Premium "Já merecíamos ter ido à final do Mundial em 1998"

Fez parte da seleção croata que conseguiu o 3.º lugar em 1998 depois de ter combatido na guerra dos balcãs. Agora, a sua geração é superada pela de Modric. Para quem Krpan pede o prémio de melhor do mundo.

"O verdadeiro herói da nossa geração é Petar Krpan. Enquanto nós fazíamos a guerra em Milão, Madrid, Alemanha e França, ele era um menor na frente de batalha em Osijek, com uma espingarda na mão", disse em tempos Zvonimir Boban, capitão e um dos grandes nomes da seleção croata que chegou às meias-finais do Mundial 1998 e da qual fazia parte também o avançado que logo depois passaria por Portugal, contratado pelo Sporting.

Krpan não jogou mais do que 14 minutos nesse campeonato do mundo, no jogo dos oitavos-de-final frente à Roménia, e não será, futebolisticamente, a figura mais importante de uma geração que incluía craques como Prosinecki, Bilic, Jarni e Davor Suker, entre outros, como o já citado Boban.

Mas a sua história de luta e resistência numa então jovem Croácia independente que passara por uma guerra sangrenta - que vitimou mais de 20 mil pessoas e obrigou quase meio milhão a fugir das suas casas - faz de Krpan um símbolo daquela seleção que se estreou (e encantou) num Mundial há 20 anos, caindo apenas nas meias-finais frente à anfitriã França, que haveria de se sagrar campeã.

Agora, 20 anos depois, a Croácia celebra o feito dos sucessores dessa geração. Festeja uma final inédita conquistada por uma nova fornada de talentosos futebolistas liderados por Luka Modric, Ivan Rakitic e Mario Mandzukic. A geração dourada de 98 passa por fim o testemunho.

"Felizmente hoje podemos falar só de futebol"

Atual selecionador de sub-17 da Croácia, Petar Krpan foi mais um entre os cerca de quatro milhões de croatas que viveram em êxtase o apuramento histórico para a final de domingo. O antigo avançado, que teve uma passagem discreta pelo Sporting e jogou ainda na União de Leiria, conta ao DN, em conversa telefónica, que a Croácia viveu uma "noite maravilhosa" na quarta-feira, com a vitória sobre a Inglaterra nas meias-finais do Mundial 2018.

"Zagreb, Split, em todas as cidades houve grande festa a noite toda. Na primeira parte pensei que íamos perder, mas acabámos por ganhar e isso é o mais importante. Grande jogo na segunda parte e no prolongamento. Penso que aqui ainda ninguém acredita", descreve, nada preocupado em poder cair no esquecimento, agora que a Croácia tem novos heróis para celebrar. "Vinte anos depois ainda toda a gente fala sobre a nossa equipa. Agora, provavelmente, vai deixar de se falar. O que é um excelente sinal para a Croácia", sublinha Krpan.

As memórias da guerra nunca se esquecem e muitas das figuras da atual seleção croata ainda foram marcadas, direta ou indiretamente, por esse conflito que esventrou os Balcãs na década de 90. Luka Modric, por exemplo, tinha 5 anos quando a guerra estalou e foi obrigado a fugir com a família. Viu o avô ser executado pelos rebeldes servo-croatas, teve a casa de família queimada, viveu anos como refugiado em hotéis... São marcas que não se apagam, mas "felizmente agora podemos falar só de futebol e celebrar", regozija-se Krpan.

A rapidez na frente de ataque do NK Osijek fez dele um dos promissores talentos do futebol croata naquela época, premiado em ano de Mundial com a chamada à seleção de Miroslav Blazevic. Krpan era um símbolo de esperança e resiliência da jovem Croácia independente. Beneficiou também da lesão de Alen Boksic, um dos principais avançados daquela geração, meses antes do torneio.

"Foi o ponto alto da minha carreira, sim. Um momento eterno. Só joguei 14 minutos, mas aquilo era uma grande equipa. Tinha um meio-campo fantástico e era uma seleção recheada de excelentes jogadores, que jogavam em alguns dos melhores clubes do mundo. Boban jogava no Milan, que era das melhores equipas do mundo na altura, Prosinecki já tinha jogado no Real Madrid e no Barcelona, Suker jogava no Real Madrid e foi o melhor marcador do campeonato do mundo...", recorda.

"Na final teríamos ganho àquele Brasil"

As comparações entre a seleção croata de 98 e a atual têm sido um dos principais temas de discussão em redor da campanha da Croácia neste Mundial. Krpan não se sente capaz de escolher. Ou pelo menos não quer entrar nesse jogo. "São duas grandes equipas", equipara, lembrando que a sua seleção de 98 poderia perfeitamente ter sido campeã do mundo.

