Premium Ricciardis, Richelieus e Top Boys

O exercício do poder continua a ser um tema vexante na prática, mas na teoria está resolvido desde o século XVI, quando Maquiavel deixou tudo explicado numa frase: a mais segura fortaleza do Príncipe é garantir que o povo não o odeia. Uma lição insuficientemente absorvida pelos concorrentes do Love on Top (TVI), cuja sétima edição estreou-se nesta semana.

Todos os anos, doze pessoas chegam às areias históricas do Guincho para ganhar o jogo duplo do amor e do poder. As concorrentes femininas falam sobre passatempos e personalidades: Jéssica gosta de "sair com amigos e passear na praia"; Susana, por outro lado, prefere "ir à praia e passear com amigos". Os concorrentes masculinos optam por falar das suas raízes e predilecções. João vem da Bélgica e gosta de raparigas "com tatuagens e com bons valores". Sandro vem de Cascais, joga futebol no Abóboda e é relações-públicas no Docks. Ricardo vem de Penamacor e garante só ter três vícios: fazer musculação, lavar os dentes e falar com mulheres. "Quantas vezes lavas os dentes por dia?", pergunta a apresentadora. "Cinco, seis, às vezes sete!", esclarece Ricardo. Apesar deste sortido de origens, hábitos e ambições, todos partilham o mesmo corte de cabelo - a crista de uma catatua emergindo lentamente de um derrame de petróleo - e a mesma disrupção de expectativas sobre pêlos faciais: cada bigode quer ser uma sobrancelha, cada sobrancelha quer ser uma pestana, cada pestana quer fingir que não existe. O conceito de camisa parece ser um profundo mistério.

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Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

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Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.