André Ventura, o ingrato da camisola errada

Belo texto. É tão raro lermos uma coisa, feita para ser lida, feita para ser lida. Refiro-me à carta de indignação publicada ontem no Expresso sobre André Ventura. Ela começa por ter o tamanho certo numa indignação, é curta. Não tão curta como aquelas indignações, diretas ao assunto e luminosas, em que bastam duas ou três palavras. Mas, geralmente, essas não são publicadas nos jornais.

Um outro tipo de palavrão também bastaria para pintar André Ventura - oportunista -, mas, lá está, os autores (Jacinto Lucas Pires, Henrique Raposo, Pedro Norton, José Eduardo Martins e Ricardo Araújo Pereira) quiseram, como às coisas feitas, mesmo, para ser lidas, que a carta fosse bem entendida. Por isso, os cinco justamente indignados usaram algumas mais palavras do que "oportunista", palavra adequada mas insuficiente.

Escreveram eles: "André Ventura usou e usa o Benfica para criar uma persona política." E tendo usado o Benfica para conquistar um lugar de deputado, não só se aproveitou do clube como o abusou. Ventura é a voz do Chega e este é um partido xenófobo. Quer dizer, a inexistência política que era o André Ventura aproveitou-se do Benfica, assim criou o Chega e institucionalizou-o, e todo esse movimento sofre de um indecente equívoco. Com André Ventura, o Benfica ajudou a criar um partido xenófobo. O Benfica!

E essa linha, que foi da causa (fruto de um abuso) à consequência (uma indecência), do Benfica e a sua história à identificação com uma cloaca, levou os autores da carta a dizer basta, a dizer chega. Disseram-no com palavras limpas, exemplares na comparação com cartazes eleitorais de bojardas imbecis. Os cinco, cidadãos públicos - um deles, célebre - tiveram o cuidado de não puxar por argumentos de autoridade, que vão sempre mal nas indignações: "Somos um pequeno grupo de benfiquistas..." Fosse só um benfiquista e anónimo, e seria bem-vindo.

Já tenho ouvido Ricardo Araújo Pereira a mimar o seu benfiquismo com a derrisão dos que amam, mas conhecem as medidas de cada coisa. Que, conta ele, quando lhe nasceu a primeira filha, ergueu o bebé com o gesto soberbo do José Águas a levantar a primeira Taça dos Campeões Europeus em Berna. Ora, desta vez o assunto não é de mimar, pois trata-se de varrer o insulto que tem sido cometido por Ventura ao Benfica.

A carta não pede penas ou coações, ir ao VAR ou a tribunais. Nem ao clube exige que ele penalize o associado abusador. O propósito é fundamentalmente didático, como dar uma mangueirada ao rasto que um saco de lixo vai deixando. A carta é simples porque se deve ser simples quando os factos se expõem na clareza de um estádio. Benfica? "O clube de Eusébio, Coluna, Renato e Gedson..." E não é só um alinhar de negros e mulatos, de gentes de outras terras, centenas deles que jogaram pelo Benfica.

Na década de 1960, a Europa conheceu, pelo Benfica, a lição de um patrão não branco a mandar numa equipa de futebol: o capitão Coluna, mestiço moçambicano. Foi há quase 60 anos. Lembro eu, outros quase 60 anos antes (1907), Marcolino Bragança, mestiço e santomense, a salvar o Benfica de não morrer à nascença: "Marcolino Bragança foi alma da resistência", as palavras são do fundador do clube, Cosme Damião. Contas feitas: 2019, André Ventura chega a deputado porque benfiquista, isto é, também porque negros e mulatos, gentes de outras terras, fizeram grande o Benfica. Deputado do Chega, partido xenófobo.

Ignorante? Talvez só oportunista. Mas chega e basta de ingratidão, André Ventura.

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