Numa velha casa vivem dez mil brinquedos. Estão em risco e procuram um museu

Hélder Martins começou a juntar brinquedos há mais de 40 anos. Dos carros dos bombeiros dos anos 20 a triciclos do século XIX, a coleção foi ganhando qualidade mas também volume. Muito volume. Tanto que o espólio corre agora risco de deterioração rápida devido às más condições em que está armazenado.

A porta de casa abre-se e a primeira imagem impressiona. Caixas e mais caixas de papelão amontoam-se do chão ao teto. Dentro delas estão brinquedos. "Cerca de dez mil", estima o colecionador Hélder Martins. Brinquedos de todo o mundo. Uns bastante valiosos, que tiveram de "ser pagos a prestações", outros nem por isso. Carros, robôs, bonecas, puzzles, triciclos do século XIX. De madeira, de plástico, de pasta de papel, de arame, de folha metálica. A lista de géneros e tipo de material é enorme.

Há um pouco de tudo nesta antiga casa de família, no concelho do Barreiro. O que falta é espaço, segurança e boas condições de armazenamento. A coleção de Hélder Martins, formada ao longo de mais de 40 anos, tomou uma proporção descontrolada. Todas as seis divisões da velha casa, cujos registos de construção "remontam a 1798", estão ocupadas por brinquedos, assim como os armários da cozinha, os roupeiros e até um frigorífico.

"Sou honesto. Sei que a quantidade de brinquedos que tenho é exagerada e indisciplinada. Reconheço que tenho peças que não têm qualquer valor, pelo menos nos dias de hoje, pois no futuro essa realidade pode mudar. No caso de se fazer um museu, claro que teria de ser feita uma seleção mais criteriosa", sublinha Hélder Martins, militar de 60 anos, formado na área da saúde.

A paixão pelo colecionismo nasceu cedo. Começou, ainda adolescente, por juntar selos, cromos, moedas antigas e postais. Aos 16 anos, uma viagem a França desviou-lhe a atenção para os brinquedos. "Fui a uma feira e vi o brinquedo português ser alvo de muita atenção. Isso impressionou-me e quando cheguei a Portugal comecei logo a juntar os meus e a ficar com outros que eram de familiares, mas ainda sem qualquer critério. Fui criando volume. Depois veio outro tipo de interesse, que passava não só por guardar as peças mas também por as estudar e divulgar por entender que o brinquedo é um património, que nos acompanha socialmente, culturalmente e politicamente", recorda ao DN.

Esse interesse levou-o a procurar formação académica na área da Antropologia. Enquanto nos guia pela casa sobrelotada, onde é difícil encontrar espaço para caminhar por entre as caixas, vai pegando em algumas das peças para as descrever com todo o pormenor, falando sobre a sua origem, o fabricante, o material de que é feita ou a forma como as conseguiu.

"Uma espécie de embaixador"

É através de visitas a feiras e de pesquisas em livros especializados e sites, que Hélder Martins foi aumentando e dando a conhecer a coleção. Com o passar dos anos começou a exibir algum do seu espólio um pouco por todo o país e também no estrangeiro, tendo já participado em eventos em países como Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, Colômbia, Brasil ou Alemanha só para citar alguns exemplos. "É engraçado, porque através dos brinquedos acabo muitas vezes por ser uma espécie de embaixador do país, principalmente quando emigrantes portugueses visitam as exposições e têm ali contacto com as memórias que guardam do país, muitas delas ligadas à sua infância", diz.

O reconhecimento da qualidade da coleção e do cuidado que lhe dedica faz que muitas vezes receba em casa ofertas de brinquedos que ali encontram uma espécie de santuário capaz de evitar a sua destruição ou esquecimento. Num dos quartos da casa, já desgastada e demasiado exposta a infiltrações nas paredes, Hélder Martins pega numa pequena cadeira de madeira e na carta que escreveu quem lha enviou. "Feito pelo pai Joaquim Leitão em 1947. Ofereço com muita estima", pode ler-se na missiva escrita à mão. "São mensagens como estas que me fazem sentir depositário de pequenos grãos da história daqueles brinquedos mas também das memórias de quem mos enviou", diz ao DN.

A paixão pelos brinquedos de folha

A rede de contactos que conseguiu criar, impulsionada também pela participação em missões médico-sanitárias em países árabes e africanos, permitiu-lhe dar dimensão internacional à coleção que possui, sendo que parte desse espólio está em exibição até dia 10 de fevereiro, em Estremoz, no Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte.

