Dos 'swaps' ao Banif: o legado de Vieira Monteiro no Santander Totta

Vieira Monteiro entregou aos acionistas mais de dois mil milhões de lucros nos sete anos de liderança do Santander Totta. No dia 13 de dezembro será a vez de Pedro Castro e Almeida assumir os destinos do banco. Eis o que o bancário deixa para o sucessor.

Ao longo dos sete anos em que liderou o Santander Totta, António Vieira Monteiro entregou aos acionistas mais de dois mil milhões de euros de lucros e colocou o banco como líder do mercado português, em ativos e crédito. Mas os dois mandatos cumpridos pelo banqueiro, que a partir de janeiro deixa a presidência executiva do banco, não foram fáceis e envolveram algumas polémicas.

O caso dos swaps das empresas públicas de transportes e a compra do Banif a desconto foram dois casos em que o banco se viu alvo de críticas.

E, antes de passar a pasta ao sucessor Pedro Castro e Almeida, atual administrador do Totta, Vieira Monteiro deixa preparada a mudança de marca: o nome Totta cai ao fim de 125 anos de existência. Deixa também concluída a integração operacional e tecnológica do Banco Popular, comprado em 2017.

Mas, apesar de algumas polémicas, o Santander está mais forte após a liderança de Vieira Monteiro. O banco teve sempre lucros, mesmo durante a crise financeira do país, ao contrário dos concorrentes, e chegou à liderança do setor, em termos de ativos e crédito. Também cresceu na quota de mercado no segmento das pequenas e médias empresas. E ganhou quota nos recursos de clientes e no crédito.

Entre o início de 2012 e o final de setembro de 2018, a quota de mercado do Santander, em termos de recursos de clientes, passou de 10,1% para 14,2%. No stock de crédito hipotecário, a sua quota cresceu de 12,3% para 17,8%. No crédito a empresas, o aumento foi mais forte, com o banco a reforçar a sua quota em nove pontos percentuais, para 18,3%.

Os desafios

Vieira Monteiro assumiu a presidência executiva do Totta em 2012, em pleno resgate financeiro do país. Em 2013, estalou a polémica dos swaps, ou contratos de seguros de crédito. O banco foi acusado de ter feito contratos abusivos que acabariam por gerar prejuízos elevados para várias empresas públicas de transportes. O risco de prejuízo chegava a 1200 milhões de euros.

O governo e o banco chegaram a acordo em abril de 2017. O conflito durava desde 2013, quando a então ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, decidiu rasgar os contratos e as empresas deixaram de pagar ao banco. Só em juros, o Estado pagou mais de 500 milhões de euros. O acordo previu um empréstimo de 2,3 mil milhões de euros do banco ao Estado, para pagamento dos swaps.

Em meados de 2014, deu-se a queda do BES. A resolução do Banif ocorreu em dezembro de 2015, num processo que envolveu a compra de um pacote de ativos por parte do Santander Totta. A aquisição permitiu ao Santander Totta reforçar quota de mercado e chegar à liderança, nomeadamente nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Mas o negócio teve críticas. Primeiro, porque o fim do banco custou aos contribuintes 2,4 mil milhões de euros. Depois, porque a venda ao Santander foi feita com um desconto de 75%. O Santander comprou o Banif por 150 milhões de euros ativos a atividade do Banif avaliada em 600 milhões de euros. O Santander registou nas suas contas anuais consolidadas o ativo adquirido com o valor de 283 milhões de euros.

A compra do Banco Popular, em meados de 2017, a digitalização do banco e a mudança de marca são também legados que Vieira Monteiro deixa na sua presidência do banco. Tal como a contínua redução do número de trabalhadores e de balcões. Só neste ano, saíram do Totta 200 funcionários e em 2018 o banco fecha ao todo cem agências.

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