Uma exposição de design nas Amoreiras? Está a acontecer

O Museu do Design e da Moda continua a ocupar espaços da cidade enquanto o "seu" edifício não reabre. Até 21 de outubro está no centro comercial Amoreiras. As peças são todas portuguesas.

Já não é novidade ter exposições em centro comerciais, mas desta vez o caso é mais arriscado: não se trata apenas do Amoreiras Shopping Center, mas de uma exposição de design de produto. É a nova exposição do MUDE, ainda fora de portas. Chama-se Design para a Mudança - Presente Futuro e reúne cerca de 40 peças de artistas portugueses. Dá entrada ao miradouro com vista 360º sobre a cidade de Lisboa.

É nesse lugar privilegiado que está a reinterpretação do designer Daniel Caramelo da cadeira Arpur para a emprea de mobiliário urbano Amop. O responsável explica-o assim: "Pedimos-lhe que fizesse com a Ar Puro o que se fez com o Mini." Assim nasceu a Ar Puro +. As cadeiras rodeiam a mesa Round Up de Magda Alves Pereira.

Não há ordem obrigatória para ver as peças escolhidas por Bárbara Coutinho, diretora do Museu do Design e da Moda e curadora da exposição, embora o folheto laranja e azul que se pode encontrar no centro comercial dê boas pistas, elencando os 23 pontos de paragem. Comece-se junto ao balcão de informações ao lado das infografias animadas de Pedro Miguel Cruz, à frente de um grupo de várias pessoas (e saberes). De um lado, as ruas de Lisboa; do outro, a imigração nos EUA ao longo das décadas, desde que o país foi fundado, em 1789. "Alia a cientificidade e a qualidade dos dados à forma de os apresentar."

Metros mais à frente, a Vicara, uma empresa das Caldas da Rainha, mostra várias declinações da peça Leonor, "que procura valorizar objetos mundanos". Um suporte de cerâmica que "tenta adaptar-se a qualquer recipiente". "E permitir continuar algumas peças, seguindo uma filosofia de reuso", salienta a diretora do MUDE.

Sustentabilidade é uma palavra-chave a cada nova peça, um dos temas de reflexão mais importantes do design de hoje. O Presente Futuro do título da exposição vem lembrar as reflexões mais importantes do design e um futuro "não longínquo". Perpassa em trabalhos como a assadeira, a cuzcuzeira e a talha para fazer vinho a partir "de barros já pouco usados" da autoria da aluna de mestrado da ESAD - Caldas da Rainha Francisca Branco, no compostor doméstico de Marco Balsinha e também no contador da Wewood Design Center, autores de um contador escolhido para fazer parte desta mostra. Bárbara Coutinho explica a razão da escolha: "A qualidade do desenho e da manufatura", "fugindo à tentação fácil do montar e deitar fora". "O design para todos tem um outro lado, o aumento de um consumo muito rápido."

Incontornável, a cadeira, exercício que se mantém obrigatório nas escolas de design, também está na exposição no Amoreiras. A n.º 24, da autoria do gabinete MO-OW Design de Ângela Frias e Gonçalo Dias (2013). "É a prova de que a cadeira ainda pode ser reinventada", diz Bárbara Coutinho, durante a visita guiada à exposição. Neste caso, uma peça construída a partir de 24 peças iguais que se juntam para criar as quatro pernas, encosto, tampo...

Pelos corredores do piso 1 e do piso 2 aparecem combinações de materiais como o burel, usado para mais do que peças de vestuário. Aqui, como revestimento e forma de isolar o som e ao lado de um violino de fibra de carbono, que "mimetiza as madeiras", uma peça da Ideia M para a Ava.

Design colaborativo

O que salta à vista, a partir das legendas e dos textos que acompanham as obras, são os processos colaborativos que cada vez mais envolvem designer e artesão. Um caso evidente é o Projeto Tasa, que começou em 2010 e se declina em três objetos: a cesta de pão de Joana Cabrita Martins e Ana Rita Aguiar com o artesão António Gomes, a cesta de pé alto da Proactivetur_Alexandra Gonçalves com os artesãos José Teresa, Odete Dias e Gisela Martins e a vassoura de The Home Project com os artesãos Ana Silva e José Vitorino.

A exposição, vinca Bárbara Coutinho, procura mostrar o design para lá do produto. "Tem que ver com o processo metodológico" e encontrar a ligação entre "tecnologia e bom desenho, cruzar artes".

Em jeito de introdução, Bárbara Coutinho explica que com esta exposição se cumpre uma das missões do MUDE, aquela que vai para além do cuidado do acervo (e da que está diretamente ligada com o registo da história do design em Portugal). Frise-se: todas as peças são assinadas por artistas nacionais.

MUDE continua fora de portas

Um centro comercial é um espaço mais para mostrar o trabalho do MUDE. Depois de ter passado pelo Pátio da Galé, pelo Museu de Arte Contemporânea de Elvas, pelo Palácio Marquês de Pombal e pelo Palácio dos Condes da Calheta, Bárbara Coutinho defende a exposição no shopping do arquiteto Tomás Taveira, inaugurado há 33 anos e, então, símbolo de novas formas de viver a cidade. "Estamos num centro do consumo e de comércio e o design tem uma relação com essa componente", defende a diretora.

Fez dois anos em julho que o edifício do Museu do Design e da Moda, na Rua Augusta, encerrou para obras de requalificação. Deveriam ter durado 420 dias, mas estão neste momento paradas. A empresa que ganhou o concurso para este trabalho, a Soares da Costa, entrou em processo de falência, o que obrigou a refazer o concurso para a atribuição da obra, o que acontecerá "em breve", segunda a diretora.

Uma vez concluídos os trabalhos, Bárbara Coutinho garante querer continuar a mostrar fora de portas a coleção, e a estratégia, do museu. "Permite que o MUDE continue a trabalhar e a desenvolver a sua estratégia, chegar às pessoas de forma clara e direta". A próxima exposição está delineada: também fora de portas, uma retrospetiva do trabalho de Fernando Lemos.

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