Os portugueses que se aventuram no mítico e duro Ironman do Havai

Prova disputa-se neste sábado em Kailua-Kona, o olimpo do triatlo, com um recorde de dez atletas portugueses inscritos. Conheça as histórias do Mário, do Pedro, do Paulo e do Alexandre, quatro aventureiros que vão desafiar os seus limites em 3,8 quilómetros de natação, 180 em bicicleta e 42 a correr.

Neste sábado, a partir das 17.35 portuguesas, começa a 40.ª edição do Campeonato do Mundo de Ironman, prova mítica do triatlo mundial, que se disputa anualmente em Kailua-Kona, no Havai. E que neste ano conta com um recorde de participantes portugueses, dez no total: Sérgio Marques (grupo de idades 35-39 anos), Pedro Vieira (40-44 anos), Mário Machado, Paulo Figueiredo, Carlos Cruz, Gonçalo Neves e Luís Mira Nunes (todos 45-49), Fernando Carmo (50-54), Paulo Renato Santos (55-59) e Alexandre Dias (paratriatleta).

Foi em Kailua-Kona que o triatlo nasceu oficialmente há 40 anos, precisamente na primeira edição desta prova. Os atletas enfrentarão dificuldades extremas, com uma temperatura média de 30 graus - que em alguns períodos chegará aos 40 - e uma humidade relativa entre 80% e 90%. Tudo isto ao longo de 3,8 quilómetros de natação, percorridos nas águas da Kailua-Kona Bay, 18 de ciclismo e 42 de corrida.

O DN falou com quatro portugueses que irão desafiar os seus limites na mais emblemática prova mundial da modalidade: Mário Machado, Pedro Vieira, Paulo Figueiredo e Alexandre Dias, todos estreantes.

Vice-campeão do mundo com altas expectativas

Mário Machado é o português que em teoria tem mais possibilidades de alcançar um melhor resultado neste Ironman do Havai, tendo em conta que a 2 de setembro foi vice-campeão do mundo no escalão V2 (45- 49 anos) na prova do Campeonato do Mundo de Ironman 70.3, que se realizou em Porto Elizabeth, na África do Sul.

Embora reconhecendo que tem probabilidades de fazer boa figura, assume que está em Kailua-Kona para desfrutar. "Teoricamente, tenho hipóteses de fazer um bom resultado, pois o vencedor do ano passado fez 9.18 e eu já consegui fazer 9.16, embora isso tenha acontecido num circuito que não era tão complicado. Tenho a sorte de disputar esta prova fantástica pela primeira vez e vou encará-la sem pressão. O que vier será bem-vindo. Curiosamente, costumo dar-me bem com o calor, mas estou curioso para saber como irá o meu corpo reagir ao fator humidade, pois nunca competi em condições tão complicadas", referiu ao DN.

Mário Machado é um veterano na modalidade. "Já estou há muitos anos no triatlo, nem sei dizer quantos! O meu pai sempre me incentivou a fazer desporto e quando era criança comecei a praticar natação. Um dia, o meu professor de natação disse-me que ia haver uma prova de triatlo em Sesimbra. Isto foi possivelmente em 1993. Decidi experimentar e as coisas não me correram nada mal na natação. Depois, perdi muitos lugares na bicicleta e na corrida e pensei: "Onde raio me vim meter?" Mas a verdade é que cinco minutos depois de terminar a prova já pensava na próxima", recordou.

Infelizmente, a experiência no triatlo não durou muito. "A mãe da minha mulher teve cancro e ela teve de a acompanhar em permanência, e tínhamos um menino com 1 ano, por isso tive de lhe prestar toda a atenção e deixei a modalidade durante sete anos. Quando regressei, as coisas começaram logo a correr-me bem e fui continuando. Os meus melhores resultados foram o já referido título de vice-campeão do mundo na África do Sul e um Ironman na Alemanha, em que fiz 8.59", revelou.

