Premium A globalização não espera pela Europa

O Brexit tem esgotado os esforços e a aparente unidade europeia. Mas há outras frentes a precisar de foco, força e firmeza comunitária. A relação com a China é uma delas. Apesar das horas perdidas com os parlamentares britânicos, vale a pena lembrar que o primeiro-ministro chinês esteve nesta semana num périplo pela Europa.

Presos no novelo dos calendários do Brexit. É este o resumo semana após semana que esgota e desgasta a política europeia. Claro que os calendários trazem uma série de dilemas políticos dificilmente desvalorizáveis (negociações interpartidárias, eleições, mudanças de líderes, quem sabe um novo referendo), mas o que fica sinalizado é isto: uma União mergulhada em assuntos internos que ofuscam a sua projeção para o exterior. Basta lembrar a diferença de mediatismo que teve o enésimo debate nos Comuns em comparação com a cimeira entre a UE e a China. Em véspera de eleições europeias este não é um detalhe de avaliação jornalística, mas um sintoma da forma como a União se projeta: amarrada ao pessimismo interno, desaproveita uma oportunidade de vender os méritos da integração no diálogo direto com uma grande potência em ascensão. O caso não é de somenos.

Não sei quantos europeus, em vésperas de eleições para o Parlamento Europeu, saberão que a UE continua a ser o maior bloco comercial do mundo, o espaço com mais fluxos de investimento a entrar e a sair, o palco das regras mais generosas de comércio interno e a geografia com os melhores índices de distribuição de riqueza. Além disso, é hoje o grande bloco exportador global, com superavit na balança comercial, estando a China a caminho de equilibrá-la e os EUA deficitários. As economias abertas europeias e o poder de compra dos seus 500 milhões de consumidores são demasiado apetecíveis para a estratégia chinesa de conquista de novos mercados, consolidação de ativos estratégicos e projeção do seu estatuto global. Do ponto de vista europeu, seria errado inverter esta lógica de liberdade comercial e abertura à globalização, passando a jogar à medida da tribo nacionalista, fechando-se no protecionismo. O medo, o empobrecimento e a conflitualidade passariam a dominar completamente as relações entre europeus e entre estes e o resto do mundo. Não pode ser por aí.

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