"Portugal é um exemplo de como se consegue mudar de governo e continuar com credibilidade nas contas"

O ainda comissário português Carlos Moedas diz que não compreende como as questões europeias não movem os portugueses. Elogia António Costa e também Rui Rio, afastando, para já, a hipótese de uma corrida à liderança do PSD.

Carlos Moedas nasceu em Beja quatro anos antes do 25 de Abril, filho de um comunista que foi jornalista, um dos fundadores do Diário do Alentejo, nunca partilhou a ideologia política de seu pai. Saiu de Beja para Lisboa nos anos 1980 para estudar Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico (IST); uma candidatura ao Erasmus levou-o para Paris, onde estudou, viveu e começou a trabalhar. Também passou por Harvard, nos Estados Unidos, e por Londres, onde trabalhou no Goldman Sachs e onde se cruzou com António Borges, que o levou para o PSD. Com Pedro Passos Coelho chega ao governo como secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro. É uma das principais figuras do PSD nas negociações com a troika. Em 2014 torna-se comissário da Investigação, Ciência e Inovação.


Qual é para si o maior desafio que a União Europeia (UE) enfrenta neste momento?
Temos dois grandes desafios à nossa frente. O combate às mudanças climáticas e a desigualdade. São igualmente importantes e, de certa forma, estão ligados entre si, e aí a UE tem uma oportunidade extraordinária que é mostrar liderança, o que nos dá, no fundo, uma vantagem competitiva enorme. No combate às mudanças climáticas, quando olhamos para o número de empregos criados nas chamadas indústrias verdes da economia circular, vemos que na Europa já trabalham mais de seis milhões de pessoas nessas indústrias. Vamos comparar isso com a indústria automóvel e vemos que na produção de automóveis só trabalham dois milhões de pessoas. Ou seja, a Europa já criou mais emprego nestas novas áreas do que nas tradicionais, mas nós nem nos apercebemos disso. Eu apercebi-me quando estávamos na COP 21, nos Acordos de Paris, e, de repente, à volta, tínhamos os países todos a olhar para a UE, à espera de que a UE dissesse alguma coisa da liderança. Esta liderança é importantíssima para o nosso futuro e é uma liderança positiva. Falamos muitas vezes das crises e do que vivemos nos últimos anos e neste aspeto acho que podemos fazer a diferença, e estamos a fazer.


Nestas eleições há 15 países com partidos de extrema-direita a ganhar terreno. Essa não é também uma das maiores ameaças, sobretudo porque é política?
Essa é a ameaça, diria eu, à democracia. Eu estava a falar mais das oportunidades que vejo de combater exatamente esses fenómenos. A ameaça que hoje vivemos em relação à democracia vem do mundo digital, de certa forma da globalização, que veio criar esses partidos que no fundo aquilo que querem é destruir o sistema. O digital veio dar voz a isso porque esses partidos têm a capacidade de mostrar soluções fáceis que não existem, que não são possíveis mas que soam bem ao ouvido. Isso é muito perigoso e é tão perigoso que, realmente, as sondagens mostram que o PPE - o Partido Popular Europeu - e os Socialistas vão cair cerca de cem lugares no Parlamento Europeu. Prevê-se que o grupo de Marine Le Pen seja multiplicado por dois, mais de 60 deputados. O que pode ter um efeito muito negativo nessa liderança em relação ao clima, no combate às desigualdades, na maneira como olhamos para o digital, para a inteligência artificial... tudo isso é muito negativo. É importante que as pessoas tenham noção de que têm de ir votar. É muito importante que as pessoas tenham essa consciência.


A globalização por si só explicará o crescimento desse tipo de forças políticas no continente europeu, ou há também no próprio projeto europeu coisas que falharam?
Obviamente houve muita coisa que falhou e que nós sentimos, sobretudo durante a crise. Mas a globalização tem um efeito de certa forma mais forte porque foi a globalização que criou esta desigualdade, sobretudo na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. As classes médias se viram neste dilema em que os filhos estão a viver pior do que os pais, em que os filhos estão desempregados e os pais não. Isto é um dilema muito forte para a sociedade. Depois, a Europa, ao contrário do que se podia esperar, fechou-se também sobre si própria. O que aconteceu depois da crise foi este pêndulo europeu entre as decisões que eram tomadas a nível comunitário para o interesse de todos, os países começaram a chamar a si as decisões porque deixaram de confiar no método comunitário.