Mário Machado treina em média 17 horas semanais. "São duas a três horas nos dias da semana, pois tenho de conciliar com a minha profissão de professor de natação e com a vida familiar. A minha mulher é assistente de bordo e por isso passa muito tempo fora, sobrando para mim muitas tarefas domésticas. Ao fim de semana é que me posso "esticar" mais e já chego às seis horas de treino", contou, revelando que está no Havai acompanhado pela família mais próxima.

O atleta de 45 anos confessa-se um eterno insatisfeito. "Quero sempre fazer melhor e antes das provas costumo acordar às três ou quatro da manhã a pensar por que razão escolhi esta vida tão desgastante. Mas a verdade é que quando consigo alcançar bons resultados é uma sensação tão gratificante que me faz deitar para trás das costas todos os maus pensamentos...", reconheceu.

Sobre a prova deste domingo antevê que a sua grande dificuldade será na bicicleta, em que irá enfrentar muito vento. "Eu sou leve e pequenino, não vai ser fácil! [risos]. Também estou consciente de que a corrida vai ser difícil, pois tem muitas subidas e descidas e na parte final vai ser complicado gerir o esforço. Mas estou pronto para ir à luta", garantiu.

Pedro Vieira, um "filho" de Vanessa Fernandes

Pedro Vieira confessa que só tem um único objetivo em mente para esta prova. "Cortar a meta. Foi um ano concentrado na qualificação para o Havai e felizmente consegui-o logo em agosto. Depois disso, houve uma certa descompressão e agora vai ser tempo de desfrutar desta competição magnífica", começou por referir.

O triatleta de 42 anos não esconde que tem altas expectativas para este Campeonato do Mundo de Ironman. "Só conheço a prova do que assisti através da televisão e da internet, mas destaco o facto de o Havai ser carinhosamente apelidado de ilha mágica por todos os que têm a sorte de lá competir. Claro que estou consciente das enormes dificuldades que irei encontrar e existe a curiosidade de a natação de águas abertas ser realizada sem fato isotérmico, o que é muito raro na Europa", destacou. Pedro Vieira sublinhou "o percurso com alguma altimetria da bicicleta, tal como sucede na maratona, que será corrida com uma temperatura próxima dos 30 graus e com cerca de 90% de humidade".

O gosto de Pedro Vieira pelo triatlo começou na madrugada de 18 de agosto de 2008: "Sou um dos 'filhos' da Vanessa Fernandes, pois fui um dos que colocaram o despertador para as três da manhã, de modo a vê-la competir nos Jogos Olímpicos de Pequim, em que foi medalha de prata. Depois de ver a sua prova, percebi que gostava de tentar o triatlo. Sempre gostei de correr, natação também era algo que apreciei e só o ciclismo é que era mais complicado, pois nunca tinha experimentado."

Começou a praticar triatlo com alguma regularidade, primeiro em distâncias mais curtas, que foram aumentando progressivamente até atingir o atual nível altíssimo, que lhe permite participar na mais mítica competição mundial da modalidade.

Publicitário de profissão, confessa que gostaria de ter mais tempo para se dedicar ao triatlo, mas não se queixa. "Felizmente, consigo encontrar um equilíbrio entre o treino, a família, o trabalho e os amigos. Desde 2015 quase não tive interrupções a nível de treino, com exceção de três ou quatro semanas por ano em que fico parado. Esta qualificação para o Havai é sinal de que o treino foi bem planeado", destacou.

Pedro Vieira explica como é uma semana normal de treinos. "Varia muito ao longo do ano, mas nesta fase de preparação para o Ironman foram cerca de 20 horas semanais, com grande incidência no ciclismo, porque é o segmento que demora mais tempo na competição", revelou.

O atleta de 42 anos viajou para o Havai no passado sábado, acompanhado pela família mais próxima: "Sou amador e este é um projeto familiar, só faria sentido se eles viessem comigo. Aliás, se não fosse o apoio da família não conseguiria tudo o que tenho alcançado."

