"Esses fanáticos dos direitos dos animais não sabem nada de natureza"

É, há 26 anos, a voz portuguesa dos documentários de vida selvagem. Esta é a extraordinária história de Eduardo Rêgo, a única pessoa capaz de nos emocionar com a descrição do ritual de acasalamento dos escaravelhos.

Ricardo J. Rodrigues
 | foto Diana Quintela/Global Imagens
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Um presépio vivo com Eduardo, a mulher, a filha e as sobrinhas, no início dos anos 1980. | foto Diana Quintela/Global Imagens
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Em passeio pela ilha da Madeira, nos anos 1990. Foi nesta altura que começou a gravar o "BBC Vida Selvagem". | foto Diana Quintela/Global Imagens
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O primeiro single a solo chamava-se "É Preciso Renascer" e foi editado em 1976. | foto Diana Quintela/Global Imagens
A gravar o "BBC Vida Selvagem" nos estúdios da SIC. | foto Diana Quintela/Global Imagens
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O programa da última terça-feira falava sobre o comportamento das girafas. | foto Diana Quintela/Global Imagens

"Não é mais nem menos do que um Ferrari. Pode não aguentar muito tempo, mas é o mais rápido de entre os mais rápidos. É o Fórmula 1 da natureza." É assim que Eduardo Rêgo descreve a chita, o seu animal favorito.

Fá-lo com um tom pausado e envolvente, o mesmo com que há 26 anos dá voz aos documentários sobre animais que passam na televisão portuguesa. Sobretudo estes: os da National Geographic e a série BBC Vida Selvagem. Esta conversa, no entanto, acontece longe do estúdio, dentro de casa. Quem é este homem?

Tem uma voz reconhecível para quase todas as gerações, ainda que o seu rosto sempre se tenha mantido num relativo anonimato. Eduardo Rêgo só é reconhecido nas ruas quando fala - e já por um par de vezes abriu a boca e, em vez de lhe pedirem uma selfie ou um autógrafo, desafiaram-no a gravar uma frase para o gravador do telemóvel.

Todas as terças, ao final da manhã, Eduardo Rêgo sai da sua casa em Santo António da Caparica e ruma aos estúdios da SIC para gravar histórias de amor e perseguição, superação e improbabilidade. As personagens são sempre os bichos e, após 26 anos a contar-lhes a história, diz preservar "um fascínio adolescente pela forma como a realidade supera a ficção na vida selvagem".

Ele é o único locutor do mundo autorizado a contornar os textos de Sir David Attenborough, o naturalista que criou os programas originais. "Tenho um consultor científico, biólogo, que me ajuda a perceber e alterar algumas coisas para poder fazer uma narrativa mais minha. O entusiasmo que passo para o microfone é aquele que sinto. Quando percebemos o mundo animal ele é capaz de ser absolutamente comovente, de revelar quão bela pode ser a vida neste planeta."

Uma parte incontornável dessa beleza, advoga, é a crueldade da seleção natural. "Irrito-me imenso com esta nova vaga de defensores fanáticos dos animais. São pessoas que não sabem nada de natureza." Há os posts do Facebook em que alguém diz tem um menino ou uma menina para adoção, por exemplo. "Este processo de humanização dos seres irracionais é, em si, uma falta de respeito por eles. Pelos seus instintos naturais."

Dá mais exemplos: quando uma criança caiu no fosso de um gorila do zoo de Cincinatti, as autoridades abateram o animal e isso levantou um coro de protestos. "Mas quando está em risco uma vida humana, ainda mais de uma criança, como é que se pode equacionar sequer não lhe dar a primazia? Não podemos tolerar o sofrimento animal, mas também não podemos colocá-lo num pedestal sem sentido."

Acredita convictamente que estas pessoas, a quem chama de radicais da defesa dos animais, têm vivências demasiado urbanas - e pouco contacto com a natureza. "A humanidade deixou de ter o terreno ao pé, está demasiado encaixada nas gavetas das urbanizações e, daí, não consegue perceber o equilíbrio natural das coisas."

Depois tenta explicar a mesma ideia, de uma maneira mais simples: "O predador ataca a presa, queira-se ou não. Pretender mudar a realidade do reino animal é de uma soberba sem sentido."

Foi também por isso que há dois anos fundou uma organização não governamental de defesa do ambiente e da vida selvagem, a Loving the Planet. Organiza formações, promove boas práticas, certifica as empresas que têm um comportamento amigo do ambiente.

O projeto para a sede do movimento está pronto, e as obras vão arrancar ainda neste ano. "O meu objetivo é fazer desta uma organização mundial." As redes sociais, acredita ele, são quanto baste para juntar esforços. "Há cada vez mais gente preocupada com o planeta. Agora, temos de ajudar as pessoas a perceber o que está de facto a acontecer."

