É tudo uma questão de tempo

Se há coisa que o progresso nos tem trazido é o encurtamento do tempo. As novas tecnologias permitem resolver problemas ou tarefas ou contratos num tempo veloz, inimaginável há umas décadas, assim como antecipam as nossas necessidades, criando outras, para de imediato as satisfazer com propriedade. Estamos a habituar-nos, a viciar-nos, na rapidez, na velocidade. Queremos chegar mais depressa, sem perder tempo. Talvez tenha sido sempre assim, com a diferença de que agora, com as novas possibilidades, é mesmo possível comprimir o tempo, fazer forward, saltar etapas, chegar mais depressa.

Há, por isso, nesta vertigem, neste nervo, uma aversão à espera, à demora. Os tempos braudelianos estão a comprimir-se, a convergir para o nanoprazo, o único que parece admissível, aceitável, o único apropriado aos nossos tempos, à modernidade, à globalização e à internet.

E esta impaciência, que é um sinal distintivo deste tempo, tem implicações políticas, tem consequências.

Ela como que nos empurra para o imediatismo, para a prontidão. Queremos soluções agora, queremos respostas já, queremos medidas para ontem. As redes sociais espelham bem esta voracidade, com as suas prontas indignações.

Esta impaciência lida mal com o tempo da democracia. É que a democracia liberal precisa de tempo, de procedimentos, de acordos, de debate. Tudo isso pode fazer-se de forma mais transparente e com mais rapidez, é certo - mas nunca com o imediatismo e urgência que agora se exige.

Tudo isso pode ser frustrante num tempo em que se pode decidir online, vetar online, julgar online, tudo agora e já. A democracia liberal arrisca-se, neste tempo veloz, a parecer uma encenação, como escreveu David Runciman: um biombo, uma perda de tempo - terreno fértil para os populistas.

Não é de estranhar que os partidos, e não só os supostos populistas, se prontifiquem a simplificar tudo, a apresentar medidas para tudo, a anunciar mudanças de paradigma a torto e a direito, sempre com a promessa de que tudo está a ser feito e vai ser resolvido. Não vai, porque nem tudo é simples de resolver.

E nem a afirmação da complexidade dos problemas, que é real, pode ser suficiente para tornar tolerável esse tempo mais lento. Como antecipa Yuval Harari: se as novas tecnologias permitem soluções mais rápidas para problemas complexos, por que razão teremos de persistir nesse tempo lento?

Para mim, defensor acérrimo da democracia liberal, este é um dos maiores desafios políticos da atualidade, de onde derivam vários outros: como responder, no quadro da democracia liberal e perante a complexidade do real, a uma exigência de rapidez, a uma voracidade pela urgência?

É tudo uma questão de tempo.

Advogado e vice-presidente do CDS

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