Premium A casa no alto da colina

Os profetas, se alguns existem, na nossa época escutam preferivelmente as vozes dos estadistas e não dos deuses. É sobretudo a questão das emigrações, que passaram a ser dominadas pelo medo nascido nas regiões de origem, com sacrifícios tremendos que incluem as perdas de vidas que acumulam de vítimas os caminhos das fugas, ameaçam eventualmente os lugares de procurado destino, e que logram ali ressuscitar e semear as sementes do medo que tomam sobretudo o nome e a tradição dos mitos raciais, contra os quais, entre mais instituições, a UNESCO defende o Património Imaterial da Humanidade, mas que agora crescem em intensidade, autonomizando o anti-islamismo. Estando a variável adjetivação dos mitos suficientemente divulgada, tem interesse avaliar as duas correntes que afetam o Ocidente como unidade, começando pela Europa. Quando do último Conselho Europeu, que terminou a reunião no dia 7 de julho, depois de uma longuíssima discussão reservada, a conclusão mais conhecida é a do embaraço, não só de como enfrentar o presente mas sobretudo como preparar o futuro, do turbilhão dos que chegam esperançados na regra de que "a terra é a casa comum dos homens", com o limite de fugirem da origem e não conseguirem que o esperado abrigo não ponha em conflito o dever de humanidade e o receio da segurança. A imprevisibilidade de conseguir distinguir entre emigrantes e terroristas, com a eventualidade de as aflições dos primeiros virem a transformar-se em convicções dos segundos, ou logo nos descendentes, parece dominar a problemática da distribuição de acolhimento e de encargos entre os Estados membros europeus. Há um acordo de princípios importantes, mas é evidente que a efetivação da aplicação vai ter demoras. Mas tudo isto são desafios do presente, que vão sendo registados nas estatísticas, porque outras profecias moderadas, mas seguramente preocupantes, são as mais significativas. E não apenas, no que toca à hierarquia das potências, o facto de as potências emergentes pesarem crescentemente na ordem internacional, mas antes o fator demográfico avaliado em relação aos que se fixam. Embora a religião cristã esteja a evolucionar para minoria europeia, são os seus valores que conferem unidade europeísta aos povos que, embora estadualmente separados, tenderam, depois da guerra de 1939-1945, para uma unidade governativa, agora com a forma de União Europeia, alargada depois do fim do sovietismo. Mas isso não impediu que Koen Geens, ministro da Justiça belga, declarasse, logo em 2016, no Parlamento Europeu que os muçulmanos brevemente superariam em número os europeus, vindo o seu ministro da Justiça, Jam Jambou, a denunciar o receio de transformar o islão num inimigo, talvez pensando no facto de os terroristas terem adotado valores religiosos do Alcorão no seu conceito estratégico. De novo, neste aspeto, a perspetiva demográfica, política e cultural e a história religiosa parecem aconselhar a reler o passado. Não é a evolução da relação entre o crescimento económico com os emergentes que neste caso avulta, é a relação demográfica que tende para desequilibrar a composição das sociedades, sendo este um dos fatores, discretamente aflorado, que perturbam a unidade da decisão política e humanitária dos Estados da União. A par deste desafiante fator, que tem fortalecido os movimentos populistas, minonacionalistas, ou os trajetos de multiplicação e as crises dos apelidados movimentos altermundialistas, é também o outono ocidental que se enfraquece com as políticas, insuscetíveis de racionalização, dos EUA presididos por Trump. Talvez alegue as cogitações de George Freedman, quando, no seu livro sobre Os Próximos 100 Anos, vaticina que a próxima guerra será a Primeira Guerra Espacial, cujo "resultado será, inequivocamente, a afirmação da posição dos Estados Unidos, enquanto potência internacional, líder no mundo e na América do Norte, e centro de gravidade do mundo internacional". Tem este o cuidado de advertir que já não estará cá para ver, mas o espírito é o antigo de "A Casa no Alto da Colina". Todavia, a retirada da Comissão de Direitos Humanos da ONU, a ameaça com visão contabilística à NATO, a retirada do Acordo de Paris, a displicência com que tratou o Conselho Europeu, a intervenção intempestiva em Jerusalém sem lei nem responsabilidade assumida pelas consequências imediatas, a inovação da linguagem diplomática, tudo obriga a avaliar com cuidado o que se passa na circunstância europeia e atlântica, e talvez a considerar que o significado da gloriosa expressão "A Casa no Alto da Colina" tende para lembrar a defesa medieval confiada a um castelo no cimo da montanha. Não há motivos para censurar que um governo, de qualquer potência, cuide com devoção do interesse da comunidade que lhe entregou o poder, mas nada o pode dispensar de considerar o interesse comum, de que é parcela. E que na circunstância atual não é já apenas o do atlantismo, é o da "Terra casa comum dos homens", a exigir atenção à demografia.

Adriano Moreira

Professor universitário

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A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

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