"Gosto muito de cantar sobre o desamor"

Márcia está de regresso com Vai e Vem, um disco "íntimo e não intimista", como a própria o descreve. Assume uma liberdade interpretativa até agora desconhecida a uma das mais talentosas escritoras de canções.

O amor, segundo Márcia, é uma estrada de múltiplos caminhos, que tanto podem ir dar a uma estrada luminosa como ao mais escuro dos becos. Quando assim é, apenas há que voltar para trás e continuar a tentar encontrar o caminho certo. Mais do que o amor, Márcia prefere cantar sobre o desamor, não de uma forma fatalista, mas com a resiliência de quem sabe que o melhor ainda está para vir.

Tem sido assim ao longo de toda a carreira, iniciada algures na viragem da primeira década deste novo século, enquanto vocalista do Real Combo Lisbonense, um coletivo liderado por João Paulo Feliciano, em que Márcia dava voz a temas dançantes de outras eras, dos tempos do yé-yé, numa espécie de estágio para os voos mais altos que a aguardavam no futuro. Anos antes já tinha feito parte da banda Ana's Blame, que mal saiu da garagem e a música, a dela, com cunho próprio, passou a funcionar mais como uma terapia pessoal, feita no silêncio do quarto, enquanto tirava o curso de Belas-Artes. Antes ainda já havia estudado música no Hot Clube e depois cinema documental em Barcelona e tudo isto junto ainda ajuda a explicar melhor a música tão visual de Márcia, em que cada canção mais parece um pequeno filme, trabalhado até ao mais ínfimo pormenor, da letra à produção.

O primeiro esboço surgiu em 2009, com um EP homónimo composto por cinco canções, entre elas uma chamada A Pele Que Há em Mim, que anos mais tarde viria a ser recuperado sob a forma de êxito, em dueto com JP Simões. O álbum de estreia,, surgiria em 2010 e nele estava incluída essa pérola pop que dá pelo nome de Cabra-Cega, o primeiro assomo de êxito, cuja letra - "eu sei que é fácil montar o aparato da menina que é culta / mas também, sorrir sai mais barato que cuspir pensamentos à solta" - tão bem resume não só a carreira como a própria personalidade introspetiva de Márcia, também ela indissociável da sua música, tal como a vida e tudo o que dela faz parte, especialmente o amor, sempre o amor. Seguiram-se Casulo (2013) e Quarto Crescente (2015), que a afirmaram como uma das mais talentosas escritoras de canções da nova música portuguesa. Três anos depois, está de regresso com um novo álbum, para o qual convidou os amigos António Zambujo, Samuel Úria e Salvador Sobral e em que assume, finalmente, um espaço que é seu por direito próprio. E isso sente-se até na forma como canta, "muito mais livre e solta", segundo a própria. Composto por uma dúzia de canções perfeitas, Vai e Vem é um daqueles discos que parecem feitos de propósito e apenas para quem os ouve. E que bem sabe ouvir algo assim, tão belo e tão raro.

As suas canções têm sempre uma componente visual muito forte, como é o seu processo de composição?

Normalmente adapto as letras às melodias, mas depende das canções, dos dias, dos momentos. Às vezes, ao longo do dia, aparecem-me melodias na cabeça, que registo no telefone e mais tarde tento transformar em canções. O tema Tempestade, que abre este disco, surgiu num dia em que estava a tentar acabar umas dessas canções. Estava a trabalhar numa letra que tinha um verso enorme e um bocadinho rebuscado. Como sou muito criteriosa com as palavras, às vezes torno-me bastante picuinhas [risos]. Quando finalmente a terminei, percebi que ainda tinha dez minutos, antes de ir buscar os meus filhos, e apeteceu-me cuspir qualquer coisa para o microfone, quase em jeito de desabafo. E assim nasceu a Tempestade, que acabou por ficar quase como saiu. Sei que estava a pensar nos meus filhos, mas não posso dizer que seja sobre eles.

Este é um álbum de canções de amor ou de desamor?