"Aquela ideia, muito dos anos noventa, que levou ao neoliberalismo, hoje não nos faz sentido. Vemos que não funcionou. Todos queremos o que é a base do projeto europeu - uma economia social de mercado que funcione para as pessoas."


Esteve nesse mundo, quando trabalhava no Goldman Sachs. Vê-o com outros olhos hoje? Era capaz de voltar?
Não, porque também nunca me senti lá muito feliz. Eu, como era bom aluno, fui seguindo o rebanho dos bons alunos e os bons alunos iam para estas consultoras, iam a estas entrevistas e íamos todos para os mesmos sítios. Mas nunca fui um banqueiro feliz porque não gostava muito nem nunca me senti muito bem nesse ambiente, por isso mudei de vida. Esta crise mudou a perspetiva sobre o mundo e também mudou a perspetiva de como as pessoas veem esses bancos, mas também como eles se veem a eles próprios e como a sociedade vê o capitalismo. Aquela ideia muito dos anos 1990 que levou ao neoliberalismo hoje não nos faz sentido. Aquilo que vemos é que não funcionou. E sabemos que todos querem aquilo que é a base do projeto europeu - uma economia social de mercado que funcione para as pessoas. De certa forma, a UE teve sempre isso como matriz, mas o mundo desviou-se e teve os seus extremos. Os extremos para mim são muito complicados à direita, porque normalmente são racistas, xenófobos e protecionistas, mas a extrema-esquerda também tem o seu papel muito perigoso nesta crise, pois tem tido comportamentos que podem descrever-se como autoritários. Lembro por exemplo o senhor a Mélenchon, que está a ser investigado pela polícia e grita "La République c'est moi!" (A República sou eu). Aliás, votam quase sempre em conjunto no Parlamento Europeu sobre os temas que os unem.


Disse recentemente que a Europa, nomeadamente o Parlamento Europeu, paga aos populistas para que eles muitas vezes estejam nos seus próprios países a trabalhar contra o projeto europeu.
Pelo menos temos de dizer isso às pessoas. Por exemplo, no último debate em que Nigel Farage esteve, fez uma pergunta ao presidente Juncker e quando acabou de fazer a pergunta foi-se embora, não estava interessado na resposta, era apenas teatro político. Isso não é política, não é democracia. Muitos deles nem vão às comissões em que trabalham. Não vão às comissões, não fazem relatórios, não querem absolutamente saber, e as pessoas não têm essa noção. Por isso repito muito a ideia de que temos de alertar as pessoas para aquilo que é o não fazer nada. Se queremos destruir o sistema, talvez não fazer nada seja o objetivo. Agora, é preciso saber que a destruição do sistema tem um impacto que será muito pior do que o próprio sistema que temos hoje. Nenhuma democracia sobreviveu a essas mudanças de sistema, que podem causar um dano irreparável nas pessoas.

"Foi uma grande lição de democracia Portugal mudar de governo, mas continuar num rumo de credibilidade nas contas públicas."

Visto de Bruxelas, na sua perspetiva, o que explica que em Portugal o populismo pareça não ter ainda chegado?
Por um lado, tenho orgulho nisso como português. Temos partidos de esquerda e de extrema-esquerda populistas, isso sempre tivemos e soubemos conviver com eles. Temos um Partido Comunista que fala da Coreia do Norte e da Venezuela de uma maneira que eu interpreto como populista, mas aprendemos a conviver com eles e portanto fazem parte do sistema. Evitámos, talvez por razões históricas, os extremismos de direita, que são muito perigosos pelo racismo, pela xenofobia, e isso tem que ver, penso eu, eventualmente com a nossa própria história.


