Premium 40% dos livros que se publicam são devolvidos às editoras

A crise mundial também afetou a indústria livreira nacional e há até editoras que assumem devoluções superiores a metade das impressões. São raros os livros que esgotam - a maioria regressa aos armazéns.

O leitor vê chegar uma pilha de dez livros de um escritor famoso à livraria e não imagina que quatro desses exemplares serão de certeza devolvidos ao armazém da editora. Se multiplicar este caso pelos mais de dez mil títulos - nos bons anos eram pelo menos 15 mil - que são impressos todos os anos em Portugal, a soma é simples de fazer e ao mesmo tempo assustadora: são milhões de livros devolvidos, armazenados e destruídos.

Apesar de poucas editoras portuguesas revelarem os valores oficiais das devoluções, essa percentagem encontra-se num patamar nunca abaixo dos 40%, em média, de tudo o que é impresso. Segundo o DN apurou junto de responsáveis que não quiseram prestar declarações de forma oficial, o nível da devolução de livros em Portugal encontra-se sempre acima dos 39%, raramente abaixo dos 46%, mas não faltam casos em que os 50% são ultrapassados.

Não é uma situação nacional, pois nem é preciso ir mais longe do que o país vizinho para se perceber que a indústria livreira portuguesa sofre do mesmo mal do que as do resto do mundo. Recentemente, fontes oficiais das editoras espanholas confirmaram que a percentagem das devoluções nunca é inferior a 29,4% e na maioria das vezes aproximam-se ou superam os 40%.

São os autores portugueses que lideram as devoluções? Não. As devoluções devem-se ao desinteresse do leitor em relação aos títulos publicados e nada têm que ver com a nacionalidade. O facto de ser um autor português, se for conhecido dos leitores e apreciado, até pode ser um motivo para vender mais.

As editoras portuguesas evitam revelar os números das devoluções, sendo que os dois maiores grupos editoriais - a Porto Editora e o Grupo Leya - nem sequer responderam a qualquer pergunta do inquérito que o DN lhes enviou, bem como a outras editoras. No entanto, nos seus armazéns empilham-se mais de cinco milhões de livros devolvidos. Um total que não é de agora, mas antes resulta da acumulação da última década, situação que a crise mundial iniciada em 2008 agravou bastante. No caso do Grupo Leya, acrescente-se uma boa parte de livros que existiam nos armazéns das muitas editoras que compraram aquando da fundação do grupo editorial. No caso da Porto Editora, a existência da rede de livrarias Bertrand, do grupo, minimiza um pouco as devoluções.

A mesma reação acontece com algumas editoras importantes, é o caso da Presença ou do Clube do Autor, que recusam divulgar a percentagem de devoluções, bem como qualquer outro ponto que foi questionado.

Entre as cinco principais editoras, apenas a 20/20 Editora foi clara e rápida a responder. O grupo reúne as chancelas Topseller, Vogais, Elsinore, Booksmile, Nascente e Cavalo de Ferro, e publica anualmente milhão e meio de livros. Um terço de tudo o que é impresso pela editora é devolvido pelas livrarias e grandes superfícies, ou seja, perto de meio milhão de exemplares. A editora tem uma política de não acumular devoluções no armazém e é ativa em promoções que evitem a destruição do que regressa à empresa, bem como em realizar vendas para o estrangeiro.

Há alguma época em que as devoluções aumentam? Sim. Após as campanhas de Natal, todas as editoras sabem que as devoluções disparam em janeiro e fevereiro. Existem mais dois momentos de alta: em abril e maio e em agosto e setembro. Razão? As livrarias fazem limpeza de fundos para os lançamentos da Feira do Livro e da rentrée.

É também a 20/20 que aceita explicar as razões do alto número de devoluções. Segundo Joana Freitas, diretora de comunicação, a "queda contínua do mercado não escolar e o aparecimento de editoras iludidas com a retoma, associado ao nervosismo das cadeias que perdem quota de mercado e tomam decisões precipitadas, como compras indiscriminadas e promoções erradas, estão a inflacionar a taxa de devolução".

A editora Saída de Emergência aponta a percentagem de devoluções entre 40% e 50%. Imprimem por ano 300 mil livros e possuem em armazém cerca de 600 mil. No caso da Editora Planeta, esse nível ronda os 31% a 36%.

Outra resposta chegou da Abysmo. Uma pequena editora que imprime uma média de 15 títulos e 15 mil livros/ano. Apesar de ter uma média de devolução mais baixa do que as restantes, não escapa a ter no armazém cerca de 33 mil exemplares acumulados ao longo dos seus anos de existência - uma situação agravada pela falência da empresa distribuidora.

Há géneros literários que têm mais devoluções? Sim. Dan Brown e José Rodrigues dos Santos vendem sempre que são lançados novos livros, o mesmo se passou com cada volume da tetralogia de Elena Ferrante. Mas há segmentos, como o da ficção e não-ficção para adulto, que lideram as devoluções.

Situação portuguesa não difere da espanhola

Um dos piores exemplos da recusa dos leitores espanhóis em comprar livros que eram tradicionalmente grandes sucessos de vendas em papel foi a última edição do Dicionário da Língua Espanhola em 2014. A editora imprimiu 50 mil exemplares e as devoluções atingiram números inesperados, pois a procura não superou os 40% dos livros impressos. Os números oficiais espanhóis mostram que o total da faturação em 2005 no segmento dos dicionários era de 223 milhões de euros, no entanto em 2016 baixou para 40. A razão é simples, tal como em Portugal, os utilizadores de dicionários passaram a fazer as consultas de forma digital.

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