Os temas que abordo são sempre muito sobre a resiliência, o não ceder às coisas más como se fosse o fim da vida, porque a única coisa que não tem solução é a morte. O resto ou recomeça ou ainda não está perdido. Concordo que canto muito sobre o amor, mas quase sempre por esse lado de superação, de nunca baixar os braços. E portanto, sim, também muito desse desamor. É engraçado, porque pouca gente toca nesse assunto, apesar de ser tão óbvio na minha música. Neste disco há uma dessas canções de desamor, o Vai e Vem, sobre aquela sensação em que, apesar do fim, aquela relação ainda não acabou e ambos ainda têm muito para dar um ao outro. Não entendo porque não se fala mais sobre isso na música, acho que é um lado muito sensual e sedutor do amor e das relações. Daí ter chamado o Zambujo para a cantar comigo, porque ele tem muito esse charme e essa energia.

Este disco parece muito mais solto, em termos de interpretação, do que os anteriores. Concorda?

Estas músicas foram todas feitas nos últimos dois anos e a maior diferença, em termos de composição e comparando com os outros discos é que elas são muito mais assertivas, em termos de duração. Ou seja, já sei quando disse tudo e não é preciso estar a esticar mais. A única exceção é talvez o Ao Chegar, a última do álbum, na qual digo muito pouco e que termina com um instrumental enormíssimo. É sobre uma pessoa que vai a conduzir, a pensar porque é que se foi embora e no final volta para trás. Sim, porque eu tenho vídeos na minha cabeça para todas as músicas, embora nunca os faça [risos].

E a que é que se deve essa nova assertividade?

Apesar de as músicas falarem muito de inseguranças e de medos, este é um disco com muitas mais certezas. Já me sinto com mais direito e legitimidade para cantar sobre certas coisas de uma maneira mais livre.

E porque é que não o fazia antes?

Por medo, timidez, tudo. Sempre tive um grande pavor à exposição e talvez por isso, ainda hoje, as pessoas não associem a minha cara a músicas como A Pele Que Há em Mim ou a Cabra-Cega. Há quem oiça o meu nome pense numa cantora brasileira e não sou propriamente uma pessoa reconhecida na rua. Lembro-me de uma vez ter saído de um concerto, cheiíssimo, que dei no Mexefest, no qual tive o Zambujo e a Ana Moura como convidados, e, cá fora, só eles é que foram reconhecidos [risos]. Sempre tive no entanto uma grande certeza, à qual até hoje me mantenho fiel - sempre quis fazer as coisas à minha maneira, segundo a minha verdade. Nunca me quis trair e apesar de ter tido muitas propostas, porque cantava bem, recusei sempre, porque o meu objetivo não passava por aí. Aliás, nem sei bem qual era o meu objetivo, para além de desabafar e ser ouvida. Claro que podemos ser ouvidos por cem ou por cem mil, mas para mim esses cem chegavam. Foi por isso que demorei algum tempo a assumir tudo isto. Nos meus três primeiros discos, por exemplo, tenho ilustrações na capa, não aparece a minha cara. Tem tudo que ver com uma questão de qualidade, se quem nos ouve nos quer realmente ouvir. E sinto isso com o meu público, a quem estou imensamente grata.

E como é que alguém com esse pânico à exposição sobe a um palco?

No palco também sentia esse pudor. Só o comecei a perder na digressão do Quarto Crescente, que foi quando finalmente senti legitimação para estar ali. No início, quando dava concertos, achava sempre que as pessoas estavam a apanhar uma seca. Só queria era despachar aquilo. Sentia que as pessoas estavam a fazer-me um favor e isso tem que ver com o facto de não conseguir reclamar aquele espaço como meu. Acho que me apequenava um bocadinho, até como resultado do modo como fazia música, trancada no quarto para não incomodar ninguém, enquanto estudava Belas-Artes. Desde então, sinto que houve toda a conquista de um espaço auditivo, de forma lenta, que me ajudou a consolidar enquanto artista, até em termos de público, exatamente da forma que eu sempre desejei.

E como é que lidou na altura com o sucesso de temas como Cabra-Cega ou A Pele Que Há em Mim?