Paulo teve o clique depois de uma corrida com o filho

Paulo Figueiredo, 46 anos, não esconde a ansiedade por entrar em ação em Kailua-Lona. "Do que vou lendo e falando de quem já participou, trata-se de uma prova incrível, que ainda por cima comemora neste ano o 40.º aniversário. Foi no Havai que o triatlo começou, e este local está para o triatlo como o Carnaval está para o Brasil. Claro que não podemos esquecer-nos da humidade altíssima, que possivelmente só se encontra em mais dois ou três locais no mundo inteiro, mas essa dificuldade extra só torna este Ironman ainda mais especial", realçou.

Paulo não está a 100% devido a um problema num joelho, mas nem lhe passa pela cabeça não concluir a prova. "Tenho uma fratura no corno do menisco e isso obviamente que me vai limitar na corrida, mas não vai influenciar nada na natação e na bicicleta. Uma coisa garanto: se for preciso encontrar um plano alternativo para cortar a meta, é isso que farei", disse. Azar dos azares, esta lesão aconteceu num dos melhores momentos da carreira, pois no início de setembro terminou em 20.º lugar no Campeonato do Mundo de Ironman 70.3 em Porto Elizabeth.

Foi há seis anos que Paulo experimentou o triatlo pela primeira vez: "Pesava 106 quilos e decidi que tinha de mudar radicalmente de vida. O clique foi quando estava a fazer uma corrida de dois ou três quilómetros com o meu filho de 10 anos e percebi que ele desacelerou para que eu não ficasse para trás. Decidi que não poderia continuar da mesma forma e comecei a fazer exercício físico, seguindo uma dieta. Três meses depois já estava a participar no Triatlo de Lisboa."

Paulo Figueiredo, que é treinado por Pedro Freire, o mesmo técnico que orienta Pedro Vieira, treina, em média, 15 a 20 horas semanais, carga horária que tem de conciliar com a profissão de diretor do Hotel Quinta da Marinha. "Há dias em que chego ao hotel às sete da manhã e fico lá até ao início da noite, pois tenho 150 pessoas que dependem de mim. E ainda tenho de fazer aquelas tarefas do dia-a-dia, como levar os filhos à escola ou fazer compras no supermercado. A diferença é que o tempo que teria para dedicar a mim e à minha família, como ir ao cinema e passar fins de semana fora, é totalmente para o triatlo", sublinhou.

O triatleta que representa o SFRAA Triatlo não se queixa desta vida atribulada: "Adoro o meu trabalho e consigo sempre arranjar tempo para treinar. Não tenho é tanto tempo para fazer treino de recuperação, e foi precisamente por isso que contraí a lesão no joelho." A terminar, faz questão de destacar o apoio da família mais próxima, que também seguiu viagem para o Havai: "Sem a ajuda deles e dos amigos não teria cumprido este sonho de chegar ao Havai."

O incrível exemplo de superação de Alexandre Dias

O paratriatleta Alexandre Dias garante estar "muito honrado e orgulhoso" por participar nesta mítica prova, depois de ter conseguido o acesso a uma das cinco vagas mundiais para atletas com doenças incapacitantes. Padece de esclerose múltipla, uma doença crónica e degenerativa que afeta o sistema nervoso central e que surge frequentemente entre os 20 e os 40 anos. Os sintomas são muito variáveis e podem ir da fadiga à inflamação do nervo ótico, passando por alterações da sensibilidade ou equilíbrio.

"Em março deste ano candidatei-me a uma vaga e em junho informaram-me de que tinha sido um dos escolhidos. A organização colocou-me apenas uma exigência: teria de completar um Ironman, para provar que estava em condições de competir. E consegui terminar o Ironman de Frankfurt, em julho. Fiz a prova em 13.27 e esse foi o meu segundo Ironman, depois de ter feito 13.27 em Barcelona", revelou o triatleta de 33 anos.

"Nem sei exprimir a felicidade que tenho por estar aqui em Kailua-Kona [Mário Machado chegou duas semanas antes da prova], principalmente quando me lembro de que há apenas dois anos tinha fobia da água e nem sabia nadar", acrescentou.