Passar 26 anos a dar voz a documentários de natureza tornou-o, de alguma forma, "guerrilheiro verde". E isso não deixa de o surpreender: "As voltas que a minha vida deu para chegar aqui. Nunca poderia imaginar que seria isto que queria fazer aos 68 anos." É que Eduardo Rêgo é proprietário de uma extraordinária história de vida. Eis um padre que nunca chegou a sê-lo, eis um revolucionário católico, eis um cantor romântico, eis um ambientalista inteiro.

Eduardo Rêgo nasceu em Famalicão em 1951, tem 68 anos. "Apareci neste mundo numa pequena aldeia chamada Louro, banhada pelo rio Este, um afluente do Ave. E ainda hoje acho que o meu fascínio pela natureza vem daquelas margens, da curiosidade pelas rãs, pelos loureiros que cresciam nas margens. O Minho é pródigo em belezas, veios de água - e sempre senti que aquele rio era o princípio da vida. Passava horas a ver o mundo acontecer ali."

Cresceu no seio de uma família modesta. A mãe em casa, o pai com ofício de debuchador - trabalhava os desenhos que iam aos teares da indústria textil. "Quando acabei a quarta classe, aos 10 anos, fui trabalhar para a fiação de uma fábrica." Quatro anos naquilo, mas uma sede de mundo que o frustrava.

"Foram os meus tios que me toparam a curiosidade e me propuseram ir para o seminário. Pagaram eles as propinas e até hoje nunca soube como agradecer-lhes por isso." Fê-lo mais para poder estudar do que por vocação eclesiástica, admite. Mas, para um miúdo que nunca tinha saído da sua aldeia, era o início de uma espetacular aventura.

Tinha 14 anos quando entrou para o Verbo Divino, em Guimarães. "O seminário não parecia um seminário. Tinha cor, tinha grandes vidraças que me abriram os horizontes. Foi lá que ouvi pela primeira vez música. Imagine, eu nunca tinha ouvido música. Mas depois ela tornou-se uma parte essencial de mim."

Com mais um grupo de seminaristas criou uma banda de yé-yé chamada The Stars. Tocavam para os outros rapazes da instituição, tocavam para as famílias e houve um dia que tocaram na sua aldeia. "Fiz uns cartões-de-visita e tudo. Quando os padres me apanharam, fui expulso. Devia ter uns 16 anos. Mas depois readmitiram-me outra vez."

Depois da morte do pai, em 1969, veio para Lisboa, e foi aí que começou a desenvolver uma consciência política. "Mudei-me para o Seminário Franciscano da Luz, que era onde se concentravam os católicos progressistas e antirregime." Tinha amigos de Famalicão que agora viviam na capital, e lhe contavam os horrores a que tinham assistido na guerra.

Alguns padres falavam mal de Salazar e de Caetano. "Nunca receei dizer que o regime estava podre, e o facto de ser representante dos estudantes de Teologia safou-me de problemas com a PIDE." A única vez que temeu ter problemas foi quando foi assistir por sua conta e risco a um concerto de Zeca Afonso. Deve ter sido em 1973 e sentia-se no ar que aí vinha um sopro de liberdade."

A Revolução dos Cravos apanhou-o a caminho da universidade, mas depois voltou atrás e passou o dia agarrado à rádio. Diz que chorou de alegria quando percebeu que o regime tinha caído. Foram esses dias, aliás, que o fizeram desistir da ideia de ser padre. "Ao mesmo tempo que houve um PREC [Processo Revolucionário em Curso] em Portugal, abriu-se outro na minha alma."

Em 1973 tinha começado a participar num programa da Rádio Renascença. "Havia todos os dias a reza do terço e havia um grupo de jovens que estava encarregado de animar os momentos entre pais-nossos e aves-marias com cantigas, reflexões, poemas, coisas assim." Foi ali que conheceu a mulher, com quem acabaria por se casar no final da década.

Demorou uns anos a atravessar o deserto até conseguir assumir que queria abandonar o seminário. Mas já tinha interesses novos, e a música era o caminho que agora queria trilhar. Gravou dois discos em 1976, que tiveram um relativo sucesso. Uma Estrela... É Natal, primeiro, e depois É Preciso Renascer.

Em 1977, pôs termo definitivo à sua vida religiosa. Sabia o que queria fazer, por isso a primeira coisa que fez foi dirigir-se ao padre Rocha e Melo, que geria a Rádio Renascença, e pedir-lhe vaga de locutor. Fazia um programa chamado Dia Positivo, aos domingos, das 07.00 às 11.00. "Poemas, entrevistas, música e histórias da natureza, já tinha o bichinho."

A chegada das televisões privadas catapultou-o para um novo voo. "Balsemão convidou-me para fazer os documentários de natureza e eu aceitei." Foi em 1992, depois de ter dado voz a duas ou três reportagens da National Geographic na RTP. A partir daí, entrou no imaginário de gerações inteiras. Bem vistas as coisas, Eduardo Rêgo também tem o seu lado de chita. A corrida rápida que arrancou há 26 anos resultou numa caçada épica. A natureza, a vida selvagem, ficarão para sempre com o seu timbre.