Premium "A multiplicação das organizações é sinal de fraqueza"

Riccardo Marchi é investigador do ISCTE e um dos maiores peritos em extrema-direita.

Nos últimos três anos foram criadas novas organizações identitárias - nacionalistas e fascistas - em Portugal. Que análise se pode fazer?
Em primeiro lugar, a multiplicação de organizações nacionalistas é mais um sinal de fraqueza do que de força, pois evidencia a incapacidade de um grupo, de uma elite dirigente ou de um líder aglutinar todas as (poucas) forças militantes que compõem o meio nacionalista português atual. Não é a primeira vez que esta corrente entra em Portugal: os primeiros movimentos que nela se inspiraram foram a Causa Identitária e Terra&Povo, no princípio do século XXI.

O que trazem à discussão política do nosso país personagens como Gianluca Iannome, líder da Casapound italiana, que esteve há menos de um mês em Lisboa?
Gianluca Iannone já esteve presente em Portugal há dez anos, sempre por convite dos jovens militantes identitários portugueses da altura. Hoje regressa convidado pela geração sucessiva sem que tenha havido uma passagem de testemunho entre as duas, o que demonstra mais uma vez a relativa fragilidade deste meio. Em Portugal circula frequentemente o discurso da necessidade de desconstruir a identidade nacional, com vista a uma nova comunidade na multiculturalidade e no multirracialismo. Há aqui duas vertentes que interessam os identitários portugueses: as políticas de aberturas do território nacional e europeu às massas humanas oriundas de Ásia e de África para responder ao envelhecimento das populações autóctones; as políticas culturais de crítica ao passado histórico português (colonialismo, escravidão, descobrimentos, etc.). A este discurso junta-se a ação social desenvolvida pela CasaPound, ou seja a passagem da política tradicional (partido, campanha eleitoral, votos) à intervenção social, cultural, desportiva, de lazer para implementar um estilo de vida alternativo. Isto interessa muito esta nova geração de militantes portugueses.

Que tipo de mensagem trazem bandas italianas como a Zetazeroalfa e Bronson, que atuaram neste evento?
Pertencem à longa tradição italiana da musica non conforme, ou seja a música nacionalista de intervenção. Os seus textos reproduzem as mensagens da área nacionalista e identitária europeia contra a globalização, a imigração de massa, o capitalismo financeiro, a elite tecnocrática de Bruxelas, o politicamente correto, etc. A presença em Portugal a convite do Escudo Identitário é sinal de duas coisas: como já disse, o interesse da geração militante mais nova face às experiências estrangeiras e a sua capacidade de organização num país relativamente periférico no mapa da extrema-direita europeia e pouco mobilizador. De notar que este concerto foi a segunda edição de um evento que já no ano passado decorreu e que serviu aos próprios militantes para comprovar a persistência e a capacidade organizativa na área nacionalista mais ampla. Ambos fazem parte da CasaPound: o cantor do Zetazeroalfa, Gianluca Iannone, é presidente e fundador da CPI. Casapound é um movimento declaradamente fascista, ou seja, tem as suas raízes ideológicas no fascismo italiano. Eles reivindicam isso abertamente, portanto não há problema nenhum a defini-los assim. Ele próprios veicularam uma definição que foi dada ao movimento pela imprensa italiana: "Fascisti del Terzo Millennio" exatamente para sublinhar esta intenção de agir no presente-futuro tendo contudo uma identidade bem radicada, mas sem projetos saudosistas-restauracionistas. A área identitária portuguesa tem elementos que apreciam as raízes fascistas da CasaPound, mas há outros que não estão minimamente interessados nelas. Ou seja, a área portuguesa é nacionalista na sua generalidade, mas não fascista.

Existe uma extrema-direita emergente e criminosa?
Como historiador e analista político eu baseio-me em factos empíricos aos quais tenho acesso: nos últimos anos não vejo francamente atos repetidos de violência protagonizados por elementos de extrema-direita, nem vejo prisões de militantes de extrema-direita, nem denúncias de atividades criminosas levadas a cabo por organizações de extrema-direita. Com base nestes dados empíricos não posso dizer que haja em Portugal uma extrema-direita emergente e criminosa. O SIS deve ter os seus dados fruto da monitorização destes grupos dos quais até posso não duvidar, mas estes dados até agora não levaram a nenhuma operação contra as organizações e militantes de extrema-direita atualmente ativos.

Ainda em 2016, a PJ deteve vários ativistas dos skinheads sob suspeita de agressões graves de cariz racista e politico...

A rede PortugalHammerskin pelo contrário já foi investigada há vários anos e foi alvo de processos e condenações: sendo Mário Machado o que pagou mais em termos de anos de cadeia. A operação de 2016 que refere replica operações anteriores como a de 2007, mas mesmo por isso mantém-se no sulco da tradição daquela subcultura, não havendo sinais de um incremento particular da "potência criminal". Diga-se de passagem que não sei como acabou o tal processo das agressões de 2016. Era interessante saber-se e talvez fossem mais uma prova da baixa intensidade criminal daquela rede.

Estes grupos também têm objetivos políticos ou continuam?
Estamos a falar de duas áreas diferentes: há a área das subculturas (skinheads, motards) e há a área dos movimentos e partidos políticos. Na área subcultural, o movimento skinhead encontra-se há vários anos bastante fragilizado pelas passadas operações judiciais de que foi alvo e principalmente pelas divisões internas a nível de vértice. Este enfraquecimento fez que nos últimos tempos, o movimento skinhead em si não tenha uma projeção projetual política assinalável. As últimas iniciativas de cariz social (penso por exemplo na organização Luz Branca dos Hammerskin) não teve continuidade assinalável. A outra área subcultural - a dos motards e mais falada ultimamente pela comunicação social - tem ligações com a extrema-direita porque alguns dos seus elementos provêm do movimento skinhead (caso dos Hells Angels e dos Bandidos). Contudo, atrás destas realidades continua a não haver nenhum projeto político. No caso dos Bandidos, parece-me que haja mais uma tentativa de Mário Machado recuperar o terreno perdido na área nacionalista durante a sua longa detenção, quer através da organização política Nova Ordem Social quer através da fundação do braço português do clube internacional de motards , escolhido a dedo em oposição à área de proveniência que o marginalizou (Hammerskin e Hells Angels). Ou seja, prevalece aqui o cariz de "projeto pessoal" sobre o de "projeto político".

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