Dos "filmes do Rambo" ao "embaraço": tudo o que Azeredo disse sobre Tancos

Desde o roubo do material de guerra nos paióis, o ministro da Defesa Nacional fez declarações desconcertantes e assinalou a "esperança" de que não houvesse "demasiadas violações do segredo de justiça".

Do roubo à recuperação do material de guerra

28 de junho de 2017, dia do assalto

" É sempre grave quando instalações militares são objeto de ação criminosa. Não tenho noção exata do material que realmente foi furtado."

30 de junho

"A afirmação que é feita de que é a maior quebra de segurança do século não é verdade - há quebras e falhas de segurança muito superiores a esta."

1 de julho

"Assumo a responsabilidade política pelo simples facto de estar em funções."

7 de julho

" A reputação de Portugal permanece intacta."

"A responsabilidade política, ao contrário do que muita gente pensa, não significa demissão. Quando disse que assumia responsabilidade política, continuei."

"Não tinha qualquer conhecimento de uma situação que fosse urgente corrigir, direta ou indiretamente, à segurança daqueles paióis."

19 de julho

"Eventuais responsabilidades, eventuais factos que apontem para responsabilidades [criminais de militares] muito mais depressa resultam da investigação da Polícia Judiciária Militar e da Polícia Judiciária do que de averiguações levadas a cabo pelo Exército."

10 de setembro

"No limite, pode não ter havido furto nenhum. Como não temos prova visual nem testemunhal nem confissão, por absurdo podemos admitir que o material já não existisse e que tivesse sido anunciado... e isto não pode acontecer." (...) "Sem querer estar a fazer humor com isso, um civil que queira utilizar um sistema law obsoleto arrisca-se a que lhe expluda nas mãos" (...) "parece que estamos a falar de filmes do Rambo".

Inédito em democracia

26 de outubro (já depois da "recuperação" do material a 18 de outubro).

"O governo regista, e acho que todos registamos, como extremamente positivo o facto de o conjunto do material de guerra que não tinha sido recuperado ser recuperado e o facto de ser a primeira vez, que eu me recorde, em democracia, num furto desta natureza, de o material roubado ou furtado ter sido recuperado."

8 de novembro

"Ainda há pouco, no fim da reunião, o secretário-geral [da NATO] veio falar comigo e especificamente dizer do contentamento dele por algo que não é muito comum, que é justamente, perante um roubo ou um furto grave de material militar, ter sido possível recuperá-lo."

8 de maio de 2018

"O ministério da Defesa, em colaboração com os diferentes ramos [das Forças Armadas], fez aquilo que era de longe o mais importante, que era tomar medidas de natureza estrutural e de natureza operacional que garantam, tanto quanto é possível garantir, que nunca mais acontece aquilo que aconteceu em Tancos."

A esperança

23 de julho (depois da notícia do Expresso sobre ainda haver material de guerra que, afinal, não tinha sido recuperado).

"Fui informado sobre a discrepância? Não fui. Mas não fui provavelmente porque quem conduz a investigação entendeu que estaria em segredo de justiça."

"Eu até posso parecer, mas não sou da Polícia Judiciária e portanto aquilo que eu tinha a dizer já o disse. É uma matéria que está em segredo de justiça. Fui ao Parlamento pela quarta, quinta ou sexta vez sobre esta questão. Não havendo nada a assinalar, não há nada a assinalar."

"Deixemos o que está em curso, que é a investigação criminal, seguir adiante e oxalá - é a minha esperança - não haja demasiadas violações do segredo de justiça."

12 de setembro

"Continuo sem ter a certeza sobre se falta material ou se é uma falha de inventário. Não digo nem que não, porque não tenho elementos para validar qualquer das teses. E aguardo tranquilamente que o Ministério Público diga de sua justiça."

O bullying e o embaraço

4 de outubro (a comentar, em Bruxelas, a operação da PJ que deteve militares da PJM, incluindo o diretor, e da GNR por suspeitas de terem encenado a recuperação do material, em conluio com um dos suspeitos do roubo e a notícia do Expresso sobre ter sido informado da "encenação").

"Que fique muito claro: aquilo que o CDS pede, pede legitimamente. É um partido político, está a fazer oposição, considera que eu devo demitir-me, por isso encaro isso sem quaisquer hard feelings, sem críticas pessoais, embora às vezes até pareça uma espécie de bullying político (...) Neste caso, já tenho um bocadinho a pele dura, porque o CDS pede a minha demissão desde 3 de julho de 2017. Ao fim de um ano, três meses e dois dias, já criei alguma resistência. Sem querer fazer ironia, acho que não faz sentido nenhum. Se tivesse sentido, obviamente já teria apresentado a minha demissão, não tenho apego a cargos que não me leve a ter a lucidez de analisar o que faço."

"Se me pergunta se é agradável todo o conjunto de situações que têm vindo a lume, não, não é. Estaria a mentir. Preferia mil vezes que tudo isto não tivesse ocorrido, preferia mil vezes que a investigação já pudesse estar concluída, preferia mil vezes que pudéssemos olhar para Tancos como uma questão bem resolvida."

"(a detenção do major Vasco Brazão) É o único embaraço que essa situação causa. Agora, repito, respeito muito duas coisas: primeiro, aquilo que está sob segredo de justiça, segundo, a presunção de inocência. O aspeto que é menos bom é qualquer militar ver-se envolvido em qualquer investigação criminal."

"Queria dizer categoricamente que é totalmente falso que eu tenha tido conhecimento de qualquer encobrimento neste processo. Não tive conhecimento de qualquer facto que me permitisse acreditar que terá havido um qualquer encobrimento na descoberta do material militar de Tancos."

"Não vou nem falar pelo meu chefe de gabinete nem desenvolver mais este tópico. Só quero é dizer, de forma muito direta e muito categórica, que é totalmente falso que eu tenha conhecimento de qualquer encobrimento - seja sobre o achamento das armas seja sobre os outros factos que têm vindo a público nas notícias nos últimos dias."

"Não vou comentar declarações de uma pessoa (Vasco Brazão) que eu, tanto quanto sei, nem conheço."

"É fácil perceber que neste caso o governo agiu bem porque foi posto perante um facto que é grave. Foi feito depois um trabalho muito aprofundado, [...] que pode demonstrar o tempo infinito em que a situação de fragilidade dos paióis já se mantinha, e depois foi tomado um conjunto de medidas muito profundas e exigentes para restabelecer, perante os cidadãos, as condições de segurança de todo o material de guerra."

"Se colocar todos os sistemas antirroubo em sua casa, de certeza que não pode garantir que não há um roubo em sua casa. Mas pode, com certeza, garantir que fez todos os esforços para que uma situação dessas não se torne a repetir."

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