O vendedor de bondade

Há muito que não o vejo, estará doente, terá mudado de poiso?

Sempre sentado à entrada do metro dos Anjos, o corpo muito encolhido, o rosto voltado para baixo, na mão um copo do MacDonald's onde tilintavam meia dúzia de moedas. A pele escura, de um tom específico: castanho-sinti, à falta de melhor definição. O tronco balançava em contínuo, embalado por uma ladainha que devia vir de longe. Embora a postura o sugerisse não tinha qualquer deficiência física, vi-o levantar-se ao final do dia, arrumar as moedas no bolso e caminhar pela avenida tão escorreito quanto eu.

Dia após dia, ali sentado sem fazer nada, um inútil, um parasita, pensava eu até pensar melhor. Afinal o homem tinha uma função, e das mais nobres. Por meros 50 cêntimos (mais umas moedas negras) o homem vendia um pouco de altruísmo, um sorriso condescendente, um lampejo de virtude. Se até o vício se paga a peso de oiro, o que levaria aquele homem a desbaratar tanta bondade?

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Ricardo Paes Mamede

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