Premium Jalel Harchaoui: "A estratégia da ONU na Líbia falhou em toda a linha"

Professor de geopolítica nas universidades de Versalhes e de Paris-Est, o politólogo Jalel Harchaoui é investigador do Instituto Clingendael, com sede em Haia, tendo como objeto de estudo a Líbia.

Estamos perante uma guerra aberta às portas da capital da Líbia. Que fatores contribuíram para o agravar das tensões?
O dramático agravamento da situação não se deve a dois campos profundamente divididos como na Síria ou no Iémen. Deve-se ao alheamento de um indivíduo que persegue os objetivos pessoais de poder. É uma pessoa com 76 anos, doente, amarga, com pouco tempo e com pouco a perder e tudo a ganhar, o seu momento de glória. Há esta história pessoal de um lado e do outro razões estruturais. Por exemplo, não há um verdadeiro Exército na Líbia. Há uma longa história de fraqueza estatal. A Líbia e os países envolvidos querem um Estado forte, um poder centralizado e um Exército funcional. Mas nada disto existe. Nesse vácuo surgiu uma pessoa que se projetou como a solução para tudo. E, em consequência, todas as pessoas que pensam estar a manipular a Líbia estão na realidade a ser capturadas pelos caprichos de um ser humano. Mas também não querem saber, porque para a maioria dos países a Líbia não tem interesse. A Síria era extremamente importante para a Rússia e para o Irão. A Líbia é talvez importante para a Itália e pouco mais. Para a maioria dos países envolvidos a Líbia não é do interesse estratégico vital.

Essa pessoa que diz estar no centro do vácuo é Khalifa Haftar, que obteve o apoio de vários países ao declarar guerra aos terroristas e à Irmandade Muçulmana. Afinal, quem é Haftar?
Foi um homem leal a Kadhafi durante uns 20 anos. Um dia foi capturado no Chade e a administração Reagan, interessada em combater Kadhafi, oferece-lhe a li- berdade em troca da dissidência. Em 1991 entrou nos EUA como cidadão norte-americano mas nunca conseguiu avançar com um golpe ao regime de Kadhafi, que nos anos 2000 vê as sanções serem levantadas e é aceite pela comunidade internacional. Em 2011, Haftar tenta participar na revolução mas não correu bem. Não há espaço para ele. Não gostava dos islamitas, que o odiavam. E o exército de Kadhafi, do qual tinha desertado, também não gostava dele. Foi embaraçoso. Foi expulso de duas cidades, ninguém o queria. Mas em 2013 deu-se a viragem quando no Egito a Irmandade Muçulmana é deposta. Tal como Abdel Fatah al-Sisi [presidente do Egito], Haftar disse que o islão político moderado, a Al-Qaeda e a Irmandade Muçulmana são tudo o mesmo e conseguiu apoio do Egito, dos Emirados e da Arábia Saudita, bem como dos EUA e da França. Em maio de 2014 inicia a campanha militar que se mantém.

Como se explica que Haftar faça uma aliança com uma milícia salafista?
Porque pensa em termos pragmáticos, em como deve mexer-se para atingir o poder. Não há aqui ideologia, apenas poder, a ideologia molda-se. Quem está em Paris pensa que o oposto da Irmandade Muçulmana é o secularismo liberal. Não, é o salafismo intransigente, rígido e intolerante que determina que se deve obedecer ao Estado e lutar contra a Irmandade Muçulmana. Porque a Irmandade usa a religião para derrubar os governos da região, é por isso que a Arábia ou os Emirados a odeiam.

A ofensiva a Trípoli foi realizada agora com o objetivo de sabotar a conferência nacional que iria ser realizada pelas Nações Unidas?
Não. Devia ter acontecido uma coisa mas que não se concretizou porque [Haftar] foi demasiado exigente. O plano era ter havido um anúncio de um novo governo no final de março, reconhecido internacionalmente e com o mesmo nome, GNA, mas profundamente pró-Haftar. O problema é que ele quis todas as concessões, vitória máxima e total. E não resultou. Perdeu a paciência, saiu da esfera política e voltou à via militar.

Pensa que Haftar pode vencer militarmente?
Sim, claro. O que está a fazer é feio, mas não é impossível.

Não vai parar?
Não. Mesmo que anunciem um cessar-fogo, mesmo que assine um acordo de paz em Genebra, podem ter a certeza de que ele não vai parar a ofensiva.

A estratégia da ONU falhou?
É um desastre total. Falharam em toda a linha, não o compreenderam e ele instrumentalizou a ONU.

Acredita que a França poderá retirar o apoio a Haftar?
Pode, mas não vai. Porque os franceses concordam profundamente com ele em termos ideológicos, políticos e militares. É como olham para África, um conjunto de países problemáticos que precisam de líderes militares.

O Estado Islâmico pode lucrar com este conflito? São um perigo real?
Sim. Fizeram 25 ataques no ano passado. Não estão tão perigosos como há uns anos, mas estão no terreno e de cada vez que os líbios lutam mais intensamente entre eles é uma oportunidade para o Estado Islâmico ganhar força e mais tarde atacar.

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Betinho

"NBA? Havia campos que tinham baldes para os jogadores vomitarem"

Nasceu em Cabo Verde (a 2 de maio de 1985), país que deixou aos 16 anos para jogar basquetebol no Barreirense. O talento levou-o até bem perto da NBA, mas foi em Espanha, Andorra e Itália que fez carreira antes de regressar ao Benfica para "festejar no fim". Internacional português desde os Sub-20, disse adeus há seleção há apenas uns meses, para se concentrar na carreira. Tem 34 anos e quer jogar mais três ou quatro ao mais alto nível.