O facto de termos um tipo de governo até ao dia 25 de Abril marca ainda hoje a forma como votamos e olhamos para as opções políticas?
Marca. Há uns anos, o senhor Orbán foi a Londres fazer um discurso e - contou-me o embaixador de Portugal - disse em Portugal todos os partidos têm um nome de esquerda. Achei interessante vindo de quem veio um elogio, mas isso tem que ver realmente com o nosso passado. Acho que em Portugal não há esse sentimento exacerbado.

Acha que Marcelo Rebelo de Sousa é também essa vacina contra o populismo?
Eu sou um fã do Presidente e acho que ele tem conseguido uma conexão sentimental e emocional com as pessoas que é extraordinária e que tem ajudado, sem dúvida, a que isso não aconteça. Tem sido um Presidente que tem unido o país. É muito interessante estar com ele em deslocações e ver que toda a gente vem ter com ele, ele tem um magnetismo único na política portuguesa. Acho que em toda a minha geração não há nada parecido com este magnetismo que ele conseguiu em relação às pessoas, esta ligação das emoções que as pessoas precisam. Porque vivemos num mundo digital em que cada vez há menos emoções e temos uma maior necessidade delas. Parece uma contradição mas não é.


Como é que em Bruxelas se olha hoje para Portugal? Já não é o mau aluno... agora até damos lições...
Penso que o que foi apreciado e que deu muita credibilidade ao país foi - quando houve a mudança de governo - na Europa as pessoas pensaram no que iria acontecer...


Por causa de ser um governo apoiado em forças de esquerda?
E era natural, em Bruxelas perguntavam como é que iria ser, quando há um partido comunista que está a apoiar um governo, como é que iríamos conseguir e o que é que Portugal iria fazer. Acho que isso foi uma grande lição de democracia e uma grande lição também para quem na Europa tinha algum ceticismo e que hoje dá Portugal como o exemplo de um país que consegue mudar de governo e continuar num rumo de credibilidade em relação às contas públicas, em relação ao que têm sido as políticas necessárias para fazer parte do grupo. Isso foi visto, e é visto, como um exemplo muito bom na Europa. Nós, quando vivemos e estamos cá, não temos talvez a noção do importante que isto é. As pessoas hoje olham para Portugal como um país moderno, um país estável, um país sem esses tais populismos de extrema-direita, e tudo isso é positivo e é o caminho que temos de seguir.


O que o governo acrescenta é que, para além de ter feito isso, ainda melhorou a condição de vida de todos os portugueses. Partilha dessa visão?
Aí é que vem a escolha política. O governo diz isso, a oposição dirá o contrário. Eu pertenço ao partido que está na oposição, portanto eu teria tido escolhas diferentes.

Teve uma experiência longa de negociação com a troika, surpreendeu-o este rigor orçamental num governo suportado por uma solução que engloba, como já referiu, o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Comunista (PCP) e é liderado por António Costa, ou seja, pelo Partido Socialista (PS)?
Fiquei positivamente surpreendido, obviamente. Quando tudo isto começou e vimos que o governo teria o apoio do BE e do PCP, todas as pessoas - e acho que também muitas pessoas no PS - tiveram essa dúvida. Penso que o ministro das Finanças deu imensa credibilidade porque não era um político de carreira, mas era um professor e um economista e um homem do Banco de Portugal, e isso também teve impacto em Bruxelas. Depois, quando ele é nomeado presidente do Eurogrupo, acho que veio confirmar que Portugal estava realmente comprometido com a Europa.


Um dos sucessos para a política que este governo desenvolveu teve muito que ver com a presença deste ministro das Finanças?
Acho que sim, este ministro das Finanças era obviamente um homem que trazia essa credibilidade técnica. A vantagem de Portugal, que tem conseguido sempre escolher na área das Finanças e da Economia pessoas que sabem realmente da poda, tem um impacto muito forte, porque à volta da mesa eles têm realmente a teoria económica que conhecem e que impressiona os colegas desde a primeira hora. Portanto, tudo isso tem ajudado - Vítor Gaspar era também um exemplo disso, assim como Maria Luís Albuquerque -, foi-se construindo essa imagem de que Portugal tem ministros das Finanças credíveis, e isso é bom.


