Quem se lembra de Steve McQueen?

Memórias de outros tempos de Hollywood: no filme Bullitt, Steve McQueen protagonizou uma célebre e sofisticada perseguição de automóveis - foi há 50 anos.

Recentemente, a propósito da estreia de uma nova (e muito pouco interessante) versão cinematográfica de Papillon, o nome de Steve McQueen foi evocado, ma non troppo. Assim, por um lado, citou-se o Papillon original, produção de 1973, dirigida por Franklin J. Schaffner, com McQueen e Dustin Hoffman nos papéis de Henri "Papillon" Charrière e Louis Dega, respetivamente; por outro lado, dir-se-ia que McQueen (falecido em 1980, contava 50 anos) já não conta para o imaginário cinematográfico do século XXI.

Há algo de desconcertante neste apagamento de memórias, mas também de muito típico do esvaziamento atual dos valores clássicos da cinefilia. Entenda-se: o que acontece excede qualquer jogo floral sobre os filmes "bons" e "maus" do passado. A celebração do puro espectáculo - de que McQueen foi, justamente, um símbolo exemplar - passou a ser dominada por fenómenos efémeros de marketing em que os "efeitos especiais" são celebrados como se fossem o destino obrigatório do cinema, no limite dispensando a verdade (visceral e insubstituível) do ator.

Ao contrário de outras efemérides, não se espera, por isso, especial agitação mediática pelo facto de o filme Bullitt, outro dos momentos fulcrais da carreira de McQueen, ter tido a sua estreia há 50 anos (a 17 de outubro de 1968, nos EUA). Enfim, não quero assumir-me como viciado em efemérides... Bem pelo contrário. Mas é um facto que esse desencantado policial passado na cidade de São Francisco entrou para a história como um momento fundador de um modelo particular de encenação das perseguições de automóveis.

Escusado será dizer que a perseguição de Bullitt - com McQueen ao volante de um Ford Mustang GT - foi mil vezes copiada e, convenhamos, quase sempre em tom menor. Uma das exceções pode ser vista em Os Incorruptíveis contra a Droga, realizado por William Friedkin três anos mais tarde, com Gene Hackman e Roy Scheider nos papéis centrais.

Seja como for, a vibração dessa sequência está longe de se resumir a uma proeza técnica de rally... Estamos perante um modelo de espetáculo que nasce, não da simulação digital do que quer que seja, mas sim da verdade material de tudo aquilo: os corpos, os carros, as ruas.

Nesta perspetiva, Bullitt pertence a uma conjuntura industrial e simbólica em que, mesmo através da maior sofisticação técnica, Hollywood privilegiava a dimensão humana das suas histórias. Lembrar Steve McQueen é também reconhecer que ele não pertence à galeria de super-heróis da Marvel e da DC Comics. Nostalgia? Apenas gosto pela pluralidade da história do cinema, das histórias de que se fazem os filmes.

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