Investimentos adiados para 2019 sacrificam 14 mil empregos neste ano

Expansão esperada do investimento cede de 5,8% para apenas 3,9%. Investimento público fica muito aquém do prometido, diz Banco de Portugal.

Nos últimos quatro meses, terão sido adiados ou anulados 585 milhões de euros em investimentos (valores reais), o que levou à perda (não criação) de mais de 14 mil empregos na economia portuguesa, indicam dados do Dinheiro Vivo com base nas novas projeções do Banco de Portugal e nos números oficiais do INE para as contas nacionais.

Num novo estudo, o banco central fala no "adiamento de trabalhos em algumas grandes obras de infraestruturas" - nomeadamente barragens - e numa expansão do investimento público que está "muito aquém da estimativa para o conjunto do ano".

No entanto, segundo o novo boletim económico do banco central, ontem divulgado, a economia deverá crescer o mesmo que se esperava em junho (2,3% este ano). Isto é possível porque, afinal, o consumo privado vai aumentar mais do que o previsto, à boleia do aumento do rendimento disponível das famílias (2,4% em vez de 2,2%) e porque haverá bastante menos importações (5,1% de aumento em vez de 5,7%), consequência direta de haver menos investimentos (Portugal é um país que importa muita tecnologia e materiais).

O reforço do consumo privado e o menor recurso às importações também compensam o facto de as exportações terem sido revistas em baixa (crescem 5% em vez de 5,5%) e de haver menos investimento (há seis meses projetava-se uma subida de 5,8% neste ano e agora não irá além de 3,9%).

No mercado de trabalho, a taxa de desemprego de 2018 foi revista em baixa de 7,2% para 7%, mas a projeção para a criação de emprego piora: será 2,3% em vez de 2,6%. A economia deve criar 110,4 mil empregos neste ano em vez de 124,9 mil (projeção implícita em junho), o que dá a tal diferença de 14,4 mil empregos a menos.

Erosão de 417 milhões nas exportações

Cálculos com recurso aos dados do INE indicam que, além de haver menos 585 milhões em investimento (face ao que se previa em junho), há também uma erosão significativa das exportações em 2018 (cerca de 417 milhões de euros a menos).

O Banco de Portugal atribui esta perda ao "contexto de abrandamento da procura externa dirigida à economia portuguesa", referindo-se várias vezes ao ambiente político internacional mais conturbado e incerto, que parece estar já a contaminar o comércio exterior das empresas nacionais.

O impulso menor do investimento afeta sobretudo o setor da construção. "A desaceleração perspetivada para o investimento em construção em 2018, após um crescimento significativo em 2017 (8,3%), reflete, em parte, o impacto do adiamento de trabalhos em algumas grandes obras de infraestruturas", explica o BdP. A construção acabou, necessariamente, por ser "a componente que mais contribuiu para a desaceleração" do investimento fixo total.

E, como já referido, destaca-se a forte travagem do investimento público em 2018. Este "apresentou no primeiro semestre um crescimento consideravelmente abaixo do esperado para o conjunto do ano". Tal resultado "estará associado a uma execução abaixo do previsto no que respeita a fundos comunitários, com reflexo também na receita de capital".

Já o investimento em máquinas, equipamentos e veículos "apresenta uma taxa de crescimento elevada, mas inferior à registada no ano anterior, num contexto de expectativas de crescimento mais moderado da procura global e de maiores níveis de incerteza prevalecentes a nível externo", diz o banco governado por Carlos Costa.

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