Mesmo assim acha que se podia ter ido mais longe e que, se calhar, é preciso resgatar o PS dessa esquerda a que está agarrado?
Obviamente que como comissário não entro em detalhes sobre a política nacional nem em especulação.


Perguntado de outra maneira: um Bloco Central seria uma solução de governo melhor para aquilo que Portugal precisa de enfrentar?
Não entro por aí, exatamente porque penso que não é a minha função neste momento. Acho que é bom para Portugal o caminho que percorremos e agora as pessoas terão de decidir, primeiro nas eleições europeias, que devem ser sobre o debate europeu, e depois nas legislativas, e o povo decidirá como deve.

"Nunca se falou com as pessoas sobre o que é que a Europa faz. E a Europa tem dificuldade nessa comunicação porque foi treinada para fazer o contrário."

É verdade que a política nacional está muito embebida em questões europeias, mas não o entristece que as questões relacionadas com o futuro da Europa não estejam a ser discutidas em Portugal como deviam nesta campanha?
Isso acontece em quase todos os países. É normal. Agora não pode ser só nacional. Eu, obviamente, gostava de ver nos jornais, nas entrevistas, falar-se mais sobre aquilo que é o projeto da Europa, o que queremos para a Europa, o que cada partido quer para a Europa. Deixo um pedido a todos os candidatos para que falem mais da Europa, e para isso é preciso que todos ajudem, não pode só falar um e outro não, temos de trabalhar todos em conjunto.


Existe a tendência de poder vir a agravar-se esse fosso entre as duas discussões em função da evolução do próprio projeto europeu?
Esse risco há infelizmente, porque o projeto europeu foi-se afastando das pessoas. Os países de certa forma também quiseram esse afastamento. Gostavam de uma Europa em que estão a dizer as coisas que querem no país e culpam a Europa de tudo, isso é confortável, e politicamente foi muito utilizado. No fundo, nunca se transmitiu, nunca se falou com as pessoas sobre o que a Europa realmente faz. E a Europa tem dificuldade também nessa comunicação porque foi treinada exatamente para fazer o contrário. Os profissionais, os funcionários europeus foram treinados para falar de uma maneira diferente, acho que é pena. Nós tentámos isso, o presidente Juncker dizia que iria ser uma Comissão política exatamente por isso. Uma Comissão que fosse mais política também na linguagem para explicar às pessoas. É difícil dizer às pessoas que há três anos, se estivessem na Bélgica e quisessem ver um filme num canal português, não conseguiam porque estavam bloqueados, e que nós mudámos isso e que hoje na Europa podem ver séries e ler livros em qualquer ponto da Europa sem estarem bloqueados? Será que é difícil explicar às pessoas que as compras online de que tanto gostam, e que às vezes faziam noutro país e depois não recebiam a encomenda, que hoje isso está liberalizado e o podem fazer? É interessante ver que depois, em certos pontos, como foi o caso da diretiva dos direitos de autor, temos, de repente, uma vaga de comunicação vinda dos grandes gigantes americanos, que enviavam e-mails aos youtubers para eles dizerem mal da Europa e, depois, os nossos filhos chegavam a casa e diziam: "Então, ó pai, estão a acabar com a internet?" Nesse aspeto, temos de trabalhar muito nessa comunicação com as pessoas.


No que é que essa experiência europeia o podia ajudar no regresso à política portuguesa?
Pessoalmente, no regresso à minha vida. Espero voltar para Portugal e continuar a minha vida. Estive na política desde os 40 anos - já tenho 48 - e talvez seja agora o momento de começar uma nova fase que ainda não sei qual será, eventualmente fora da política durante algum tempo. Se a pergunta é o que vou fazer a seguir, não sei.

