Archibald: "De bom, aconteceu-me ser diretor desportivo do Benfica"

Steve Archibald entrou para o Hall of Fame do futebol escocês em 2009. A passagem pelo Barcelona (1984-1988, campeão e finalista da Taça dos Campeões) foi crucial. Há 20 anos, tornava-se diretor desportivo do Benfica de Vale e Azevedo.

Steve Archibald marcou apenas dois golos oficiais (de quatro, em 27 jogos) pela Escócia. O primeiro foi a 26 de março de 1980 no fecho do grupo 2 de qualificação para o Euro 80. Escócia 4-1 Portugal, Hampden Park, já com a Bélgica apurada. O outro foi no Mundial 82 (os escoceses caíram na primeira fase na diferença de golos com a URSS), a 15 de junho, em Málaga, Espanha.

Dois anos depois estava no país a representar o Barcelona de Terry Venables (deixando o Tottenham), com o qual foi logo campeão (marcando no primeiro jogo, no Santiago Bernabéu) e finalista da Taça dos Campeões em 1986 (amarga, amarga, frente à equipa de um tal Laszlo Bölöni...) - valeu-lhe ir ao Mundial 86 treinado por Alex Ferguson, pouco depois do mítico Jock Stein ter morrido no banco num jogo de qualificação no País de Gales.

A Península Ibérica é a sua praia: vive na capital da Catalunha e tem negócios na Catalunha e em Portugal na área do futebol e de um novo tipo de futebol: o walking football (com o sócio Silvio Szegedi, ex-futebolista de baixo perfil e filho de uma antiga glória blaugrana: Nicolae Simatoc, ou Miklós Szegedi.

Nesta entrevista ao DN, aos 61 anos (completa 62 no dia 27 deste mês), assinala-se os 20 anos da chegada ao Benfica. Assinou a 27 de agosto de 1998 como diretor desportivo, dois anos apenas após ter terminado a carreira de jogador, aos 40 anos (foi treinador-jogador nos escoceses do East Fife), mas Vale e Azevedo não o deixou dirigir muito: "De bom, aconteceu-me ser diretor desportivo do Benfica." E entrar para o Hall of Fame do futebol escocês em 2009.

Mas há muitas ligações ao retângulo ocidental da Europa. Archibald lembra-se bem de boicotar nas Antas uma reviravolta épica do FC Porto em 1985 (0-2 em Barcelona; Juary 3-1 Archibald nas Antas), na caminhada dos catalães até ao desgosto de Sevilha frente ao Steaua de Bucareste de Duckadam (defendeu quatro penáltis).

O que é que anda a fazer?
Faço televisão. Estive na Barça TV, mas era uma espécie de trabalho suplementar. A La Liga tem um canal para o estrangeiro em inglês. E é nesse canal que trabalho.
Sou o perito em futebol do programa conduzido por um jornalista. À sexta-feira fazemos o lançamento da jornada e à segunda-feira o resumo, com os golos, as equipas, tudo o que há para comentar sobre os jogos de La Liga. Brevemente vamos começar um programa a meio da semana.

Há 20 anos, a 27 de agosto de 1998, assinou pelo Benfica. Como é que chegou à Luz?
Foi especial. Havia eleições no Benfica, com dois ou três candidatos. Uma pessoa em Madrid perguntou-me se podia falar com o candidato João Azevedo. Não o conhecia e pedi referências a um amigo, que me disse que ele tinha uma grande empresa de advocacia de sucesso. Os candidatos diziam todos que iam contratar este e aquele. Mas não mostravam nada de concreto. Eu levei o Graeme Souness para a conferência de imprensa durante a campanha. Ele tornou-se treinador e eu diretor desportivo.
Pelo menos, essa era a ideia. A de eu fazer a gestão desportiva. Essa era a ideia, mas o presidente queria ter mais controlo nas contratações. A época terminou e o Benfica ficou em 2.º. E acabou aí. Não era bom o suficiente, o Benfica tem de ganhar. Quando o Graeme saiu, eu também saí.

Foi o responsável pela ida de Sounesss para a Luz?
Fui o responsável, fomos colegas na seleção. Ele não sabia quem era o presidente, eu disse-lhe que era um advogado respeitado e ele acabou por ir. Não, não fiquei em problemas com o Souness [por causa de Vale e Azevedo]. Estava em Lisboa três a quatro dias por semana e via os jogos, depois voltava a Barcelona.

