Premium O parente pobre

Foi pouco valorizado, mas não deixou de ser caricato assistir à cimeira dedicada aos Balcãs que teve lugar em Londres em meados de julho. De um lado, o anfitrião, o Reino Unido, em acelerado passo para uma saída caótica da União Europeia, ainda por cima com o ministro dos Negócios Estrangeiros demissionário na véspera. Do outro, um grupo de seis Estados em diferentes níveis de diálogo com Bruxelas para aderirem à UE. Não só foi caricato como mostrou a constrangedora situação em que mergulhou a política britânica, sem um pingo de autoridade geopolítica ou um rasgo de salvação estratégica. Mas não é de Londres que vos quero falar. É, isso sim, dos Balcãs, o parente pobre da Europa e a região mais importante ao sucesso do modelo de integração nas próximas duas décadas.

Se esta tem sido uma região pouco valorizada nas iniciativas políticas europeias dos últimos anos, é preciso não esquecer que os Balcãs ocidentais foram palco da única intervenção humanitária ocidental em território europeu no pós-Guerra. NATO e UE têm, por isso, uma responsabilidade singular sobre o futuro desses países. Além disso, será igualmente nos Balcãs que se medirão os méritos tradicionalmente associados ao alargamento destas grandes organizações ocidentais. Há duas razões para tal. Primeiro, deixa de se poder vender o alargamento como o garante da democratização dos Estados europeus, isto é, a pacificação das suas instituições internas e o respeito por uma grelha constitucional normalizada dentro dos padrões comunitários. E se houve projeto de sucesso progressivo na Europa depois de 1945, foi o alargamento das suas principais organizações de reorganização securitária e política. Segundo, o falhanço do alargamento aos Balcãs significa mimetizar o que tem acontecido na relação com a Turquia, o que na prática resultou numa deterioração da qualidade da democracia turca, no crescimento do seu nacionalismo e na diminuição do alcance geopolítico da UE.

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Ferreira Fernandes

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

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Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.

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Viriato Soromenho Marques

A política do pensamento mágico

Ao fim de dois anos e meio, o processo do Brexit continua o seu rumo dramático, de difícil classificação. Até aqui, analisando as declarações dos principais atores de Westminster, o Brexit apresenta mais as tonalidades de uma farsa. Contudo, depois do chumbo nos Comuns do Plano May, ficou nítido que o governo e o Parlamento britânicos não só não sabem para onde querem ir como parece não fazerem a mínima ideia de onde querem partir. Ao ler na imprensa britânica as palavras de quem é suposto tomar decisões esclarecidas, quase se fica ruborizado pelo profundo desconhecimento da estrutura e pelo modo de funcionamento da UE que os engenheiros da saída revelam. Com tamanha irresponsabilidade, não é impossível que a farsa desemboque numa tragicomédia, causando danos a toda a gente na Europa e pondo a própria integridade do Reino Unido em risco.