Mas não admite manter-se como comissário, imaginando que o atual primeiro-ministro, dando eventualmente uma pequena lição de democracia, o convidava para se manter?
Não sei. É uma coisa que teria de decidir e que dependeria do que é que era esse convite, para fazer o quê, em que área, e depende muito da escolha dele. Qualquer que seja a escolha do primeiro-ministro, e ele sabe isso, eu vou respeitá-la. Sei como essas escolhas são difíceis quando se está no papel dele. E qualquer coisa que eu possa dizer em relação a isso estou ou a condicionar ou a criar um caso e portanto não o vou fazer. Acho que foram cinco anos extraordinários e portanto vou planeando a minha volta a Portugal sem saber o que vou fazer no futuro.

"No PSD temos um líder que é um homem com grandes qualidades, um político diferente e que comunica de uma forma muito direta que lhe vem do coração."

Não resistimos a duas ou três coisas que têm que ver com o seu partido. O que seria, na sua opinião, um bom resultado para o PSD nas próximas eleições europeias?
Penso que um bom resultado para um partido é ganhar as eleições.

E se for uma vitória "poucochinho" como costuma dizer-se agora?
Esse termo nunca foi utilizado por ninguém no meu partido. Penso que a vitória seria realmente ganhar as eleições, isso era a vitória para o PSD, obviamente.


No caso do cargo de comissário, acha que esse seria um lugar para o qual o cabeça-de-lista do PS, Pedro Marques, está talhado?
Posso dizer o que penso que um comissário ou comissária devem ter como características. Devem ser pessoas que, pelo menos, falem com alguma fluência uma ou duas línguas sem contar com o português, porque a vida de todos os dias da Comissão é estar nos vários países, é falar com as pessoas, é também tomar decisões e, portanto, é preciso uma fluência linguística forte. Depois, é preciso conhecer os dossiês e o tema, e isso depende muito de qual vai ser a responsabilidade - aquilo que nós chamamos o portfólio - que essa pessoa terá e quais são as qualificações que tem para o fazer. A partir daí, a pessoa pode olhar para determinadas pessoas e tirar as suas conclusões, mas isso não sou eu que vou fazer.

Ainda é jovem e tem falado sempre em Bruxelas sobretudo da questão da pouca proximidade que existe entre os jovens e a política. É óbvio que podemos esperar de si uma participação política ativa a nível nacional, certo?
Sim, obviamente que continuarei sempre a ajudar o meu partido, primeiro porque sou real e convictamente um social-democrata e porque gosto de ajudar na política. Podem sempre contar comigo. Tenho, como costuma dizer-se, dado sempre o corpo ao manifesto. Tenho muito orgulho em ser agora o mandatário da lista do PSD às europeias, o que faço obviamente com muito cuidado em relação à minha função de comissário. Assim continuarei quando estiver em Portugal. Como não sei ainda o que vou fazer, terei um pouco mais de tempo, pelo menos não vou viajar tanto.


Tempo para preparar por exemplo uma futura liderança do seu partido?
Isso é uma pergunta que neste momento não pode fazer nenhum sentido, uma vez que estou fora dessas lides políticas e temos um líder que penso que é um homem com grandes qualidades, que é um político de certa forma diferente e que comunica de uma forma muito direta e de uma maneira que lhe vem do coração, com uma credibilidade que vem do trabalho que tem feito durante a sua vida, e que tem essas características de um líder: a honestidade, a credibilidade. Eu que o partido está unido à volta desse líder.

"António Costa é "a" voz dos socialistas europeus hoje. Isso é bom para os socialistas europeus e é nitidamente bom para ele."

