Premium As estreias: do cinema francês a Javier Bardem como Pablo Escobar

João Lopes, Rui Pedro Tendinha e Inês N. Lourenço analisam as melhores estreias nas salas de cinema portuguesas.

Pablo Escobar deu uma barriga canastrona a Bardem

Amar Pablo, Odiar Escobar, de Fernando Leónde Aranoa

porRui Pedro Tendinha

Depois de Escobar: Paraíso Perdido, com Benicio Del Toro, agora é Javier Bardem a ganhar a barriga do maior traficante de cocaína de sempre. Amar Pablo, Odiar Escobar é também mais um encontro de Bardem com a mulher, Penélope Cruz.

Podemos nunca ter visto mas sabemos o que as telenovelas da América Latina gastam: enredos simplistas, amores fatalistas e lixeira moral. Pois bem, o novo do realizador de Às Segundas ao Sol (2002, um dos grandes filmes no novo século do cinema espanhol) tem involuntariamente o mesmo esquema. A vida de Pablo Escobar (Javier Bardem), o narcotraficante colombiano, como fonte de torniquete de telenovela: os amores, a fuga, os filhos e as reviravoltas. Tudo é histérico nesta adaptação do livro de uma das suas amantes, a apresentadora de televisão Virginia Vallejo, que acompanhou de perto o criador do cartel de Medellín no seu percurso de poder e de desafio aos EUA e à DEA, a polícia americana que tentou derrubá-lo durante anos.

O filme mostra-nos um Pablo capaz de matar sem pestanejar e sem problemas em descartar amigos e amantes. Um homem de negócios que fazia do populismo uma das suas grandes forças, conseguindo continuar a gerar o negócio de exportação de cocaína mesmo dentro de uma prisão gerida em função das suas necessidades. Apesar de a relação entre Pablo e Virginia ser o centro da história, o guião preocupa-se sempre muito em mostrar o outro lado de Pablo, marido e pai, bem como filantropo interesseiro: ajudava a população mais pobre mas explorava os jovens, formando os órfãos na atividade de sicários, agentes criminosos encarregues de executar polícias, juízes e outros narcotraficantes.

Loving Pablo é um filme que poderia alcançar alturas mas que se queda no lembrete da encomenda: ilustrar aquilo que estamos à espera numa história de um criminoso mediático.

O mais chocante nesta nova obra de Fernando León de Aranoa é não dar qualquer dimensão ao homem, um Escobar boneco dos clichés dos latinos mauzões cabotinos. Show-off e mais show-off num filme que até parece vender a ideia de que Javier Bardem e Penélope Cruz não têm química, inclusive num festival de glitz latino. Felizmente o casal regressa em breve no mais estimável Todos lo Sabén, do iraniano Asghar Farhadi.

Seleção gourmet de filmes franceses

O cinema dos "Padrinhos da Nouvelle Vague" chegou ao Espaço Nimas. São 16 obras essenciais para ver até ao final do verão.

porInês N. Lourenço

Se já nos tinha saído a sorte grande com os ciclos de cinema japonês e russo, imagine-se um verão de dieta cinéfila francesa. A Leopardo Filmes está em força na divulgação dos clássicos, e agora é a vez de um precioso leque de 16 filmes dos "Grandes Mestres" que foram os "Padrinhos da Nouvelle Vague". É sob este desígnio que se vai poder descobrir ou revisitar obras - compreendidas entre a década de 1930 e os anos 1960 - de cineastas inspiradores para a geração desses outros que nasceram na escola dos Cahiers du Cinéma. O francês é então, por estes dias (e até 3 de outubro), a língua oficial na sala do Espaço Nimas, em Lisboa. Independentemente de a seleção francesa ganhar ou não o Mundial de futebol.

