Premium Luzes de Aquilino na noite europeia

O hoje muito esquecido filósofo da história, Oswald Spengler (1880-1936), demonstrou com génio a natureza não linear do tempo histórico. A vizinhança temporal na história não se mede na métrica dos anos, mas sim na afinidade semântica das épocas. Voltei a sentir o rigor de Spengler ao reler dois livros extraordinários de Aquilino Ribeiro (1885-1963), sobre uma Europa, política, económica e sobretudo moralmente desfigurada e exangue. São textos escritos entre 1914 e 1920, mas só publicados como livros pela Bertrand - enriquecidos com soberbas páginas introdutórias -, respetivamente, em 1934 (É a Guerra) e 1935 (Alemanha Ensanguentada).

Em É a Guerra, Aquilino descreve-nos como, nas primeiras semanas da Grande Guerra, Paris - numa Europa que mobilizava freneticamente a sua juventude para se imolar nos campos de batalha - ficou dominada pelo veneno do ódio chauvinista e pela droga do nacionalismo tóxico, de que os jornais se transformavam nos principais inoculadores. Nas páginas de Aquilino assistimos ao agonizar - às mãos do vírus das "identidades assassinas" (para citar um apropriado título de Amin Maalouf) - do valor da objetividade e da capacidade de pensar contra si próprio, de que tanto se orgulham os europeus nos tempos de calmaria. Aquilino, casado na altura com a sua primeira mulher, a jovem alemã Grete Tiedemann (1890-1927), e com o seu filho Aníbal, recém-nascido, regressa a Portugal, exausto e destroçado pela corrupção moral da ideia de uma Europa culta e apolínea em que tinha alimentado os seus anos de formação cosmopolita na capital francesa.

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