhos - "por ali" deve ler-se não só nas ruas, mas sobretudo em lugares estratégicos como o Mudd Club, local que acolhia a nata da contracultura underground. Quer dizer, Basquiat foi criando o seu mito nessa simples errância pelos sítios certos, observando, conhecendo as pessoas que genuinamente lhe interessavam, e aos amigos fazia questão de afirmar, com uma incrível segurança, que um dia iria ser famoso. A profecia tomou forma.

Através do ângulo social, Boom for Real destaca-se como um muito eficaz retrato do meio artístico em mutação, no qual Jean-Michel Basquiat irrompeu com o seu carismático "traço infantil". De resto, os primeiros trabalhos - desde os graffiti a desenhos em cadernos, passando por pinturas em peças de roupa e na porta de um frigorífico - afirmam uma identidade que não se queria óbvia, mas que não deixava de ser fruto da constante absorção de ideias e símbolos, transformados em imagens e palavras exclusivas de Basquiat. Como diz o curador Diego Cortez: "A era do homem branco tinha chegado ao fim."

*** (Bom)

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