O da Cabra-Cega quase nem me apercebi. A canção esteve no primeiro lugar da Rádio Comercial durante semanas e eu nem fazia ideia da importância disso. Não significa que não esteja grata, mas apenas não tinha noção. Já A Pele Que há em Mim tive noção, mas estava grávida na altura, o que era um desejo pessoal muito grande e praticamente nem liguei ao sucesso da música. Se calhar na altura até poderia ter potenciado algo mais, mas estava no pós-parto, entre fraldas e biberões, noutra realidade. Hoje rio-me imenso, porque foi um momento de ouro e não fiz nada para o aproveitar. Ainda fui aos Globos de Ouro, quando a minha filha tinha 3 meses, e passei a cerimónia toda a ver fotos dela e a chorar baba e ranho [risos]. Lembro-me de que na altura fiz um concerto com o JP Simões no Museu do Oriente, em Lisboa, que esgotou em poucas horas, mas tanto eu como o meu manager tivemos medo de fazer uma segunda data [risos].

Que importância tem a vida pessoal na sua música?

Toda. Dou muito valor à vida pessoal e às relações privadas e isso acaba por transparecer na minha música, que é muito íntima. Dou muito valor à intimidade e vivo-a com muita intensidade. Desfruto muito dos meus filhos, da minha família, dos meus amigos. E deixo entrar muito a vida pessoal na minha música, porque a vida é o que existe e os discos, apesar de fazerem parte da minha pessoa, são um trabalho resultante da vida.

Mas na sua música é a Márcia ou são personagens que falam?

Não desenvolvo personagens, mas também não sou eu na minha vida quotidiana. Por isso uso o termo íntimo e não intimista, porque uma música intimista é uma coisa suave e a minha é precisamente o contrário. Faço uma música profunda, que neste disco assume um lado mais feminino e determinado, pelo modo como fala das emoções. Sempre o fiz, mas acho que neste disco o assumo ainda de forma mais profunda. E ao mesmo tempo começo também a falar de outros tipos de sentimento, como no tema Corredor, que é uma música muito mais agressiva, em termos de interpretação. Ou no Manilha e no Agora, que são outras duas músicas em que rasgo a interpretação. Essa é a grande diferença deste disco para os outros, é muito mais interpretado. Nesse sentido, estou muito mais solta e livre. E isso tem que ver com a tal legitimação de que falámos antes. Porque é que hei de ter pudor em falar de despeito ou de gozar com quem faz pouco de nós?

Mas era muito mais solta, por exemplo, quando cantava com o Real Combo Lisbonense...

Porque eram as palavras dos outros, cantar o meu coração e os meus sentimentos era muito mais difícil. Para uma conversa resultar tem de haver interesse das duas partes, não é por falar mais alto que vou ser ouvida. Na música passa-se o mesmo e foi talvez por isso que sempre tive tendência para cantar baixinho e quem quisesse que viesse ouvir-me. Se calhar está tudo apenas relacionado com inseguranças minhas, mas sinto que neste disco ultrapassei finalmente esse receio. Há uma certa determinação e maior assertividade. As canções falam dessas inseguranças e de possibilidades de rutura, mas ao mesmo tempo sempre com a certeza de que no final há sempre algo de bom que fica.

Fala muito do seu público, quem é o seu público?

É um público muito fiel. As pessoas que me ouvem escrevem-me imenso sobre as minhas canções. O teor das mensagens é sempre muito íntimo, quase de desabafo, de quem encontra uma resposta para algo na minha música. Nem sequer estou a falar da letra, mas sim de algo mais profundo, que faz que a pessoa que a ouve não se sinta sozinha. Isso é muito especial, não é coisa pouca. A música para mim é como uma terapia. Já fui salva por canções de outros e a minha música também já me salvou várias vezes, em especial quando tenho de desabafar, que é algo que faço muito através da música. Quando me dizem algo assim, isso serve para dar algum sentido ao que ando a fazer. Nos concertos, quando toco o Lado Oposto, do Quarto Crescente, há sempre alguém no público que começa a chorar. Mas nunca é um choro triste, é o tal desabafo que funciona como uma redenção. E isso só se consegue através de coisas que são mágicas, como a música. Ainda recentemente tive uma miúda num concerto em Braga que veio de propósito com os pais de Londres. No final, disse-me que quando está triste sou eu a companhia dela. Isto é muito bonito. É este o meu público, como poderia não estar satisfeita?

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