Premium País latino-americano com mais refugiados recebe cinco mil venezuelanos por dia

O Equador foi obrigado a declarar situação de emergência pela entrada massiva de venezuelanos na última semana. A maioria dos que fogem da crise política e económica na Venezuela segue para outros países a sul. Até final de julho só quatro mil tinham pedido refúgio num país que acolhe 62 909 refugiados.

Entre janeiro e agosto, 60 309 migrantes e refugiados entraram na Europa após cruzar o Mediterrâneo, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM). No mesmo período, 547 mil venezuelanos, ou seja, quase dez vezes mais, entraram no Equador. Na última semana, a entrada ao ritmo de cinco mil por dia obrigou Quito a declarar o estado de emergência para as suas províncias mais a norte, de forma a garantir a atenção necessária aos migrantes.

De todos os que cruzaram a fronteira terrestre entre a Colômbia e o Equador, muitos dos quais após dias ou semanas a caminhar desde a fronteira venezuelana, só 20% ficam neste país. A grande maioria continua a viagem mais para sul, principalmente para o Peru ou o Chile.

"Muitos dos venezuelanos estão a mover-se a pé numa odisseia de dias e até semanas em situação precária", disse o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), William Spindler. "Muitos ficaram sem recursos e têm de dormir em parques e começar a mendigar ou adotar comportamentos negativos para suprir as suas necessidades diárias", lamentou.

Até ao final de julho, só quatro mil venezuelanos tinham pedido asilo no Equador, que é o campeão no acolhimento aos refugiados na América Latina. No final dos sete primeiros meses do ano, havia 62 909 refugiados no Equador, em 16,4 milhões de habitantes. Um número superior ao registado em todos os outros países da América Latina - no Brasil, onde vivem 207 milhões de pessoas, estão registados cerca de dez mil (apesar de haver muitos mais pedidos).

Porquê tantos refugiados?

A Constituição do Equador de 2008 concede os mesmos direitos aos refugiados que aos cidadãos nacionais. Desde janeiro de 2017, com a aprovação da Lei da Mobilidade Humana, estes têm também direito a um bilhete de identidade que é igual ao de um estrangeiro que vive legalmente no país ou qualquer equatoriano. Algo que reduz a discriminação e elimina obstáculos no momento de aceder a serviços ou encontrar trabalho.

O mais famoso refugiado do Equador é Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, que pediu asilo político na embaixada equatoriana em Londres em junho de 2012. O australiano, que era procurado na Suécia para ser interrogado num caso de abusos sexuais, tinha receio de ser extraditado depois para os EUA, onde podia ser acusado por revelar documentos secretos norte-americanos. Desde 2012, nunca saiu da embaixada, tendo-lhe sido dada a cidadania equatoriana em dezembro de 2017.

Apesar de entre os refugiados haver representantes de mais de 70 países, a grande maioria (98%) são da Colômbia, tendo fugido à violência e à guerra que durou mais de quatro décadas no país vizinho. Contudo, neste ano, pela primeira vez, os pedidos de asilo de venezuelanos superaram os de colombianos, segundo as Nações Unidas.

Os venezuelanos estão a fugir como nunca devido à grave crise económica e política no país liderado pelo presidente Nicolás Maduro.

Apesar de ter as maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela enfrenta uma crise que se traduz numa escassez de alimentos básicos e medicamentos, assim como deterioração dos serviços públicos e uma inflação que, segundo o Fundo Monetário Internacional, pode chegar a 1 000 000% no final de 2018. O governo aponta o dedo à "guerra económica", liderada pelos EUA e pela Colômbia.

Receio aumentou fluxo migratório

O aumento do número de entradas de venezuelanos no Equador no mês de agosto (nos meses anteriores, a média era de 500 ou mil entradas por dia) deveu-se ao receio de que o novo presidente colombiano, Iván Duque, que tomou posse nesta semana, pudesse ordenar o fecho das fronteiras com a Venezuela. Desde o início da crise e do êxodo, em 2015, mais de um milhão de venezuelanos cruzaram a fronteira com a Colômbia.

"Havia rumores de que a fronteira com a Venezuela ia ser fechada e saí mais cedo para evitar ficar presa", disse à Reuters Irene Bravo, de 55 anos, enquanto esperava na Colômbia a autorização para entrar no Equador. "A situação está insustentável na Venezuela. Tudo é caro e não podemos comer", acrescentou, dizendo planear continuar com os dois filhos e restante família até ao Chile.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.