A morte em direto. Ponto de exclamação.

Tatiane, 29 anos, a ser espancada pelo marido na madrugada em que foi encontrada morta. Que objetivo há em mostrar estas imagens? E em vê-las?

O filme é de 1980. A história passa-se, diz o realizador, num futuro próximo: "Lá para os anos 90." Um programa de TV propõe a uma romancista a quem deram dois meses de vida filmar, a troco de dinheiro, os seus últimos dias. Ela começa por aceitar mas depois, dando-se conta do horror, foge. Na fuga, encontra um homem que supostamente a quer ajudar mas que é na verdade uma câmara viva: graças a um implante cerebral, filma tudo o que vê, para ser transmitido, em direto, pelo canal.

É Morte em direto, do realizador Bertrand Tavernier, com Romy Schneider, Harvey Keitel e Harry Dean Stanton nos protagonistas. Considerado uma antecipação mais ou menos visionária da distopia voyeurista contemporânea, da qual o programa Big Brother, estreado em 1999, é visto como marco inaugural, ganhou um novo significado na generalização do binómio cidadão/telefone com câmara e acesso a diretos na net.

Se no filme de Tavernier estávamos ante a determinação obscena de um canal de TV em busca de audiências, hoje temos ainda a concorrência de toda e qualquer pessoa. A ponto de a função de gate keeper (guarda-portão) que era a dos media clássicos parecer ter-se tornado inútil.

E, no entanto, nunca se falou tanto de privacidade, de proteção de dados, nunca se discutiu tanto o reforço das leis e a imposição de regras nas plataformas digitais. Passámos os últimos dias de maio a receber centenas de mails a pedir-nos licença, em nome do nosso direito à privacidade e ao esquecimento, para nos continuarem a enviar mails. Ou seja, para manterem o nosso endereço eletrónico ou apagarem-no. Mas habituámo-nos a achar a coisa mais normal do mundo ouvir escutas de conversas telefónicas de pessoas que não deram autorização para que estas sejam divulgadas, a ver imagens de pessoas fotografadas e filmadas sem seu conhecimento, a ler e ouvir histórias sobre assuntos de vida privada que só aos que a vivem dizem respeito, e a opinar sobre tudo isso como se não fosse de pessoas, pessoas exatamente como nós e com os mesmos direitos, que se trata.

Somos voyeurs viciados em voyeurismo e na ausência de empatia que isso pressupõe, na ausência do mais simples e eficaz dos critérios de admissibilidade, que é aquele em que nos perguntamos: e se fosse eu? E se fosse a minha mãe? E se fosse o meu filho/namorado/amigo, alguém que eu ame e respeite? Mas não: ninguém se pergunta isso. O que explica que se aceite com tão aparente normalidade - posso ter estado distraída, mas não vi sobre isso discussão -- a difusão das imagens da agressão brutal, no Brasil, de uma jovem mulher pelo seu marido.

Tatiane Spitzer, 29 anos, foi encontrada morta na madrugada do dia 22 de julho após ter alegadamente caído do quarto andar onde vivia. Imagens de câmaras de segurança, recolhidas pelas autoridades, mostram o marido a agredi-la dentro do carro ao chegar a casa, na garagem do prédio e no elevador, e depois a carregar o corpo dela e a limpar sangue do elevador. Chegava-nos, digo eu, saber esta informação: a de que estas imagens existem e estão na posse das autoridades. Vai haver um processo em tribunal e nele decerto serão usadas como prova. Não preciso de as ver, ninguém que não esteja ligado ao processo precisa. E decerto não precisam de as ver, a não ser por sua iniciativa e pedido, as pessoas que amavam aquela mulher, e de saber que toda a gente as viu.

O caso é tanto mais chocante e grave quando as imagens terão sido dadas pelas autoridades brasileiras aos media, que não se fizeram rogados. Com que desculpa? Com invocação de que objetivo? Qual o interesse público desta divulgação? Podem dizer que divulgar isto é um libelo contra a violência de género/doméstica, e que as autoridades brasileiras e media o fizeram com esse intuito. Ok. É certo que há imagens de mortes e de mortos, e de violência mortal, cuja exibição se justifica. Porque é preciso denunciar, provar, dar exemplo. Mas aqui? Desculpem, mas não. Isto é só espetáculo. É só banalização. É só voyeurismo. É só chamariz de visualizações e cliques. É só isto que uma TV brasileira escreveu sobre as imagens: "Cenas fortes!" Com ponto de exclamação. Com entusiasmo. Alegria, quase. A de quem diz "temos as imagens, veja tudo."

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