Nesta semana falou-se de que António Costa podia ser candidato a presidente do Conselho Europeu. Como vê estes rumores do Financial Times?
Obviamente são rumores do Financial Times, mas como são rumores do Financial Times têm sempre aquele valor anglo-saxónico. O que vejo sobre isso? Vejo que o primeiro-ministro conseguiu tornar-se de certa forma, por mérito seu, daquilo que fez e da credibilidade que criou, o líder dos socialistas europeus. Portanto, vejo esse artigo como um elogio ao trabalho que ele tem feito em relação ao seu grupo político. António Costa é a voz dos socialistas europeus hoje. Isso é bom para os socialistas europeus e é nitidamente bom para ele. Agora, acho que isso não deixa de ser rumor nesta altura, obviamente. Eu, se estivesse na posição dele, via isso como um elogio ao papel que tem tido no socialismo da Europa, que, como sabe, está em grandes dificuldades. Estão a cair a pique e, em certos países, quase que já não existem. Portanto, obviamente que Portugal tem contado muito mais.


Se a abstenção nestas eleições for maior do que a que tem sido - tem-se situado nos 60%, o que é absolutamente enorme -, não fica um pouco posta em causa também a legitimidade das instituições europeias?
Fica, acho que sim, acho que as pessoas não votarem retira, de certa forma, essa legitimidade e dá voz aos populistas. Tem neste momento os populistas visíveis, os que são eleitos para tentar ir, no fundo, ser alimentados financeiramente para esse populismo, depois tem os invisíveis, que nem sequer são eleitos e que são radicais. Tudo isso é mau para a Europa, e não consigo perceber como é que as pessoas não se interessam, porque o que ouvi durante estes cinco anos é que tudo o que fazemos lá tem um efeito direto na vida das pessoas. Repare no regulamento da proteção de dados... Como é que as pessoas não se interessam? A culpa será nossa e não das pessoas. Eu não culpo as pessoas, mas o que é que nós podemos fazer para realmente as entusiasmar para estas eleições europeias? Porque há dois fenómenos, há uma parte que é estrutural aos países em que as pessoas dizem que já não se interessam pela política porque os políticos são todos iguais e, depois, há outra parte que para além disso ainda se interessa menos pelos políticos europeus, porque isso então é que acham que não interessa nada. Isto é chocante.


Esse espírito, essa falta da noção de pertença à Europa, como se pode combater?
Havia aquela frase que não era do Jean Monet mas que lhe foi atribuída que dizia que se tivesse de recomeçar recomeçaria pela cultura. Eu penso que essa identidade europeia tem de ser trabalhada e tem de ser desenvolvida. Nós temos de trabalhar mais com as pessoas sobre aquilo que a Europa realmente é, e dou um exemplo: nós devemos ter, desde o ensino primário, aulas obrigatórias do que é a Europa, do que é o funcionamento da Europa. Deparo-me com miúdos do ensino secundário em que a única maneira de lhes explicar o que é o Conselho, a Comissão e o Parlamento é explicar-lhes com um filme americano a diferença entre o Senado, a Câmara dos Representantes e a Casa Branca. Isto é chocante e mostra que nunca trabalhámos sobre o que é a identidade, sobre o que é ser europeu. Quando a pessoa vive fora da Europa, como eu vivi durante anos nos Estados Unidos, percebe melhor o que é ser europeu quando vive fora da Europa. E o que é essa proximidade? Tem muito que ver com a nossa identidade. O ponto sobre o clima, sobre as mudanças climáticas por exemplo: há pouco tempo a OCDE fez um relatório muito interessante que dizia que 90% dos europeus consideram as mudanças climáticas como algo muito sério e preocupante. Eu acho que não há nenhuma parte do mundo em que isto aconteça, e isso faz parte da nossa identidade, assim como a intolerância que temos à desigualdade; faz parte da nossa identidade aquilo que nós sentimos na diferença entre o individualismo e o coletivismo, somos muito mais preocupados, somos menos individualistas na Europa. Tudo isso é a nossa identidade, mas nunca explorámos isso, nunca trabalhámos isso.


Às vezes até deixamos que se agrave, quando acontece aquilo que acontece no Mediterrâneo e depois muitos desses valores são postos em causa...
É verdade. Acho que no caso dos refugiados o drama foi esse. Penso que o facto de não termos trabalhado a identidade faz que quando sentimos uma fragilidade na nossa própria identidade - há um sociólogo que reflete isto muito bem, o Jonathan Sacks -, fragilizamos e temos mais medo do outro, ou seja, se tivermos uma identidade forte, não temos medo do outro. Por exemplo, eu acho que os portugueses têm uma identidade forte, nós não somos um povo com medo do outro, não temos essa situação. Temos medo do futuro, temos outros medos, mas não temos medo do outro, do estrangeiro, como eu vejo em muitos outros países. Acho que Portugal nisso é muito melhor e é um grande exemplo.