Para uma degustação sem pressas, o ciclo está dividido em fases, cada uma delas com quatro títulos e várias sessões dos mesmos. Estamos já na primeira etapa, que começou com Dois Homens em Manhattan (1959), de Jean-Pierre Melville, um dos filmes próximos, até no tempo, das paixões estéticas da Nouvelle Vague, com o elogio à respiração citadina e sobretudo ao noir americano - aqui, em particular, o jornalismo é analisado entre a luz e a sombra. Depois deste, Olhos sem Rosto (1960), de Georges Franju, com uma inesquecível Edith Scob de face coberta, porque desfigurada, leva-nos pelos caminhos do drama e do terror poético, com um final tão tenebroso quanto encantador. Muito diferente é O Crime do Sr. Lange, também por ser um título de 1936, e porque carrega consigo esse tempo preciso: é o mais "Frente Popular" dos filmes de Jean Renoir, numa estreita colaboração com o poeta Jacques Prévert no argumento. Este é de raro visionamento, e a sessão de dia 29 conta com a presença do respeitadíssimo crítico Jean Douchet.

Por último, em estilo de joia da coroa, surge Madame de... (1953), do alemão que emprestou ao cinema francês uma dose dupla de savoir faire, Max Ophüls. É ver como Danielle Darrieux, na pele de uma aristocrata, se movimenta em frente à câmara, na sua pequena odisseia circular atrás de um par de brincos.

A saga continua com mais de le patron Renoir, desta vez, a cores deslumbrantes: Helena e os Homens (1956) e French Cancan (1955). Filmes mais frescos do que estes para dias quentes não há... De Ophüls temos ainda, no final do ciclo, O Prazer (1952), e na grande roda entram também Jacques Becker, Marcel Pagnol, Robert Bresson, Jean Cocteau, Louis Malle e um nome esquecido que importa redescobrir nestas encruzilhadas cinéfilas: Sacha Guitry. Para isso não há melhor remédio do que...Veneno (1951), para ver nos últimos dias do programa, com um Michel Simon dentro dos seus parâmetros de excelência e uma amargura sem igual.

Se isto não é um luxo, o que é?

E vivam os clássicos

É tempo de celebração dos 100 anos do nascimento de Ingmar Bergman e também de redescoberta de alguns grandes filmes clássicos.

por João Lopes

Blockbusters de verão? O marketing diz que sim, mas esperemos que o espectador valorize a descoberta, não a rotina. Que é como quem diz: começa nesta semana um grande ciclo de reposições de clássicos do cinema francês (até outubro). Entre as maravilhas que regressam, em versões digitais restauradas, há uma pérola de Jean-Pierre Melville, Dois Homens em Manhattan (1959), título muito esquecido, mas fundamental, dos tempos heroicos da Nova Vaga francesa. E atenção: também temos Bergman!

SARABAND. Produzido em 2003, foi o filme final de Ingmar Bergman, recuperando o casal interpretado por Liv Ullmann e Erland Josephson que já estivera no centro de Cenas da Vida Conjugal (1973): uma viagem comovente pelos segredos das relações humanas e também um objeto pioneiro na utilização de câmaras digitais. Bergman nasceu a 14 de julho de 1918 e as suas histórias continuam a falar para a nossa intimidade.

NO CORAÇÃO DA ESCURIDÃO.Taxi Driver? Touro Enraivecido? A Última Tentação de Cristo? O leitor saberá que são momentos incontornáveis da filmografia de Martin Scorsese. Mas já reparou que todos eles foram escritos pelo mesmo argumentista? Quem? Paul Schrader. Pois bem, Schrader continua a desenvolver a sua obra como realizador, aliás iniciada há várias décadas (American Gigolo, por exemplo, é de 1980). Agora, em No Coração da Escuridão, encena as vivências de um pastor protestante, interpretado por Ethan Hawke, que enfrenta as dúvidas da sua própria fé através da descoberta de indícios daquilo que pode ser um ato terrorista... Metódico, subtil, perturbante, é desde já um dos filmes maiores deste ano.

ARRANHA-CÉUS. Os estúdios americanos passaram a obter uma fatia importante das suas receitas no mercado chinês. Daí o aparecimento de algumas produções EUA-China. É o caso deste típico blockbuster de verão, centrado num simpático Dwayne Johnson cujas proezas físicas desafiam a nossa pequenez humana - por terra, ar ou guindaste... Enfim, encomenda-se um esboço de argumento capaz de apresentar uma "situação" nos primeiros dez minutos, para depois se entregar ao departamento de efeitos especiais a já habitual acumulação de ruídos e explosões. Monótono até ao tédio.

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