São rosas

Num mundo ideal ninguém tinha de limpar casas de banho, aspirar o pó, lavar a roupa, nem suas nem dos outros. Mas o mundo não é o mundo ideal e por isso alguém tem de limpar casas de banho, aspirar o pó, lavar a roupa, que não se limpam sozinhos. No melhor dos mundos não ideais ninguém teria de tratar apenas disso, só limpar casas de banho, só aspirar o pó, só lavar a roupa. Mas este mundo também não existe plenamente, e ainda há muita gente cuja principal ocupação é esta, e muita gente é figura de estilo, porque esta muita gente são sobretudo mulheres, pobres e de outras raças. Mulheres que se dedicam a tarefas domésticas num contexto familiar ou profissional, as donas de casa e as mulheres a dias usando terminologia de outro tempo.

Mas esta é a realidade, e é uma realidade desconfortável. Claro que podemos sempre racionalizar, dizendo, pensando, que é melhor alguém ter emprego do que não ter, fazer isto do que não fazer nada, que há coisas bem piores de se fazer, podemos sempre dizer tudo, pensar tudo, mas é difícil não sentir o desconforto de normalizar a vida de quem faz vida fazendo precisamente o que nós não queremos fazer da vida. E como não há engenheiras de manhã, que dão umas horas à tarde numa senhora por acaso muito simpática, são estados que acabam por se perpetuar, sem a mobilidade social que os tornaria mais suportáveis por todos.

Partindo desta realidade que não se muda de um dia para o outro, o que é mais ou menos livre, aquilo que depende de nós, é o modo como lidamos com ela. Excluindo os exemplos que nos chegam sobretudo de outras paragens (empregadas filipinas escravizadas e vítimas de abusos na Arábia Saudita, empregadas internas no Brasil com salários de miséria), aquilo que há são dois modos de lidar com a situação, dois tipos de patrão, dois tipos de pessoas. Uns, que encaram o trabalho doméstico como algo fungível, como robôs substituíveis, sem criar apego nem construir relação. Muitas vezes queixam-se do dinheiro, queixam-se do serviço que recebem, do difícil que é contratar, e mudam compulsivamente de apoio doméstico, mas no fundo no fundo penso que está lá o desconforto universal de ter de assumir que se paga alguém para fazermos o que não queremos (o que toma uma dimensão ainda mais complexa quando o que acabamos por não querer fazer é tomar conta dos nossos filhos, exponenciando o desconforto). E há outro modelo, em que as barreiras caem e há uma relação, uma tentativa de compreensão do outro, uma humanização. São porventura dois modos opostos de lidar com a mesma angústia, mas este último é mais humanizado, ou mais cristão, do que o outro.

É disto que fala Robert Putnam com o conceito de bridging social capital, um capital social que faz pontes entre duas esferas que de outro modo mais dificilmente ou nunca se tocariam, esferas raciais diferentes, meios educacionais ou socioeconómicos diferentes, classes, regiões, religiões. Mas admitir que há pontes é admitir que há margens diferentes, e ninguém gosta que haja, mas havendo é usar a ponte e não preferir ficar numa das margens a ver a outra. E isto não é fazer a apologia gratuita do pobre ou da negra, mas aceitar a evidência de que o contacto humanizado é melhor do que o não contacto, ou o contacto robotizado, asséptico.

E foi esse desconforto, com as duas margens, que levou ao de outro modo incompreensível chorrilho de reações contra a já famosa foto publicada por Judite Sousa com a senhora lá de casa, que agora sabemos chamar-se Rosa. Uma indignação tem origem neste desconforto, ampliado pelos tempos em que alguns julgam viver de indignação como reação-base. Muitas vezes os mesmos que nunca levaram as senhoras das casas deles para um lançamento de livro nenhum, que nunca as incluiriam numa fotografia de família com a mãe e a irmã, desde logo porque isso nem lhes passou pela cabeça. Antes de arvorarem o seu desconforto numa pseudodefesa das senhoras lá de casa, talvez pudessem pensar nas senhoras de cada casa, da deles e das outras, e de que o problema não está na expressão escolhida por Judite Sousa para legendar uma fotografia que eles nunca tirariam, ou publicariam. Antes de enviarem aquele tweet jocoso, contra a apresentadora e a senhora lá de casa, enquanto veem o Roma de Alberto Cuarón na Netflix, numa sala bem aspirada por uma senhora lá de casa, e se compadecem fugazmente com a humanidade de Cleo, seria melhor pensar duas vezes e guardar a energia indignativa para combates que existem e valem mesmo a pena.

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