"Sou advogado e amigo do comendador Berardo"

O homem que aconselhava Joe Berardo na audição e acusava os deputados de violarem o direito à imagem do seu constituinte trabalha na área financeira desde o início da carreira de advogado. Foi administrador do BCP e membro do Conselho Consultivo da CMVM. Conhece e representa Berardo desde 1992 e di-lo "um bom amigo."

"Quem é este tipo?" Foi esta a pergunta, conta ao DN, que fez ao sair da primeira reunião com Joe Berardo. "Era advogado estagiário, tinha 25 ou 26 anos e chamaram-me para uma reunião no Sheraton, para apresentar a linha jurídica de uma operação financeira a um possível investidor. Estava a representar uma corretora que procurava investidores para entrarem no capital da Inô supermercados, à qual a Jerónimo Martins estava a fazer uma OPA. O investidor era o Joe Berardo. Disse que estava interessado, mas que queria que eu fosse o advogado dele." A corretora aceitou e a relação começou aí. "Sou advogado dele há muitos anos, e ao fim de tantos anos posso dizer que somos amigos. É um bom amigo."

"Quem é este tipo", perguntou quem o viu a ele, André Magalhães Luiz Gomes, na comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, na passada sexta-feira, a fazer uma acusatória intervenção inicial, a contestar a transmissão vídeo da audição e a tentar intervir durante o questionamento do seu constituinte.

Não é que seja um ilustre desconhecido no mundo da advocacia e que lhe faltem clientes famosos ligados à finança. Foi advogado de Horácio Roque, sócio e amigo de Berardo que este lhe apresentou, até à respetiva morte em 2010 (representou os dois no processo da Operação Furacão) e representa a filha mais velha Teresa Roque, contra a mãe, Fátima Moura, no caso (que prossegue) das partilhas da herança do presidente do Banif. É advogado de Paula Amorim, filha de Américo Amorim, durante anos designado como "o homem mais rico de Portugal". E em 2012 foi convidado para representar a CGD no dossiê Cimpor.

Administrador do BCP de 2012 a 2017

Mas André Luiz Gomes, que diz de si próprio ter apostado "bastante na área do mercado de capitais", não se limita a advogar. É,"desde o início", administrador não executivo da Fundação Coleção Berardo ("Tenho muito orgulho de fazer parte do conselho de administração de um museu que é o mais visitado em Portugal"), e pelo menos até 2017 foi vogal do conselho de administração da Bacalhôa - Vinhos de Portugal, SA (uma empresa que foi de Berardo e que este disse na comissão de inquérito ter dado como garantia a bancos), sendo ou tendo sido até ao mesmo ano presidente da mesa da assembleia geral de uma infinidade de sociedades e empresas e, no passado, administrador de outra infinidade.

E, desde 2012 até pelo menos 2017, durante dois mandatos, foi - não sendo possível até à publicação deste texto confirmar se ainda é - vogal do conselho de administração do Millennium BCP, assim como vogal da respetiva Comissão de Governo Societário, Ética e Deontologia e da Comissão de Avaliação de Riscos, tendo sido, de 2009 a fevereiro de 2012, perito do Conselho de Remunerações e Previdência do Banco Comercial Português - do qual Berardo foi nomeado presidente em 2008.

Nesse mesmo ano, aliás, André Luiz Gomes foi notícia por acumular a representação de Berardo com a função, determinada pelo banco, de intermediar o diferendo que este mantinha tinha com os seus pequenos acionistas/clientes que se consideravam lesados por via dos aumentos de capital em 2000-2001. Questionado sobre esta contratação, Carlos Santos Ferreira, o então presidente do conselho de administração (que vinha da CGD), respondia aos jornais que "o BCP não fala das relações de trabalho que mantém com os seus colaboradores."

Por fim, o causídico detinha, pelo menos até fevereiro de 2017, 11 392 ações do capital social do BCP (10 680 das quais terá adquirido no início desse mês numa operação de aumento de capital, como atesta um documento da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários). O banco, é sabido, em cuja guerra acionista o seu constituinte Berardo se envolveu em 2007 com ações compradas com 350 milhões de euros emprestados pela CGD, empréstimo cuja avaliação de risco e autorização faz parte das matérias em investigação na comissão de inquérito ao banco público - ou seja, aquilo que levou o comendador na sexta-feira a responder na comissão de inquérito.

Mas sobre a matéria que levou o seu constituinte ao Parlamento e o seu papel na forma como Berardo desenhou a relação com os bens que foram seus não fala: "Espero que compreenda."

Bisneto de republicano, neto de monárquico

Quem é então o homem que uma colega que prefere permanecer anónima crismou de "pocinhas" (de "salta-pocinhas", presume-se) e um colega, também ele optando por não ser identificado, diz "muito inteligente, muito esperto" (acrescentando, porém: "É o estilo de advogado especializado em causar perturbação")?

Nascido em fevereiro de 1966, filho de dois advogados, Maria Manuela Luiz Gomes e Joaquim Luiz Gomes, e irmão de Joaquim Luiz Gomes, fundador da Dunas Capital (são quatro irmãos ao todo), vem de uma linhagem jurídica extensa, da qual fala com audível gosto. "O meu bisavó, António Luiz Gomes [1863-1961], portuense, era um republicano que foi membro do primeiro governo provisório da República e reitor da Universidade de Coimbra. O meu avô António Luiz Gomes [1888-1981] era monárquico (foi presidente da casa de Bragança até morrer) e foi colaborador do Salazar, que o nomeou diretor-geral da Fazenda Pública, tendo sido depois administrador do Banco de Portugal desde os anos 1950 até ao 25 de Abril." Ambos cursaram Direito; não foi o caso do tio-avô "esquerdista": "O irmão do meu avô Ruy Luis - sem z para se distinguir do pai - Gomes [1905-1984] foi matemático e candidatou-se a presidente da República contra o regime, mas foi impedido e demitido da Universidade do Porto. Voltou depois do 25 de Abril, como reitor."

Na página da Ordem dos Advogados o bisneto de António Luiz Gomes figura como inscrito em 1992, o ano em que conheceu Berardo. O curso de Direito fê-lo na "clássica", a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; após terminar a licenciatura, em 1989; foi assistente na cadeira de Finanças Públicas durante um ano, enquanto estagiava na sociedade Luiz Gomes, Abecasis & Associados - fundada pelo pai e por Henrique Abecasis. "Foi das primeiras sociedades de advogados do país e chegou a ser uma das maiores", diz. "E com uma particularidade: o meu pai recusou-se a ter estagiários que não fossem pagos, isto logo em 1954."

Uma tradição que, garante, mantém na sua, a Luiz Gomes, que tem também a particularidade de apresentar uma larga maioria de sócias mulheres. Fundou-a em 2017, com o mesmo nome da sociedade dos pais (Henrique Abecasis saiu em 1992), na qual foi sócio de 1994 a 2005, período em que, de 1995 a 2000, integrou o Conselho Consultivo da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários. De 2005 a 2015 esteve na Cuatre Casas/André Gonçalves Pereira - sendo este último, informa, seu padrinho.

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