O treinador português a gostar de si próprio

O documentário All or Nothing: Tottenham (cujos primeiros seis episódios estão disponíveis na Amazon Prime) começa verdadeiramente ao minuto 25. Os 24 minutos anteriores são o que se poderia esperar, tanto de um documentário desta natureza como das circunstâncias do clube no início da época 2019-20: narração solene sobre glórias antigas, imagens de arquivo, sucessão de maus resultados, e um treinador - Pocchetino - que sabe ter os dias contados. Perante um clarão de flashes e repórteres ofegantes, José Mourinho entra em cena, e começa a esvaziar caixotes no seu novo gabinete: dossiês volumosos, uma fotografia autografada por Vinnie Jones ("Be good, José!"), recortes de jornais sobre conquistas passadas, e inúmeros retratos de si próprio (presumivelmente também autografados). Um televisor transmite opiniões cépticas sobre a sua contratação. "Fuck off", esclarece Mourinho, desligando o ecrã.

A sua primeira reunião de trabalho é com Harry Kane, o capitão e o jogador mais importante do clube. "O resto do mundo respeita o futebol inglês, mas a percepção que existe é a de que as estrelas de cinema do futebol estão noutros países", explica. "Eu, como treinador, sou uma dessas estrelas. A minha dimensão é universal. Se estiveres ao pé de mim, posso ajudar-te a explodir nesse sentido." Harry Kane acena placidamente, como se "explodir" lhe parecesse uma actividade agradável para encaixar na sua agenda semanal.

A presença de Mourinho pode ou não ajudar Kane a tornar-se uma estrela de cinema, mas ajuda certamente o documentário a não ser o anestesiante reclame corporativo que seria na sua ausência, com trechos intermináveis de atletas a participar em "acções comunitárias", a serem massajados por fisioterapeutas ou a explicar que se sentem "tristes com a derrota" ou "felizes com a vitória". Não é muito mais interessante, ou espontâneo, ou "revelador" sobre os bastidores do desporto do que documentário semelhante sobre o Manchester City, mas é pelo menos bastante mais engraçado. Enquanto Mourinho continua a arrumar o gabinete antes do primeiro treino, os jogadores comentam os acontecimentos no refeitório com curiosidade nervosa. "Como é que acham que ele nos vai treinar?", pergunta retoricamente Harry Winks, com a boca cheia de nutrientes. "Eu cá acho que ele vai ser muito táctico", conclui.

Talvez seja, mas o espectador não vê. O documentário mantém-se decorosamente selectivo e as câmaras mostram o espectáculo retórico das "estratégias de motivação" (aqui, como em qualquer clube e com qualquer treinador, simultaneamente ridículo e necessário) e depois retiram-se na parte das instruções pormenorizadas, como um telefilme que mostra o início da cena de sexo antes de se focar em cortinas a abanar ao vento. É quase isso, aliás, que acontece num dos episódios: a caneta de feltro de Mourinho aproxima-se tantalizantemente do quadro táctico, preparada para desenhar as geometrias secretas do triunfo. Ainda o ouvimos começar uma frase ("quando a bola estiver deste lado, vocês os dois..."), e depois há um corte na imagem e, quando o voltamos a ouvir, já ele está a recitar uma de várias dezenas de banalidades que repete ao longo do documentário. "Temos de acreditar", "o mais importante é a mentalidade", "nunca desistir", etc. Vários momentos são também ocupados a demonstrar a sua fluência na retórica da masculinidade, como um tio excêntrico a tentar conversar com os sobrinhos adolescentes. "Qual é o tamanho das tuas bolas? São grandes ou quê?", pergunta ao central Sánchez durante a primeira sessão de treino.

