Premium NAVEGAR É PRECISO. Como eles pensam

Quem não pecou, na época da juventude, que atire a primeira pedra. Penso ser mais comum do que confessada uma rápida transição da idade dos "porquês?" para o tempo de todas as certezas, quando os conselhos tantas vezes são catalisadores do tédio e a paciente experiência dos mais velhos corresponde, amiúde, a um "sermão" que mal se escuta. Perde-se muito com essa fase de inflexibilidade e de indisponibilidade, "ganha-se" uma militância geracional que os anos e as vivências se encarregam de remeter para o lugar, reduzido, secundário, que efetivamente merece. Até pelas contradições que encerra. Lembro-me bem de um episódio que me deixou baralhado e que coincide com a minha primeira experiência profissional vivida em sessões (muito) contínuas: assentei arraiais na redação do jornal A Capital, onde a "escola" exigia resposta para os desafios mais variados - assuntos, estilos, dimensão dos textos e por aí fora, numa multidisciplinaridade que, no mínimo, garantia um enorme jogo de cintura e uma saudável flexibilidade. Era o mais novo da casa, com quase dez anos de diferença de quem vinha a seguir na linha etária. Provocador, mais do que arrogante, trouxe de casa um recorte, religiosamente transportado do meu quarto para a parede atrás da secretária que me foi designada - dizia isto: "É preciso arrebatar o poder aos velhos." A frase estava assinada pelo músico norte-americano Frank Zappa (1940-1993), um símbolo maior de rebeldia. Os meus chefes limitaram-se a reagir com um sorriso condescendente ou com um encolher de ombros de indiferença. Mas houve um, por acaso aquele que me foi distribuindo amavelmente mais dores de cabeça e ordens de reescrita, que me abalou. Limitou-se a dizer: "Estou safo... Sou muito mais novo do que o Zappa..." E era verdade.

Vem isto a propósito, por absoluto contraponto, do abuso que tantas vezes se vê cometer em nome dos mais novos, sobretudo dos "jovens eleitores", que passam sem escala do estatuto de "geração mais bem preparada" ao de "geração rasca" (ou uma outra qualquer caracterização sucedânea) e vice-versa, de acordo com as conveniências do momento. Quase sempre sem sabermos o que pensam ou, sequer, como pensam - e generalizando sem olhar aos riscos dessa prática maniqueísta. Por isso, me regozijei com a iniciativa do canal televisivo TVI 24, que, num programa chamado Novos Fora nada, que ainda está no ar (e estará pelo menos até final deste mês) e em horário nobre, às sextas-feiras, abriu portas a dois comentadores há pouco chegados à casa dos 20. Conheço ambos (declaração de interesses: sou padrinho de um deles e o outro trata-me carinhosamente por tio) e tenho consciência de que não representam a média dos seus parceiros de idade. Mas ambos saberão também que, aqui, entra a análise e não o afeto.

António Rolo Duarte e Sebastião Bugalho - bem auxiliados pela moderação informada, empenhada e efetiva do jornalista Pedro Bello Moraes - estão munidos de duas belas armas: uma educação familiar sólida e estimulante, por um lado; por outro, uma formação académica que lhes assegura o lastro para a fundamentação e para o eventual improviso. Preparam-se muito bem, depois de lhes ser fornecido o tema semanal, revelando conhecimentos e pesquisa afincada - ganham, em muitos casos, a alguns "seniores" que parecem olhar os respetivos contributos como "favas contadas". Mais do que isso, escusam-se a funcionar como porta-vozes de terceiros e de interesses exteriores, representando-se a si mesmos e não desaproveitando a oportunidade.

O único pecadilho de Novos Fora nada está, salvo melhor opinião, na chamada a um "especialista" sobre cada assunto. Parece dispensável, soa ao apelo a "uma pessoa crescida" que venha ali corrigir os "miúdos". Evidentemente, não era preciso. Porque, com caras frescas e ideias próprias e/ou novas, ambos chegam e sobram para a encomenda, mais ainda porque não apresentam os vícios de forma - e até de linguagem - daqueles que se tornaram há muito previsíveis e redundantes. Mesmo assim, sou espectador atento, todas as semanas, para ficar a saber o que "eles"pensam. E como pensam.

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Rosália Amorim

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