Premium Uma certa ideia do passado

Quase todos guardamos algumas ideias românticas sobre os lugares que habitámos, bairros, aldeias, cidades ou países. Recordamo-nos de amigos que deixámos de ver, namorados ou namoradas, noites de excesso, disparates vários, epifanias e alguns segredos guardados. Lembramo-nos de sermos nós sendo outros, mais ingénuos talvez, temerários, sem os medos, as feridas e as cautelas que entretanto acumulámos. As nossas vidas são palimpsestos, histórias que se raspam do pergaminho para que outras se possam ir escrevendo.

Sempre que regresso à Figueira da Foz da minha infância e juventude dou por mim à procura do passado num presente cada vez mais estranho - lojas que abrem e fecham, ruas que mudaram de sentido, árvores abatidas, praias que o mar levou. Os rostos também se vão alterando, ganhando rugas e perdendo cabelo, as maquilhagens confundindo as feições, os óculos disfarçando os olhares. Só as vozes e os sorrisos me apaziguam a memória, a geografia mudou, mas mantêm-se os caminhos.

Um dia, quando abandonar o bairro atrás de outra narrativa, vou sentir o mesmo quando aqui voltar, ao bairro, aos vizinhos e a estas crónicas. A mesma estranheza, a mesma busca, a desconfiança benévola de uma certa ideia do passado.

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