Viveu episódios peculiares?
Não estive muito envolvido, nem nas transferências. Não me aconteceu nada de muito mau nem nada de extraordinário. Mas de bom aconteceu-me ser diretor desportivo do Benfica. Ainda tenho uma grande afeição pelo clube. Mesmo que não tenhamos conseguido nada relevante. Azevedo acabou por ir para a prisão. Não sabia de nada. Quando primeiro contactei com ele, era um advogado de sucesso. Tentei levar o Juan Antonio Pizzi do Barcelona para o Benfica, mas não foi possível porque o dinheiro falhou. Tinha um grande salário. O presidente ainda disse: "Vamos a isso." Mas não conseguimos.

"Ainda tenho uma grande afeição pelo clube. Mesmo que não tenhamos conseguido nada relevante"

Não viu nenhum sinal dos esquemas de Vale e Azevedo?
Nenhum, pelo contrário. Até convivi com a família dele, era gente muito doce, boas pessoas. Quase pagou tudo, mas tinha de lhe ligar muitas vezes para ele me pagar. A esta distância já não me lembro de tudo, mas ficou um ou outro salário por pagar. Podia ter recorrido a advogados, mas não queria arranjar problemas ao clube. O Eusébio andava por lá e foi sensacional conviver com ele. Embora tenha sido uma pena que o clube acabasse daquela forma. A única coisa que lamento foi não ter cumprido a função para a qual fui contratado. Não tenho ressentimentos para com Vale e Azevedo, porque foi sempre simpático e bom comigo, tal como a sua família.

Acompanha o Benfica?
Não posso dizer que acompanhe o Benfica de perto. Mas estou a finalizar um negócio sobre o qual dentro de um ou dois meses lhe contarei tudo e tenho um conhecimento muito bom de Portugal e do futebol português. Vou desenvolver em Portugal esse negócio, que é um negócio muito antigo, mas que terá uma abordagem inovadora. Já trabalho com um clube e será com esse clube que vou prosseguir este projeto, quando estiver finalizado.

"Não tenho ressentimentos para com Vale e Azevedo, porque foi sempre simpático e bom comigo, tal como a sua família"

Vamos recuar. Em 1986, vai ao Mundial do México com Alex Ferguson.
O selecionador era Jock Stein, que ganhou a Taça dos Campeões em Lisboa pelo Celtic, em 1967. Foi o primeiro britânico a consegui-lo. Mas morreu no banco frente ao País de Gales na fase de qualificação. A federação escocesa chamou o Alex Ferguson, que já tinha sido meu treinador no Aberdeen quando ganhámos a primeira liga. Era ponta-de-lança como eu e criámos uma boa ligação.

Era óbvio que Ferguson ia ter a carreira que teve posteriormente?
Não era claro que ia ser um dos maiores. Aliás, ele esteve quase a ser despedido no United antes de ser campeão. Mas percebia-se que ele sabia motivar os jogadores, sabia que botões pressionar para fazer render os jogadores. Na palestra, dizia: "Steve, vais ser fulcral por isto ou por aquilo." E eu sentia-me especial. Os jogadores são todos diferentes, têm de ser tratados de forma diferente. A chave para um treinador é conhecer os jogadores e a forma de tratar cada um deles. Consegues isso e vais longe. Jock Stein era assim, especial, e levou-me para a seleção quando estava no Aberdeen. Jogava no Clide e o capitão do Celtic em 1967 foi para lá, o Billy McNeill. Ele disse ao Jock que tinha de me levar para o Celtic, mas no final o McNeill levou-me para o Aberdeen.

Como foi para Barcelona?
O Terry Venables já tinha tentado levar-me do Aberdeen para o QPR [Queens Park Rangers]. Mas pouco depois eu estava no Tottenham e ele foi para Barcelona e levou-me para lá.


Como foi a experiência em Barcelona?
Uma experiência incrível, jogar ao sol, uma nova língua, um grande estádio, uma nova cultura.


E começou da melhor forma possível.
Ganhámos a Liga no primeiro ano e eu fui o melhor marcador. O primeiro jogo foi fora com o Real Madrid, ganhámos 3-0 no Bernabéu e marquei um golo. Lembro-me dos outros: um foi um autogolo [Ángel] e outro foi do Calderé.


