Premium "Glória a Deus" e "50 tons de Temer" num debate empatado

Mesmo quem chegasse à TV Bandeirantes (Band) três prudentes horas antes do debate, sentia que tinha perdido alguma coisa: no pátio, já havia microfones, gravadores, luzes, câmaras, ação em torno de um protagonista. Quem? Jair Bolsonaro, o mais mediático dos candidatos? Será que Lula afinal veio? Não: era Ricardo Boechat, o moderador do debate.

"Já tenho alguma experiência de debates mas nunca participei num tão imprevisível", dizia o respeitado âncora, de 66 anos. A urgência em torno de Boechat justificava-se: o primeiro debate presidencial está para a Band, que o organiza de quatro em quatro anos desde 1988, como a transmissão da Copa do Mundo está para a rival Globo.

Bolsonaro (PSL), com pontualidade militar, foi o primeiro a chegar, acompanhado do senador e cantor gospel Magno Malta, que pertence ao PR, partido que até apoia Alckmin. Atrás seguia outro apoiante, o general Heleno: "O que lhe aconselhei? Moderação, mas nem sempre se consegue ter a pulsação em 60..."

Álvaro Dias (Podemos), Henrique Meirelles (MDB), Geraldo Alckmin (PSDB), um a um, com maior ou menor discrição, rumaram ao camarim. Marina Silva (Rede), que apareceu logo depois do ex-governador de São Paulo, deixou-o de orelhas a arder: "Os que vêm desviando dinheiro já se estão agrupando para continuar a desviar", numa indireta à aliança entre Alckmin e o Blocão, grupo constituído pelos cinco partidos mais clientelistas do Brasil.

De repente, trepidação. Chegou Cabo Daciolo, o bombeiro que se candidata contra Satanás e só foi ao debate porque a lei impõe: "Eu sei que se o meu partido [Patriotas] não tivesse congressistas suficientes para obrigar as televisões a chamarem-me, eu não estaria aqui mas estou... com a glória de Deus."

Logo depois, Guilherme Boulos, do PSOL, o partido de Marielle Franco, a vereadora do Rio de Janeiro assassinada que o candidato haveria de nomear três vezes naquela noite, desvalorizou os seus 36 anos. "Se a experiência em Brasília fosse garantia de bom governo, Temer teria sido o melhor presidente e não foi, foi o pior."

O último foi Ciro Gomes, do PDT, que depois de tanto ser acusado de morrer pela boca, apareceu em versão paz e amor: "Tudo bem rapaziada?", perguntou aos jornalistas. "O que mudou em mim desde a última candidatura? Estou mais maduro... e grisalho", riu-se. Lá fora, a polícia, com 130 agentes, além dos à paisana e dos seguranças dos candidatos, faz um cordão a 150 metros da sede da Band. "Constou que podiam vir partidários do Lula e gerar algum conflito...", justifica o delegado Cesar Saad, a propósito do líder das sondagens detido em Curitiba. Ainda se voltaria a falar do antigo presidente na noite da Band.

"Boa-noite, Lula!"

"No primeiro bloco, os candidatos respondem a uma pergunta dos leitores do jornal Metro e a seguir interpelam-se uns aos outros, a pergunta dos leitores é "como combater o desemprego"; começa a responder Álvaro Dias", anuncia Boechat, abrindo as hostilidades. "Nasci na roça e cheguei aqui, abri mão de aposentadorias, num valor somado equivalente a uma mega-sena [o euromilhões local], fui o governador mais popu...". Boechat interrompe: "Acabou o tempo para responder à pergunta sobre o desemprego, candidato."

O episódio excitou o cabo Daciolo: "Esse senhor falou, falou e não disse nada e eles andam aqui há 40 anos na vida pública, chega, com a graça do senhor Jesus."

Os experientes Alckmin e Ciro vão, por sua vez, diretos ao ponto do desemprego. O primeiro reforça a importância das "mulheres no mercado de trabalho" e "a atenção para com as mulheres grávidas" - falaria até ao fim do debate mais seis vezes das mulheres, que constituem 52% do eleitorado, o equivalente a 7,5 milhões de votos a mais do que os homens. O segundo discordou em absoluto das propostas de Alckmin, mas, como estava em dia cordial, ressaltou que "não é nada de pessoal contra o amigo de tantos anos".

Chegou a vez de Boulos. "Boa-noite Boechat e boa-noite Lula, que está injustamente preso." À mesma hora decorria na internet um debate entre Fernando Haddad e Manuela D"Ávila, os candidatos de Lula a vice, mediado por Gleisi Hofmann, presidente do PT. Foi a forma que o partido encontrou de retaliar o Tribunal Eleitoral por não deixar o antigo presidente ir à Band.

"Desqualificado!"

Bolsonaro, que foi o mais citado online durante o debate, falou entretanto da sua proposta de castração química contra violadores, para demonstrar que não era machista, e reforçou que "os cidadãos de bem" deviam ter direito a porte de arma porque "os bandidos andam cada vez mais armados".

Qualquer das suas propostas, dantes consideradas bizarras pelos adversários, perderam no entanto significado perante as de cabo Daciolo, um Bolsonaro ao quadrado. "Vamos pegar os políticos corruptos com a glória de Deus e a graça do senhor Jesus."

Boulos animou o debate numa interpelação direta a Bolsonaro: "O senhor não tem vergonha de em 27 anos de vida pública ter mais imóveis, cinco, do que projetos de lei apresentados, dois?" "Eu teria vergonha era de invadir propriedade privada, seu desclassificado", reagiu o militar, com a pulsação muito para lá de 60, aludindo à ação de Boulos como líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto.

O debate seguiu por temas tão diversos como o aborto - Boulos diz que as ricas fazem-nos em boas clínicas e Marina defende um plebiscito; a educação - Bolsonaro quer escolas militares, Ciro é contra o chicote na aula; a emigração - Daciolo pediu aos brasileiros que voltem ao país porque, com a glória de Deus, vêm aí tempos de prosperidade; ou a Lava-Jato - Marina disse que os condenados somam penas de 500 anos, mais do que os do descobrimento do Brasil.

No fim, a sala sorriu quando Boulos chamou Henrique Meirelles, ex-ministro das Finanças, de representação de Temer. "Aliás, não é o único, há aqui uns 50 tons de Temer."

Terminado o debate começou a guerra de memes na internet, como é comum após grandes eventos. O mais partilhado foi o do espectador que, depois de muito avaliar, comparar e ponderar, sentiu que o mais preparado de todos para o cargo de presidente da República é, afinal, Ricardo Boechat.

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