Que partido quer ser o PSD?

A política está mais rápida, como todas as coisas do mundo. Mas nove meses serão suficientes para um partido mandar um líder abaixo, eleger outro e dá-lo a conhecer? O PSD está convencido de que sim. Ou, melhor, uma parte do aparelho do PSD parece estar convencida de que sim. As sondagens ajudam ao raciocínio - com um PSD em queda, um PS longe da maioria absoluta e um CDS a galgar o lugar do BE. Em relação ao timing, há outros raciocínios possíveis, uns mais benévolos do que outros. As verdade é que as listas para as legislativas estão mesmo à porta - e aqui sempre se joga a força e o poder dentro de um partido, como bem provou a relação de Rui Rio com a sua própria bancada nos últimos meses.

Recebendo um grupo parlamentar que sabia ser-lhe hostil, o líder Rui Rio não o conquistou. Não havia propriamente razões para não acontecer - mesmo os partidos quezilentos como o PSD têm tendência a aglutinar-se à volta dos líderes. Rio não soube fazê-lo? Não quis? Pouco importa. O resultado está à vista.

O indisfarçável desconforto da bancada para com o líder - e vice versa - extremou-se em luta pelo poder de que este episódio agora é o efeito. As listas são demasiado importantes para os equilíbrios internos, para o futuro dos que têm ambição e ainda mais, é preciso dizê-lo, para os que fazem da política a sua ocupação.

Esta é a análise à lupa do timing. A análise telescópica é mais interessante e parte da resposta à pergunta: que partido quer o PSD ser?

O avanço de Montenegro apareceu como uma espécie de resposta à frase de Manuela Ferreira Leite - aos microfones da TSF - de que preferia o PSD a perder eleições a ser considerado um partido "de direita". O impulso de Montenegro demonstra que há uma parte importante do PSD convicta de que o partido deve chegar-se a este lado.

Parte disto é instrumental. Os anos do PSD-troikae o posterior "sucesso" da geringonça - cujos resultados práticos muitos contestam, mas a perceção pública é essa - tornou mais dual o espaço político. Direita, esquerda, sem votos úteis.

Por outro lado, o centro tornou-se agora mais o espaço do PS, e também porque conseguiu controlar a esquerda. E isso não deu o espaço que Rio queria para fazer depender dele a evolução do Portugal pós-crise - no que seria sempre uma jogada arriscada, ainda mais para um líder pouco hábil comunicacionalmente.

Nos tempos de extremos que se vivem no mundo, o PSD tem um problema de definição e de que Rio também sofre. Não é popular como indicava a sigla PPD, não é suficientemente social-democrata como está na atual. Vive entre o centro e a direita.

Nenhum socialista se coíbe hoje de defender o valor do Estado, porque não tem quem, do seu lado, lhe morda as canelas. Outro dos desafios políticos do PSD é este - ter quem lhe morde as canelas, e marcar a diferença em relação aos que começam a desafiá-lo pela direita.

Santana Lopes vocalizou nesta semana uma grande aliança contra a "frente de esquerda" de centro-direita. Rui Rio defendia que, nesta expressão a tónica devia estar na primeira metade. O novo PSD será ao contrário?

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