O começo de um partido

O começo de um livro é precioso, escreveu Maria Gabriela Llansol, num livro que há muito escolhi guardar em mim. Comprei-o num dia inicial, que eu queria limpo como no "Recado" de Al Berto; em que me apetecia transformar esse início num objeto, como se fosse possível encapsular a expectativa em algo físico, apropriável. Tenho-o comigo desde então, porque me tem valido de muito, até de inspiração, até de discurso - que o citei num congresso do CDS há uns anos -, mas sobretudo de advertência, instrução.

Há no começo uma sensação, um arrepio; não é um termo neutro, é uma palavra fulgurante, física, hormonal, porque dela dá conta o corpo: não duvido de que haja gente viciada em começos, que precise deles como quem precisa de uma droga, de um calmante, e não há vício que desaconselhe uma advertência.

Haverá com certeza melhor definição de começo do que expectativa, mas é assim que me ocorrem os começos, as possibilidades de qualquer coisa, folhas em branco, um regresso à casa da partida sem passar pela prisão, como no monopólio: um bónus, um prémio - uma sorte, a de deixar para trás o que não interessa, os erros, as falhas. Essa expectativa, que em mim se confunde com a noção de começo, não existe sem o passado que ansiamos superar, melhorar.

O começo de um partido deve ser assim, imagino, a possibilidade de tudo o que desejamos, sem vícios, sem mácula, sem os erros que vemos nos outros, que cometemos nos outros, quase como se nós próprios fôssemos outros. Como se os erros e os vícios e a mácula não tivessem vindo também de nós; como se, renascidos, tivéssemos a capacidade, o poder de juntar apenas as virtudes.

E não deve ser complicado reunir quem queira começar connosco, pela expectativa, pela vertigem, mas sobretudo porque há tanta gente a fugir do mesmo, a criticar o mesmo, a desviar-se do mesmo - e esse mesmo, de que eu faço parte, tem do que se fugir, eu sei.

Mas é breve o começo de um livro, escreve a Maria Gabriela. Há nesta advertência a confirmação de um continuum, de um entrelaçamento, de que não há apenas um ponto de partida, de que a seguir ao começo vem um caminho. E esse caminho não vive do passado, exige compromissos de percurso.

Ora, o percurso é feito da confrontação com o real, terreno dilemático, já não de ilusão e pureza, onde começam as divergências - ruidosas quando as expectativas iniciais se mostram distintas no concreto, senão mesmo divergentes: "Não foi para isto que, afinal estes são iguais aos, nós tínhamos acordado que..." Não é que as divergências se ausentem dos partidos antigos, mas há na história, nos desafios vividos, suporte bastante para as acomodar, gerir, para oferecer uma aprendizagem do real, não necessariamente cínica.

E há depois a urgência do começo, a vontade de espalhar, de chegar longe, que apressa a escolha da companhia e de quem financie, terreno propício a equívocos, desilusões, dissensões: "Com ele não, se ele fica eu saio, era suposto que fôssemos diferentes..." Não é que, outra vez, os partidos antigos sejam aqui exemplares, mas são poucos os que se apresentam já com a arrogância da novidade ou com a ânsia da pureza bacteriológica.

Por mais injusto ou frustrante que possa parecer, o começo de um partido será apenas um suspiro, um fulgor, se dele não resultar algo mais do que um começo, se dele não vier uma coerência, uma raríssima amizade entre o seu percurso, as suas novas palavras, e o mal-estar dos que se sentem abandonados. É essa amizade que garante a longevidade de um percurso e justifica o empreendimento; mas não consta que, sendo oportuna, desejável, e para a qual haverá sempre espaço, ela se encontre com a facilidade com que se organiza uma reunião de cansaço, de lamento, de expectativas.

Advogado e vice-presidente do CDS

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