Ainda assim, apesar de tanta variedade não hesita em nomear os seus brinquedos preferidos: "Sou mais apaixonado pelos brinquedos de folha-de-flandres (metálica), aqueles que têm raízes na minha terra." Hélder Martins refere-se ao Montijo. Sendo natural do Pinhal Novo, foi no concelho vizinho que cresceu e viveu a maior parte da sua vida, sendo essa a terra a que chama sua. O Montijo, através da indústria de processamento de carne de porco, teve influência na continuidade da produção do brinquedo de folha no pós-Segunda Guerra Mundial. Em Portugal, esses brinquedos eram feitos principalmente a norte, no triângulo Valongo, Alfena, Ermesinde.

Após a guerra, faltava matéria-prima. Face ao risco de encerramento das fábricas, estas acabaram por encontrar uma solução no Montijo, pois a textura mais maleável da folha-de-flandres usada na indústria deste concelho, para o enlatamento de produtos como salsichas ou fiambre, era mais adequada a esse tipo de trabalho do que, por exemplo, a folha usada para as conservas de peixe no norte do país. O Barreiro, através da CUF, também teve um papel importante na manutenção destes brinquedos.

É, assim, por razões sentimentais e por o Montijo fazer parte da história do brinquedo português que Hélder Martins gostava de ver abrir nesta cidade um museu que colocasse "ao serviço da comunidade" a sua coleção. Uma ambição que ainda não conseguiu concretizar.

"Creio que os nossos autarcas não despertaram ainda para o valor patrimonial do brinquedo"

"Há duas dezenas de anos que ando a bater à porta do Montijo com esta ideia do museu, enquanto outros lados vêm ao meu encontro para tentar concretizar esta ideia. E que respostas recebo? Vamos estudar, vamos pensar... Creio que os nossos autarcas não despertaram ainda para o valor patrimonial do brinquedo. Um museu destes no Montijo, projeto que curiosamente até fazia parte do programa eleitoral dos principais partidos que concorreram nas últimas autárquicas, tinha um potencial enorme para o turismo, pois fala para todo o tipo de público, do infantil ao sénior", frisa Hélder Martins, que além da casa no concelho do Barreiro (cuja localização mais precisa pede para não ser divulgada por razões de segurança), tem brinquedos arrumados num contentor, num armazém, no escritório onde trabalha, numa garagem e na sua própria habitação.

Museu numa antiga esquadra da PSP?

Contactado pelo DN, Nuno Canta, presidente da Câmara Municipal do Montijo, garante que o município está interessado no projeto, mas a solução que preconiza só poderá estar disponível dentro de "um a dois anos". "Queremos que essa estrutura fique no Montijo, porque faz todo o sentido que assim seja, pelas ligações históricas do brinquedo ao concelho e pela relação afetiva do colecionador com a cidade. Queremos ter o museu, porque engrandeceria o Montijo. O problema é termos um edifício disponível imediatamente, com a dignidade que merece esse museu. Temos algumas ideias que até já foram comunicadas ao colecionador. Mas é preciso vagar alguns espaços onde atualmente funcionam outros serviços públicos", afirma o autarca socialista, antes de identificar o local em questão: a atual esquadra da PSP, junto ao cineteatro Joaquim de Almeida, numa zona central da cidade.

"Queremos ter o museu, porque engrandeceria o Montijo", diz o autarca socialista Nuno Canta

"Existem já contactos com o Ministério da Administração Interna para se avançar para a construção de uma nova esquadra para a PSP e isso já está acordado. Tenho a convicção de que esse processo será acelerado por outro que estamos a tratar: o novo aeroporto no Montijo. Um projeto dessa envergadura irá exigir que muitas infraestruturas públicas tenham imediatamente de ser renovadas e amplificadas. Dentro desse movimento, está previsto que a esquadra da PSP tenha de ter maior dimensão, o que fará que o atual edifício fique disponível. Um a dois anos é o que temos previsto para resolver essas questões", acrescenta Nuno Canta, admitindo que conhece os riscos por que passa a coleção de Hélder Martins, devido às más condições de armazenamento, e afirmando que a câmara está disponível para ajudar nesse aspeto, enquanto não se encontrar uma solução definitiva.

Um a dois anos é, no entanto, um prazo que não deixa o colecionador montijense tranquilo. "Já ultrapassei a fronteira. Entrei numa fase de descontrolo e já recuso receber mais coisas", diz Hélder Martins, revelando que também tem em mãos propostas de outras autarquias, como a do Barreiro, a de Palmela e a da Moita.

Até lá, os dez mil brinquedos continuam à procura de uma nova casa, guardados em caixas de papelão e vigiados por uma gata chamada Pedrógão, resgatada por Hélder Martins daquela zona do país após os incêndios de 2017. "É ela que me ajuda a afastar os ratos dos brinquedos. Já passei todos os limites e tenho mesmo de encontrar uma solução, porque sinto que esta coleção está em risco", conclui.

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