LuxFrágil ou cenário, música e ambiente para "o prazer e a felicidade"

Paradisaea assinala o aniversário do clube que há 20 anos abriu portas no Cais da Pedra. "Criavam-se enormes dispositivos cénicos. Era um trabalho de encenação e construção", diz Fernando Brízio, designer e curador da exposição.

Paradisaea. É a este grupo que pertencem as aves-do-paraíso. "São pássaros que criam cenários e pistas de dança para coreografias. Alguns criam cenários muito grandes, constroem quase teatros. Às vezes ensaiam sozinhos na floresta. Quem trabalha no Lux é quase como estes pássaros: criam cenários para nós vivermos coisas que não vivemos em mais lado nenhum", afirma o designer Fernando Brízio.

Estamos na última sala da exposição com curadoria e design seus: Paradisaea, no Hub Criativo do Beato, coproduzida pela EGEAC e as galerias municipais. À nossa volta, 20 anos dos elementos estéticos que fizeram do Lux-Frágil aquilo que é e foi sendo desde 29 de setembro de 1998, quando o Frágil do Bairro Alto se expandia para aquele grande edifício de betão no Cais da Pedra, sobre o Tejo.

Estamos descalços, porque o chão está coberto de uma alta camada de areia, como convém a um "lugar de prazer" (voltamos ao nome da exposição e ao seu significado em latim). E, para Brízio, é de "prazer e felicidade" que se trata quando falamos do Lux-Frágil e daquilo que dele fez o seu fundador, Manuel Reis, que morreu em março deste ano.

Foi ele quem ligou ao designer em dezembro de 2017 dizendo-lhe que concebesse esta exposição que comemora 20 anos de uma história que se fez também com as assinaturas de artistas como Joana Vasconcelos (que também foi, aliás, porteira do Lux), Vasco Araújo, João Pedro Vale, Vhils, André e. Teodósio, com as peças e performances que ali mostraram, designers gráficos como Ricardo Mealha e Ana Cunha, ou Daniel Blaufuks, Miguel Maurício, Rui Toscano ou Rui Calçada Bastos e seus vídeos, e Dino Alves, Filipe Faísca ou Lidija Kolovrat, com os figurinos que criaram para serem usados ali, em festas como Saia de Saias.

Foi nisto que Fernando Brízio mergulhou, bem como nas mais de 20 mil fotografias que existem, tiradas por Luísa Ferreira, que documentam não só as transformações do Lux, os concertos - de Prince a Nicolas Jaar, Animal Collective, Cinematic Orchestra ou LCD Soundsystem - e festas que ali tiveram lugar, como, inevitavelmente, a própria vida daqueles que ao longo dos anos frequentaram aquela discoteca em Santa Apolónia. "Vê-se que ao longo dos anos as pessoas vão mudando de parceiro e vão envelhecendo", repara Brízio.

A terceira sala "é como um palco", depois da primeira, que é "como uma clareira" onde documentos visuais mostram a evolução e identidade do Lux-Frágil em igual medida, e da segunda, que é "como um arquivo" composto por vídeos. Pedimos a Lúcia Azevedo, diretora-geral do clube noturno, que escolha uma peça.

Há, por exemplo, figurinos, um vídeo que documenta a instalação das enormes pernas abertas (para o interior das quais se entrava ao entrar no Lux) sobre a porta do Lux, a gaiola e o sapato usados na festa Malícia no País das Maravilhas, e o vídeo em super 8 de Dita von Teese a atuar nessa noite. Lúcia escolhe a girafa Alice.

"Era um ponto de encontro na discoteca, mas foi um objeto de muita polémica porque de repente começámos a receber imensos e-mails de organizações de proteção dos animais. Foi comprado numa feira, mas é mesmo um pescoço de uma girafa embalsamada. Obviamente que dizíamos que ela tinha morrido naturalmente, e nessa altura a polémica era tão grande que antes de a retirarmos eu obriguei o Manel a apadrinhar uma girafa no Jardim Zoológico", recorda.

"Foi o objeto mais polémico que tivemos. Tudo o resto foi criado de propósito para festas que o Manel idealizava. Para a Dita von Teese, por exemplo, foi um sapato. Entregou um ao serralheiro para fazer um daquela dimensão. E foi feito na perfeição. A mesma coisa com a gaiola", entretanto usada para outras festas, recorda Lúcia Azevedo.

Pedro Fradique, programador do Lux, escolhe um jornal que existiu durante um ano. "Há uma altura em que o Manuel diz: 'E se abandonássemos a revista, as fotografias e as cores e fizéssemos uma coisa só com texto, a preto e branco? O que é que faria sentido num jornal que as pessoas levassem às seis da manhã, quando saem daqui, para ler no táxi ou no dia seguinte?"

Pedro e Lúcia ainda não tinham visto a exposição até à manhã desta terça-feira, em que foi mostrada à imprensa. Manuel Reis dera liberdade total a Fernando Brízio. Pedira apenas que fosse feita na zona oriental de Lisboa. Afinal, o Lux foi um dos marcos da reconversão desta zona da cidade no ano da Expo'98.

Na exposição, patente até 11 de novembro, estarão inscritos todos os nomes daqueles que com música, som, flyers, websites, figurinos ou esculturas contribuíram para fazer do Lux aquilo que é. "Criavam-se enormes dispositivos cénicos. O Manel pensava tudo: comunicação, espaço, música, roupa que as pessoas iam usar. Era um trabalho de encenação e construção", diz Fernando Brízio.

"Raramente olhamos para tudo", diz o designer, acabado de fechar uma revisitação a estes 20 anos. Quando se olha para eles o que se vê, diz, é que "isto realmente é um trabalho incrível, meticuloso, a constância e a ambição são incríveis".

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