Premium Um Violino com 300 anos que vai tocar em Lisboa

Há músicas que contam histórias e há instrumentos que também o fazem. Nas mãos de Xuan Du está - no momento da conversa com a DN Ócio - um violino com quase 300 anos. Frágil ao toque, mas imponente no som. Esta peça «nasceu» em 1725 pelas mãos de Nicolaus Amati, artista de renome italiano. Esta sexta e sábado será o protagonista do Festival ao Largo, no Chiado, Lisboa.

Foi numa das salas do labiríntico Teatro Nacional São Carlos que encontrámos Xuan Du e o seu Nicolaus Amati. Aos 41 anos, o músico chinês confessa-se feliz por estar de volta. «Portugal é a minha casa na Europa. Passei mais anos aqui do que na cidade onde nasci, em Nanjing. Estive dezassete anos na Europa, treze deles em Portugal. Sou lisboeta! Sim, sim... Conheço todo o lado», atira afirmativamente, misturando o inglês com o português em cada frase.

Xuan Du toca num violino de Dom Nicolaus Amati de 1725 e num arco de Eugène Sartory de 1895

O ex-concertino da Orquestra Sinfónica Portuguesa - tarefa que desempenhou já lá vão uns doze anos - veio até Portugal a convite da mesma para se juntar e tocar durante o Festival ao Largo, esta sexta-feira e sábado. O violino histórico está na sua posse desde 2009, «foi-me oferecido por uma amiga. Fabricado em 1725, por Dom Nicolaus Amati. É muito raro e antigo e é excelente. Qualquer pessoa que o toque deve sentir-se sortudo. Eu sinto. Poder fazer música com uma peça destas, com as raízes dela, uma peça italiana... é sentir que se faz parte da tradição», explica ao DN Ócio, enquanto sorri.

«Tenho outros instrumentos, mas este é o meu favorito - continua -, o meu avô também tocava violino, o dele era alemão, cheguei a tê-lo comigo. Aliás, acho que ainda está em Portugal em casa de uns amigos meus em algum lado...», refere, despreocupado.

Xuan Du é desde 2014 concertino da Orquestra Sinfónica da Ópera Nacional da China, sediada em Pequim

E ao seu Nicolaus Amati, Xuan junta outro pedaço de história: «uma amiga portuguesa, que é cantora, tinha em casa da família uma caixa com violinos que pertencia ao bisavô. Uma vez mostrou-me a caixa e eu vi um arco francês... uma peça fantástica. É de Eugène Sartory, um dos mais famosos produtores de arcos do século XIX, e ofereceu-mo», conta. Há alguns anos que Xuan faz música com um arco de 1895 e um violino de 1725, ambos certificados pelo próprio nos países de origem. Mas a história não o assusta: «Não é uma responsabilidade, de modo nenhum. Se não os tratares como instrumentos, mas como relíquias, preocupas-te demais. Claro que já caiu, mas não muitas vezes... claro. Até porque é muito frágil. É de madeira. É preciso ter muito cuidado. E tratá-lo com amor», confessa.

Amor esse pela música que aprendeu com a família. «O meu pai toca flauta. A minha mãe era cantora. O meu tio toca clarinete. A minha tia, violino. E os meus avós eram também músicos. O meu avô tocava piano, violino, era muito talentoso», recorda orgulhoso. Mas quando questionado do porquê da escolha do violino, as lembranças tornam-se repentinamente mais turvas. « Lembro-me que queria tocar flauta, mas a minha mãe queria que tocasse violino. Ainda hoje debatemos esse assunto... Quem quis que eu tocasse violino? Não me lembro de ter pedido. Como o meu pai toca flauta, eu sei que queria aprender flauta também....»

Em 2006, tornou-se concertino da Orquestra Sinfónica Portuguesa

Mas eis que Xuan encontra uma resposta: «Já sei! Foi a minha mãe. Disse-me que havia mais emprego nesta área. É incrível como as mulheres são muito mais práticas na forma de pensar [risos]», diz . E esta é mesmo a oportunidade dos pais de Xuan assistirem a um solo do filho em Lisboa: «Chegaram hoje, é a primeira vez deles em Portugal.»

Foi em 1998 que chegou a Lisboa pela primeira vez. «Quem estuda em Pequim, quer sempre vir para a Europa. É o ambiente perfeito para criar novos artistas, seguindo a tradição clássica. Tive uma bolsa de dois locais: da Fundação Oriente e da Universidade de Évora. Uns anos depois ainda fui para Inglaterra, mas voltei sempre a Portugal. Sempre foi a minha casa europeia, por muitos anos», repete.

Durante os 17 anos na Europa, atuou como solista e músico de câmara em vários festivais, tendo dado recitais na Alemanha, Dinamarca, França, Espanha, Portugal e Reino Unido

Embora tenha começado a tocar, como diz, «tarde» - aos dez anos -, dois anos depois já tocava em público e aos 16 ganhava a primeira competição. O «começar tarde» de Xuan tem explicação: «Nos anos 1980, muitos jovens chineses começaram a aprender a tocar violino, piano, clarinete, flauta...e tornou-se uma moda. E não aprendi logo. Esperei um pouco. Os meus pais achavam que era uma profissão difícil, pois nunca sabemos onde nos pode levar. Mas depois perceberam que eu não era muito bom noutras coisas... [risos] e então lá aprendi musica. E acho que não se arrependeram!», diz ainda.

Há ainda mais razões para ir assistir ao concerto de Xuan Du. O músico responde: «pode ser em português? - pergunta imediatamente - preciso falar em português. É a língua da emoção. Aqui sinto-me em casa e adoro ouvir as pessoas a falar português, por isso quanto mais pessoas vierem, mais contente fico», conclui.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)