E foram campeões logo nesse ano?
Desde esse jogo, nunca mais perdemos a liderança e fomos campeões a cinco ou seis jornadas do fim da Liga. Passados 11 anos, o Barcelona voltou a ganhar o campeonato. Quando chegámos de Valladolid, com o título garantido, a cidade explodiu. Demorámos cinco ou seis horas do aeroporto ao centro da cidade, num percurso que levaria dez minutos. Nunca vivi nada assim.

Recorda-se bem da eliminatória com o FC Porto na Taça dos Campeões Europeus em 1985/86?
Foi uma noite terrível, com uma chuva horrível, um relvado muito suave e estragado pelo clima. Lembro-me do Futre sempre a mergulhar. O Calderé marcou um dos golos em Barcelona na primeira mão, em que ganhámos por 2-0, mas fez um passe para o Juary marcar o 1-0 [aos 67, três minutos depois o brasileiro empatava a eliminatória]. O meu golo foi importante porque como era fora valia a dobrar [Juary fez o hat trick no fim, mas o 3-1 foi insuficiente para o FC Porto seguir em frente]. Foi um passe do Víctor Muñoz para a área, tirei um defesa da frente e rematei em força com pé esquerdo para o ângulo inferior direito. O árbitro era escocês, Brian McGinlay. Disse-lhe: "atenção, que o Futre está a tentar cavar penáltis". Ele disse-me: "Não te preocupes." Eles atacaram-nos muito, mas esse golo deu-nos tranquilidade.


O golo que eliminou a Juventus (1-1, depois de 1-0 em Camp Nou), na eliminatória seguinte (quartos-de-final) não foi com a orelha?
Quando uma lenda diz uma coisa, fica-se pela lenda [risos]. Eu regressei à lenda. Marquei-o com a orelha [foi com a cabeça, como pode ver no link abaixo]. Quando a lenda é melhor do que a realidade, ficamos com a lenda. A Juventus tinha uma grande equipa. Laudrup, Platini e com uma série de internacionais italianos [como Cabrini e Scirea, campeões do Mundo em 1982].


Grande desilusão na final de Sevilha?
[Suspiros] Sim, foi uma grande desilusão. Fizemos tudo para ganhar, mas o Steaua de Bucareste defendeu ao máximo. Eu estava de volta após uma lesão grave. Não estava na marcação de penáltis [0-2, com o guarda-redes Duckadam a tornar-se herói ao parar os quatro penáltis dos catalães: Alexanko, Pedraza, Pichi Alonso e Marcos]. Fui substituído, lesionado. Foi a segunda época, na primeira ganhámos a Liga e na segunda fomos à final. O Barça nunca tinha ganho a Taça dos Campeões. Mas não gosto de falar muito sobre esse jogo.

Walking football. Introduziu-o em Espanha?
Sim, é verdade. O ideal é jogar num campo de 42x25 metros, com duas partes de 25 minutos e bola própria, parecida com a de futebol de sete, mas que ressalta menos. Não se pode correr, é falta; a bola não pode passar acima da cabeça, é falta; só se podem dar três toques. Criei as regras. Equipas com sete jogadores mais o guarda-redes ou oito mais o guarda-redes. É fantástico para todas as idades. Saudável e socialmente muito forte. Criámos várias ligas na Catalunha. Estamos a tentar com as escolas. Porque há crianças sem confiança, outras com excesso de peso que têm problemas em jogar futebol. No walking football todos conseguem jogar. É muito pedagógico, passe e receção. Não há bolas longas e em termos técnicos é bom treinar crianças que querem jogar futebol mais tarde. Nunca ouvi uma pessoa a dizer que não gostou. Jogo futebol duas vezes por semana, mas primeiro jogamos walking football 20 minutos. Temos um convénio com Federação de Futebol da Catalunha, com o Barcelona, o Espanyol e muitas outras instituições.

Em Portugal já há muitas equipas a praticar a modalidade, sobretudo por ação de britânicos.
É natural, foi inventado em Inglaterra por David Rich [o primeiro jogo ter-se-á realizado em 2011]. Em Portugal, vamos entrar com o walking football de forma diferente daquela que aí se pratica. Temos uma estrutura profissionalizada. Temos árbitros, dirigentes, todos os agentes e apoios necessários para desenvolver a modalidade. Vamos criar várias ligas em Portugal. Teremos equipas mistas, homens e mulheres, avô e neto. Mãe e filho, pai e filha podem jogar na mesma equipa. Nivela as pessoas. É o jogo mais democrático do mundo porque todos os podem jogar.
Este ano ainda vamos chegar a Portugal. E brevemente vou ver um jogo a Portugal.

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