O príncipe que queria ser vice - e logo de quem!

Durante algumas horas, no sábado da semana passada, o Brasil correu o risco de, quem sabe, ter como vice-presidente da República um legítimo Orleans e Bragança, herdeiro da Família Imperial brasileira deposta em 15 de novembro de 1889. Isso aconteceu quando um dos candidatos nas próximas eleições presidenciais, em outubro, Jair Bolsonaro, viu-se tentado a escolher o príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança como seu companheiro de chapa.

É claro que aquela era só uma remota possibilidade. Para o príncipe tornar-se vice-presidente, Bolsonaro teria de ser eleito. E é verdade que, com Lula preso e condenado por corrupção, donde inelegível, Bolsonaro vem despontando como favorito nas pesquisas. Mas suas chances de vencer são mínimas. Seu tempo de propaganda na televisão é quase zero. Não tem apoios estabelecidos no enorme interior do país e, como a campanha ainda não começou, ele está apenas provisoriamente a salvo do chumbo grosso dos adversários quanto ao seu despreparo para o cargo. No dia seguinte, domingo, Bolsonaro dispensou de vez o príncipe e escolheu como vice um general da reserva, tão hidrófobo e fã de torturadores quanto ele, e que não lhe acrescentará nem um voto nas urnas. Teria feito melhor se ficasse com o príncipe.

A simples ideia de ter um Orleans e Bragança entronizado no Palácio do Jaburu - residência oficial do vice-presidente em Brasília - era estapafúrdia. Significaria que, depois de 129 anos de república, a Família Imperial brasileira estaria reconhecendo a legitimidade do golpe militar que depôs o imperador D. Pedro II, confiscou propriedades da família e enfiou-a no dia seguinte num navio para o exílio em Paris, quase sem lhe dar tempo de fazer as malas. Exílio este que se prolongou por mais de 50 anos, no caso dos parentes de Luiz Philippe. Sim, porque, queira ou não, ele é trineto da princesa Isabel, tetraneto de D. Pedro II, pentaneto de D. Pedro I (D. Pedro IV de Portugal) e hexaneto do príncipe D. João, depois rei D. João VI de Brasil e Portugal.

Durante esse mais de século, os Braganças, de modo geral, têm sido impecáveis. Os domínios que lhes restaram dividem-se entre as cidades de Petrópolis e Vassouras, ambas no estado do Rio. O pessoal de Petrópolis é sóbrio, elegante, liberal, apolítico e muito simpático. Em fins da década de 1970, entrevistei o então titular da família, D. Pedro Gastão, para uma revista. Perguntei-lhe se, aos 67 anos, estava preparado para, um dia, assumir o trono do Brasil, caso a monarquia voltasse. Ele deu a sua irresistível risada de "Hô-hô-hô!!!" e, completou, com forte sotaque francês: "Imagine! Eu não posso seRRR nem pRRRefeito de PetRRRópolis!"

Já seus primos de Vassouras, e não é de hoje, parecem viver a arrotar postas de pescada. Um deles, D. Luiz Gastão, é o atual chefe da Casa Imperial do Brasil. Luiz Philippe é seu sobrinho. O ex-futuro vice de Bolsonaro tem 49 anos, é formado em Administração de Empresas, participa de grupos políticos de direita e é autor de um livro, Por Que o Brasil É Um País Atrasado?. A vice-presidência lhe escapou, mas ele tem planos de se candidatar a deputado federal por algum partido. Isso significa que acredita na República e em suas instituições, e quer participar dela.

Bem, há gosto para tudo. Mas mais triste ainda seria ver, como reles vice, um descendente de D. Pedro II recebendo ordens de um presidente que prometeu armar a população, ofende gays, negros e mulheres, afirma que o Brasil nunca teve uma ditadura militar e dá aulas de boçalidade, como Bolsonaro.

Ah, sim, por que Bolsonaro desistiu dele? Porque, segundo o colunista de O Globo Ancelmo Gois, o príncipe se atrasou por duas horas para o encontro de domingo último, em que Bolsonaro o anunciaria como seu vice. Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, não sabia que os relógios dos Habsburgos andam a uma velocidade diferente da nossa.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Bilac Vê Estrelas (Tinta da China).

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