Mourinho, caracteristicamente, vê o principal problema do Tottenham como uma aversão ao conflito. Se o documentário tem um tema recorrente, é a sua intenção, explicitamente declarada, de corrigir esse defeito: transformar um grupo de rapazes "demasiado simpáticos" num (palavras suas) "bando de filhos da puta". Na primeira vez que o diz, durante uma palestra no balneário, a câmara mostra a reacção do grupo. Um baixa a cabeça e sorri. Outro desvia o olhar, com aparente embaraço. A maioria continua a assistir com moderado interesse, como se estivessem numa TED Talk igual às outras. A meio de um jogo com o City, Mourinho volta a queixar-se da simpatia do seu plantel, antes de catalogar irritadamente os jogadores adversários que já têm um cartão amarelo e se encontram portanto bastante vulneráveis à provocação gratuita.

José Mourinho foi contratado pelo Tottenham pelo mesmo motivo lapaliceano que qualquer treinador é contratado por um clube desta dimensão: para ganhar jogos e ganhar troféus. Mas talvez seja mais pertinente reformular a frase e reconhecer que, nesta altura, José Mourinho é contratado por um clube sobretudo para ser José Mourinho - para desempenhar o papel de "José Mourinho" num cenário novo. E, na impossibilidade de se reinventar como outro tipo de treinador da "velha guarda" (com os Doze Hexágonos do Sucesso debaixo do braço e citações de Sun Tzu na ponta da língua), desempenhar o papel de José Mourinho talvez seja o seu último recurso útil.

Avaliar a qualidade de um treinador de futebol é sempre uma tarefa mais complicada e incerta do que a impaciência emotiva do adepto ou a frieza analítica do comentador imparcial gosta de reconhecer, mas nos seus melhores anos (entre a meia época no Leiria e os dois anos no Inter), Mourinho era genuinamente um treinador diferente, que parecia ter encontrado uma fórmula milagrosa para reduzir as margens de incerteza. Entrevistas a ex-jogadores desse período revelam invariavelmente um ou outro exemplo de uma presciência tão específica que quase parecia sobrenatural. (Um exemplo entre muitos: Shaun Wright-Phillips conta que, na véspera de um jogo a eliminar, Mourinho o informou de que seria suplente, mas que o adversário iria marcar um golo de bola parada ainda na primeira parte e que ele entraria em campo ao intervalo para ajudar a levar a eliminatória para um jogo de desempate, onde seria titular e o Chelsea ganharia tranquilamente. Tudo aconteceu tal e qual assim.)

Mas muito do que o diferenciava nesse período é hoje prática comum. O treinador da mais humilde equipa da terceira divisão belga já entrega aos seus jogadores dossiês de observação com 80 páginas. Há adolescentes alemães que já nascem com sistemas tácticos assimétricos na cabeça. Mourinho, mais do que nunca, parece reduzido ao impacto da sua personalidade, e uma das conclusões que o seu percurso recente sugere é que, no futebol, o carisma é menos uma causa das vitórias do que uma consequência. O processo pelo qual esse carisma se transforma e deixa de funcionar é difícil de explicar, mas fácil de reconhecer: o volume retórico aumenta até ao ponto de distorção, e o portador de carisma recorre compulsivamente a uma categoria específica de chavascal mediático, que depende de uma categoria específica de medo: o pavor (justificadíssimo) de ver um bluff descoberto. É esse medo que coordena o teatro discursivo, com constantes afirmações de domínio, e recapitulações exasperadas do currículo. É um medo que também reduz a sua influência a um beco sem saída onde só há espaço para uma pessoa, e que torna cada decisão - que jornalista criticar, que árbitro impugnar, que treinador insultar - numa decisão exclusivamente sobre a pessoa que a toma.

Paul Valéry chamava "profissões delirantes" a todas as actividades (no reino de sobreposições entre a arte, a crítica e o charlatanismo) nas quais o principal instrumento de trabalho é a opinião que temos de nós próprios, e cuja matéria-prima é a opinião de terceiros. É essa a profissão do Mourinho actual, e é esse Mourinho que All or Nothing mostra: não o Mourinho "muito táctico", mas a estrela de cinema ainda indexada à sua "dimensão universal"; mais longe dos quadros e diagramas, e mais perto dos filtros que processam essas imagens e lhes dão o valor que ainda conseguem ter.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG