Bebé de Vânia continua no hospital. "O Rafael precisa é de amor e de carinho"

Menino nasceu quatro horas antes de a mãe morrer no hospital de Setúbal. "Gostava de o criar como se fosse um filho. E a minha mãe ia ficar orgulhosa", diz a irmã mais velha do bebé. Mas Tânia sabe que Rafael tem um pai e só quer que seja amado.

Três quilos de gente e uma longa história para contar. Rafael nasceu no dia 3 de agosto às 13.55, no hospital de Setúbal, e às 18.15, a mãe, Vânia Graúdo, morreu. Para trás ficaram dois longos dias, durante os quais Vânia foi medicada para indução do parto. Tinha entrado na maternidade confiante de que iria fazer uma cesariana e laqueação de trompas. Não foi nada disso que aconteceu: mãe e filho não chegaram a conhecer-se.

Mais de uma semana depois da morte da mãe, o bebé continua internado nos serviços de neonatologia do Hospital de São Bernardo, mas a família ainda não sabe quando terá alta. A irmã de Rafael, Tânia Matias, com 21 anos, é a filha mais velha de Vânia (42). Está a viver o pior momento da sua vida - a perda da mãe, quando o que mais queria era estar a celebrar o nascimento do irmão. "Sinto muito revolta. Ainda não caí bem em mim."

Tânia conhece o irmão, que viu uma única vez, através de um vidro. Não pôde pegá-lo ao colo como tanto desejava, mas a voz alegra-se quando fala dele. "É gordinho e moreninho, tem muito cabelo." Por causa das restrições impostas pela pandemia de covid-19, as visitas são restritas e Rafael só recebe a da tia materna, Carina Gaspar, e do pai. Excecionalmente, e depois de dizer que era filha da mulher que tinha morrido depois de dar à luz, Tânia pôde entrar no serviço e ver o irmão, o único rapaz dos três irmãos. Tânia tem outra irmã, de 14 anos, que como ela é fruto do primeiro casamento de Vânia.

"Já pensei em ficar com ele, gostava, mas ainda estou a digerir tudo o que aconteceu." Tânia garante que até teria condições, porque tem emprego - trabalha na cozinha do hospital do Barreiro.

"Gostava de o criar como se fosse um filho. E a minha mãe ia ficar orgulhosa."

Mas também sabe que o Rafael tem um pai e, por isso, sublinha que o importante é que o irmão tenha "amor e carinho". E é isso que lhe promete a tia paterna, Carina Gaspar, que já recebeu o pai de Rafael, Jorge, e irá receber também o bebé. "Vão viver na minha casa. Vou ajudar o meu irmão, um homem sozinho, neste momento", diz. Rafael é o primeiro filho de Jorge.

Agora, como não pode ver o irmão, Tânia vai tendo notícias dele através de Carina, que lhe manda fotografias e lhe diz como a criança está a recuperar - nos primeiros dias, esteve com uma sonda, porque terá ingerido líquido amniótico, mas, segundo o próprio hospital, está "estável".

A outra tia, a milhares de quilómetros

A milhares de quilómetros de Rafael vai estar a tia materna do bebé. Paula Oliveira vive há 14 anos no Luxemburgo e é lá que tem a sua vida, sabe que pouco vai ver Rafael, filho da sua única irmã. Parte desgostosa, com muita pena de não ter conhecido o menino. Foi feito um pedido ao hospital para que a deixassem visitar o bebé, mas nesta quarta-feira, 12 de agosto, ainda não tinha tido resposta.

Paula regressa ao Luxemburgo com outra mágoa: a de não se ter despedido da irmã, que foi na terça-feira a enterrar no Pinhal Novo. Mais de uma semana após o óbito, o caixão de Vânia não foi aberto para a família lhe dar o último adeus, da forma como gostaria.

"A outra tia, a Carina, disse que me vai enviando fotos dele, mas estar a ver uma foto não é a mesma coisa que estar ao pé de mim."

A mãe de Rafael deu entrada na maternidade do Hospital de São Bernardo no sábado, dia 1 de agosto. Pensava que ia fazer uma cesariana e uma laqueação de trompas, mas segundo a irmã Paula foi-lhe dito que o bebé iria nascer por parto normal, como as duas outras filhas. Esteve no sábado e no domingo medicada para indução do parto, mas a criança só nasceu às 13.55 de segunda-feira. Quatro horas depois, a mãe morreu.

Parto induzido durante dois dias

Na resposta que deu ao DN, o hospital de Setúbal confirma que o parto foi induzido durante dois dias. "Foi iniciada a indução de trabalho de parto às 17.45 de dia 1/8/2020 com a administração medicamentosa, e continuada no dia 2/8/2020, segundo protocolo habitual, e cuja rapidez do efeito é variável de mulher para mulher. Durante todo este período a grávida e o bebé permaneceram monitorizados com CTG sem intercorrências, até um início de um quadro convulsivo súbito." Mas nega que tivesse sido decidido anteriormente que a mulher faria uma cesariana: "Foi realizada a indução de trabalho de parto no dia 1/8/2020, conforme planeado com a grávida em consulta de vigilância realizada em 29-07-2020."

A "embolia de líquido amniótico é uma das hipóteses de primeira linha perante um quadro clínico súbito após a rutura da bolsa de águas", refere o hospital.

Sendo rara, a embolia de líquido amniótico regista, contudo, "elevada mortalidade", segundo um artigo publicado na revista cientifica da Ordem dos Médicos, Acta Médica Portuguesa, e tem maior risco de ocorrer em cesarianas e partos com fórceps, bem como em mulheres mais velhas.

O que a filha e a irmã de Vânia questionam é o porquê de tanto tempo a induzir o parto, ainda mais que na consulta de dia 29 de julho já tinha sido detetado níveis elevados de líquido amniótico à grávida, conforme disse ao DN Paula Oliveira.

Tânia Matias, a filha, apresentou nesta quarta-feira queixa no Ministério Público porque quer saber por que razão a mãe morreu. O hospital de Setúbal anunciou entretanto que já abriu um processo para averiguar e esclarecer as circunstâncias da morte, que lamentou, de Vânia Graúdo. A Ordem dos Médicos respondeu ao DN que aguarda pelos resultados desse inquérito interno para, depois de ter acesso a todos os factos, poder analisar o caso "na totalidade".

Notícia atualizada às 15.46 com a posição da Ordem dos Médicos.

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