Animais de hábitos

Logo a seguir às eleições que conduziram à Segunda República, o partido no poder inventou o que chamou "Verão 91, Encontro de Cabo-Verdianidade", iniciativa que foi considerada tão essencial que o próprio presidente da República em pessoa a patrocinou e se deslocou à Assembleia Nacional para a anunciar, tendo definido o evento "como ponto de partida de um amplo movimento de reanimação cultural", um retorno à nossa autenticidade.

Infelizmente esse retorno não se verificou. Antes pelo contrário, foi a seguir a ele que nos lançámos de alma e coração e olhos fechados nos braços da epidemia da liberalização globalizante, em busca da nossa "inserção dinâmica na economia mundial".

Durante anos não tive nenhuma fé nessa maluqueira, mas hoje estou convencido de que da globalização nos restou pelo menos o consolo de ficar na terra com quase todas as marcas de cães que existem no mundo, desde rottweiler a dobermann e pit bull, passando por labradores, são-bernardos e outros, incluindo até um enorme bicho trazido da Sibéria que vive todo o ano dobrado ao peso do seu longo e pesado e inútil cobertor de pelos.

Há dias acabei por travar amizade com um belo dálmata que, em gozo de férias, acompanha a sua dona emigrante. O nosso encontro deu-se certa manhã ainda com o Sol a nascer, quando de repente deparei com aquele cão às pintas brancas e pretas postado no meio da estrada em posição suspeita. É verdade que tinha um ar mais sofredor que ameaçador, mas na mesma parei a distância respeitável, não tenho muita fé na bondade natural dos cães. Mas a dona sorriu para mim com ar tranquilo e falou com o bicho numa língua desconhecida. Com manifesto desagrado ele abandonou a postura encolhida de quem está a desenvolver um grande esforço e aproximou-se da senhora, que logo lhe pôs a trela. Vendo-o preso, aproximei-me afoito: ele é daqueles que não entendem crioulo, perguntei, ouvi-a falar uma língua esquisita. Mistura de crioulo e naruega, respondeu, estava a incentivá-lo, desde há três dias que chegamos que ele não consegue obrar, coitado, chegou aqui e ficou com prisão de ventre, embora eu tivesse tido o cuidado de lhe trazer a comidinha a que está habituado. Experimente dar-lhe cavala, sugeri à senhora, nós devemos ser o país que tem mais diferentes marcas de cães, mas todos eles têm em comum alimentarem-se à base de cavala e papas de milho. E é ver como estão bem dispostos.

Ora eu ainda a falar, o dálmata levanta o nariz, inspira com profundidade e concentração na direção que me pareceu do hotel Porto Grande e de um esticão rouba a trela à dona e parte em velocidade. Às vezes ele ataca, disse ela assustada. Partimos, ela atrás dele gritando, Dalma! Dalma! Dalma! e mais uns sons desconhecidos, eu atrás dela pensando, seria bem feito encontrares pelo caminho um rafeiro da terra alimentado a restos de cachupa para te dar uma boa sova!

A dona a correr e eu em passo apressado, atravessámos a Praceta José Lopes, descemos o Largo dos Bombeiros e desembocamos na Praça Nova. E aí vimo-lo: sobre o verde das plantas o dálmata aliviava-se pachorrenta e tranquilamente, no focinho malhado um ar de embevecida felicidade.

E então ela compreendeu o drama da prisão de ventre: lá na Noruega o bicho estava habituado não só a tomar banho na banheira como a fazer as suas necessidades num parque relvado. E sem dúvida que ficou traumatizado ao ver que aqui só há chão de terra batida, e ainda por cima acastanhado.

Escritor cabo-verdiano, Prémio Camões 2018.

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