E quais são os objetivos para a mítica prova deste domingo? "Acima de tudo, aproveitar ao máximo esta oportunidade. Estou com receio da humidade e o meu grande desejo é terminar, seja com que tempo for, desde que seja abaixo do máximo de 17 horas que é exigido."

Foi em 2010, quando tinha 25 anos, que Alexandre soube que tinha esclerose múltipla. "Houve um dia em que comecei a ver uma nuvem branca do olho esquerdo, que não passava. Fui às urgências e o oftalmologista disse-me para ser visto por um neurologista, que me mandou fazer uma ressonância magnética fora do hospital. Passados uns dias voltei ao hospital e foi lá que fiz uma segunda ressonância magnética, que mostrou que padecia de esclerose múltipla. O médico que me informou da doença avisou-me logo para não ir ao Google pesquisar porque só iria encontrar desgraças", contou.

Quando recebeu a notícia ficou alarmado. "Fiquei em choque por me terem dito que se trata de uma doença sem cura. Mas optei por desvalorizar e até aos 28 anos continuei com as saídas à noite, o álcool em excesso... enfim, refugiava-me em tudo o que fosse imediato. Não foi estranho que tenha chegado a pesar 116 kg", reconheceu.

Na sua memória está ainda um verão em que sentia uma fadiga extrema: "Em agosto tinha de me deitar às 18 horas para depois ter forças para conseguir jantar com os meus pais. Foi nessa altura que percebi que tinha de virar a página e não podia continuar a levar a mesma vida. Comecei a frequentar o ginásio e passados uns dois meses li uma notícia de uma dinamarquesa com esclerose múltipla que tinha feito 366 maratonas em 366 dias. Pensei que se ela tinha conseguido fazer tantas eu, ao menos, iria conseguir terminar uma."

Estávamos em 2014 e decidiu que iria participar na Maratona do Porto. "Para além do ginásio, comecei a correr e deixei de lado os alimentos prejudiciais. Também deixei de beber álcool e a verdade é que consegui terminar a maratona, com o tempo de 3.48, depois de ter conseguido perder 30 kg", revelou. A sensação de bem-estar foi imediata: "No verão anterior estava sempre cansado, mas depois de começar a correr grandes distâncias, curiosamente desapareceu a sensação de fadiga. Em 2015 estabeleci o objetivo de fazer três maratonas e consegui."

A ideia do triatlo apareceu logo a seguir. "Estava na internet e assisti a um vídeo no YouTube sobre o Ironman. E decidi que tinha de experimentar, apesar de nem saber nadar. Comecei a ter aulas de natação e cerca de um ano depois participei no Triatlo Longo de Cascais", recorda, reconhecendo que a experiência "foi horrível": "Tive um ataque de pânico na água e não concluí a prova. Nem me lembro do que aconteceu." Tudo se modificou depois de passar quatro fins de semana de seguida no mar com colegas de trabalho da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla. "Evoluí muito e perdi o medo da água. Claro que a natação continua a ser o setor do triatlo em que sou mais frágil, mas a fobia da água já lá vai. Se me sinto um exemplo para as pessoas com esclerose múltipla? Sempre fui muito recatado, mas se alguém se inspirar na minha história, claro que fico imensamente orgulhoso."

E os grandes favoritos são...

O alemão Patrick Lange, campeão do ano passado, é o grande favorito à vitória no Ironman do Havai, seguido de perto por um trio de concorrentes que aparentemente têm chances muito parecidas: Jan Frodeno, Sebastian Kienle e Lionel Sanders. E não convém desvalorizar o espanhol Javier Gómez, cinco vezes campeão mundial e que parece atravessar um grande momento de forma.

No setor feminino, a suíça Daniela Ryf, três vezes campeã do mundo no Havai, é a favorita indiscutível, seguida por Mirinda Carfrae e Lucy Charles: 7% (14-1)

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

Globalização e ética global

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.