"Merecíamos ter ido à final em 98. E com aquele Brasil, que não jogava nada e teve o problema do Ronaldo, tínhamos ganho a final", considera o ex-jogador, agora com 44 anos, puxando o filme atrás sobre aquele torneio em que a seleção croata perdeu na meia-final e ficou em terceiro lugar (após bater a Holanda no jogo de 3.º e 4.º lugares).

"Em 1998 marcámos primeiro na meia-final contra a França, mas depois o Thuram fez dois golos. O Thuram... que nunca tinha marcado nenhum golo e nunca mais marcou outro", refere, sublinhando os fatores imponderáveis que sempre afetam um jogo de futebol.

"Com a França apenas não tivemos sorte, ao contrário do que já tivemos neste Mundial. Ainda ontem, por exemplo, o inglês Kane teve uma oportunidade para fazer outro golo na primeira parte e falhou. Na segunda, o Stones também quase marcou. Com a França em 98 eles tiveram duas oportunidades e marcaram", ilustra.

Agora, a atual geração croata tem a oportunidade de vingar essa meia-final perdida. O adversário na final de domingo é precisamente a França, de novo. Krpan está confiante. "É sempre 50-50 na final. Está tudo em aberto. Mas estou muito confiante, sim. Luka (Modric), Rakitic, Mandzukic, estão todos a jogar muito bem", diz o antigo avançado, que, além do talento (à vista de todos), elogia a atitude guerreira de uma equipa que teve de ultrapassar três prolongamentos e dois desempates por penáltis para chegar ao jogo decisivo de domingo, no qual vai entrar em campo com mais uma partida completa nas pernas (90 minutos) em relação aos franceses.

"Já mostrámos que temos muita capacidade de luta. Os jogadores ingleses diziam que nós não íamos conseguir correr na meia-final, por já termos jogado dois prolongamentos, e ainda corremos mais do que eles. Nós temos um grande coração, damos sempre tudo pelo país", frisa o homem que em adolescente recusou deixar para trás a sua casa e a sua cidade, face aos ataques sérvios.

Bola de Ouro para Modric

Petar Krpan faz uma outra analogia entre a sua seleção croata e a atual: tal como há 20 anos, também esta geração chega ao Mundial na fase perfeita de maturação. "A equipa está com uma boa dose de experiência e na idade certa para estas competições, como aconteceu em 1998. Há jogadores, como Luka, Manzdzukic ou Rakitic, que têm 30/32 anos. Fazem este Mundial e talvez mais um Campeonato da Europa. Esta é a última oportunidade para brilhar num Campeonato do Mundo", nota.

Oportunidade também, considera Krpan, para o mundo do futebol coroar o talento de Luka Modric como ele merece. Robert Prosinecki, talvez o mais prodigioso futebolista daquela geração croata de 98, disse há pouco tempo que Modric é o maior talento da história da Croácia. E Krpan reclama que lhe seja feita justiça com a atribuição, neste ano, do prémio de Melhor do Mundo pela FIFA - rompendo o duopólio Ronaldo-Messi que se prolonga há uma década.

"Este ano o prémio tem de ser para Modric. E não só pela seleção. O Real Madrid também não pode jogar sem ele. Nos últimos anos ele e Ronaldo foram os mais importantes nas Champions do Real. Na seleção é a mesma coisa. Ainda contra a Inglaterra vimos isso. Na primeira parte ele não jogou bem e a Croácia quase não jogou. Depois ele melhorou e foi o que se viu. Agora, com a Croácia na final, ele tem de ser o Bola de Ouro deste ano."

Krpan e os restantes 22 jogadores da seleção de 1998 foram convidados para assistir à final de domingo frente à França. Um deles, Davor Suker, é mesmo o atual presidente da federação croata. Outro, Boban, é secretário-geral adjunto da FIFA. O antigo avançado do Sporting não vai faltar à chamada. Aliás, diz, foi a todos os jogos, com a família, exceto a meia-final com a Inglaterra. Espera sair de Moscovo feliz, com "o título que a Croácia merece", mesmo se a França "também tem uma grandíssima equipa, com Mbappé, Griezmann, Pogba..."

Se bater a França, no domingo, a Croácia torna-se o país menos populoso a sagrar-se campeão do mundo de futebol desde o Uruguai (1930 e 1950). Um viveiro de talentos difícil de explicar. "Não sei como um país tão pequeno consegue fazer tantos grandes jogadores, sinceramente", diz Krpan.

Mas não tem dúvidas de que a Croácia continuará a produzir grandes gerações de futebolistas. Palavra de selecionador sub-17, que diz já ter nessa faixa etária "novos Modrics e Rakitics a acabar de formar". Pela amostra histórica, não custa a acreditar.

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