"A Europa, no Brexit, foi um fenómeno interessante. De um dia para o outro, os 27 estavam totalmente unidos naquilo que queriam. Esta aliança de interesses que temos em relação a um mercado único, é uma aliança muito forte."

Quais são as suas previsões para o Brexit, o que vai acontecer e como é que isso vai impactar a Europa?
As previsões são sempre más, tudo será um desastre, tudo isto é um desastre. É mau para nós, é mau para eles, é mau para a Europa, é mau para o mundo e, ainda por cima, não sabemos quando é que vai acabar. Ou seja, nós demos esta extensão até 31 de outubro e não sabemos o que é que vai acontecer. Se me perguntar se vai mesmo acabar em 31 de outubro, digo-lhe que não sei, não sei. Agora, nós abrimos os braços, demos tudo o que era necessário. A Europa aí foi um fenómeno interessante, de um dia para o outro, os 27 estavam totalmente unidos naquilo que queriam. Quando se deu o Brexit, toda a gente à volta da mesa disse: ah, este é o acordo que nós queremos para a saída, e o Orbán e na Polónia estavam de acordo com Macron e com Merkel. Portanto, esta aliança de interesses que nós temos em relação a um mercado único, em relação a não termos fronteiras para podermos vender os nossos produtos, é uma aliança muito forte.


Outra zona de preocupação comum é a questão das plataformas digitais, perante as quais só mesmo a UE poderá ter alguma ação reguladora. Acha que Vestager na Comissão seria sinónimo de força, finalmente, para pôr a Google e o Facebook na linha?
Eu gosto muito de Vestager e acho que além de ser uma grande política é uma grande mulher e representa para mim aquilo que a Europa tem de melhor. As pessoas não sabem muito bem o que faz a Europa, mas há coisas que sabem, que são aquelas que são muito claras. As pessoas sabem que foi ela quem fez estas multas à Google, à Apple. Lá está, se nós clarificássemos como clarificamos na concorrência aquilo que é a Europa a fazer e aquilo que são os países a fazer, era um mundo de diferença. Ela tem tido essa coragem de enfrentar estes gigantes das tecnologias e, de certa forma, lhes dizer que na Europa as regras são nossas e que as regras são baseadas na dignidade humana, são baseadas na concorrência justa, e tudo isso tem sido importante para a Europa e tem-nos diferenciado.

Na questão do 5G estamos um bocado ao contrário, ou seja, ninguém sabe muito bem qual vai ser a posição, se nos vamos juntar aos nossos aliados naturais, os Estados Unidos, se vamos ceder à China, se nos vamos manter equidistantes...
Eu aí tenho muita pena e espero que ainda consigamos dar a volta, porque a Europa foi líder naquilo que foi a construção da infraestrutura da internet, mas no caso dos telefones, a Europa foi líder naquilo a que nós chamamos o GSM, que era no fundo 2G, e porque é que a Europa foi líder? Foi líder porque soube regular imediatamente, soube escolher a tecnologia e fomos para a frente. Agora nos 5G não estamos a conseguir dar essa volta. Fizeram-se muitas asneiras desde o 2G até ao 5G, e essas asneiras estão a custar-nos muito caro. Houve também muito lobbying das empresas. O que acho que temos de fazer? Temos de investir mais na tecnologia e temos de conseguir ser nós os campeões daquilo que vai ser o standard, daquilo que todos vão utilizar. Eu gostaria muito de ver as empresas europeias, que são muito boas nessa área, a conseguir ultrapassar as empresas chinesas e americanas.

*Entrevista editada com Jorge Félix Cardoso, especialista em assuntos europeus

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Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.