O bom filho à casa volta. Será?

No Dia Internacional da Juventude quis a JSD assinalar a data com uma iniciativa dirigida aos jovens portugueses que emigraram nos últimos anos. Quisemos ouvir os jovens que nos últimos anos tantas vezes foram usados como arma de arremesso político, mas para quem a classe política pouca ou nenhuma atenção tem dedicado.

Importa, antes de tudo, começar por clarificar que reconhecemos os muitos aspetos positivos que a emigração tem para quem, partindo, adquire novas experiências e mais competências, para quem opta por dar também novos mundos ao mundo numa marca tão distintiva dos portugueses. Mas não pode ser essa a única alternativa ou via possível que um país tem para oferecer às novas gerações, a de procurarem lá fora espaço e oportunidades para iniciar os seus projetos de vida.

Quisemos, por isso, ouvi-los, reunindo antes com diversas entidades que estudam ou trabalham com esta realidade, por não nos resignarmos e considerarmos fundamental que se faça alguma coisa. Para evitar que muitos destes jovens saiam, para conseguir que muitos destes jovens regressem e para ajudar aqueles que optam por ficar lá fora a terem uma relação estreita e próxima com o seu país.

Mas fazemos este trabalho suportando-nos nos números reais e na sua compreensão. Nem a emigração começou em 2011 nem é um fenómeno que tenha estancado de 2016 para cá. Começar por compreender a realidade é, quanto a nós, um bom ponto de partida para qualquer trabalho que queiramos fazer.

Há entidades, como é o caso da Associação Empresarial de Portugal, que se têm dedicado, com empresas e municípios, a oferecer respostas através de programas como é o caso do Empreender 2020. Mas não basta.

São, naturalmente, necessárias algumas mudanças estruturais de que o atual governo está a leste, sequer, de as querer pensar ou discutir, como é o caso do caminho que deveríamos fazer para eliminar a dualidade do mercado de trabalho, para que este se torne menos rígido e seja mais fácil a entrada de jovens. Veja-se o caso do Reino Unido. O mercado de trabalho é elencado pelos jovens que emigraram em estudos realizados como um obstáculo ao regresso.

Da mesma forma, se quisemos, e bem, atrair através do regime dos residentes não habituais profissionais qualificados e pensionistas estrangeiros, não seria pelo menos discutível a hipótese de se criar um regime semelhante para os nossos portugueses que emigraram?

E para aqueles que continuam e continuarão lá fora, não seria interessante olhar com atenção para o programa irlandês de apoio à diáspora, que ajuda e potencia os irlandeses espalhados pelo mundo?

Há, no entanto, questões mais administrativas e burocráticas que importa resolver. Faz algum sentido que centenas de portugueses a residir na Alemanha vejam o seu cartão de cidadão recusado em serviços ou instituições públicas?

Sem diabolizar a emigração e sem miserabilismos, podemos fazer muito mais. Por aqueles que podem vir a sair ainda do país, por aqueles que já saíram e gostariam de poder regressar e por aqueles que querendo estar lá fora, tem o Estado português a obrigação de continuar a olhar por eles. O bom filho à casa volta, diz o ditado. E nós queremos mesmo que assim seja.

Presidente da JSD

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