Independentistas vão para a rua dizer que não desistiram de uma República na Catalunha

Dirigentes da Associação Nacional Catalã e da Òmnium Cultural ouvidos pelo DN dizem que a Diada deste ano servirá para mostrar que, apesar de toda a pressão e das detenções de vários dirigentes catalães, os independentistas não desistiram do seu principal objetivo, ou seja, "tornar realidade a república catalã".

Neste 11 de Setembro os independentistas catalães voltarão a sair às ruas para defender uma república na Catalunha. É o dia da Diada - festa nacional catalã - e, como acontece desde 2012, espera-se uma grande mobilização. O contexto neste ano será, porém, bem diferente. "Será a primeira Diada num contexto de repressão política", afirma a presidente da Assembleia Nacional Catalã (ANC), Elisenda Paluzie i Hernández, num encontro com jornalistas, em que participou o DN. Depois de meses a pedir a libertação dos chamados presos políticos, os independentistas vão voltar a centrar-se naquele que é o seu principal objetivo, ou seja, "tornar realidade a república catalã".

A ANC e a Òmnium Cultural são as impulsionadoras e organizadoras das manifestações que nos últimos anos enchem as ruas da Catalunha durante o feriado que remonta a finais do século XIX. Neste ano a manifestação não tem um só slogan, cada pessoa pode levar o cartaz com as mensagens que quiser. Às 17.14 (menos uma hora em Lisboa) haverá silêncio. A hora é simbólica por ter sido em 1714 que Barcelona passou para mãos do Estado espanhol, depois de os catalães terem sido derrotados durante o cerco de Barcelona na Guerra da Sucessão Espanhola.

A organização espera neste ano a participação de um milhão de pessoas. "Temos de dizer que não fomos vencidos e que continuamos com o mesmo objetivo", assinala a líder da ANC, garantindo que "não vai acontecer atos de violência" porque é uma manifestação que "sempre foi pacífica".

Elisenda Paluzie i Hernández considera, por isso, uma provocação que o governo central espanhol envie mil polícias para a capital daquela região autonómica para garantir a ordem durante esta terça-feira.

Também o vice-presidente da Òmnium Cultural, Marcel Mauri, espera uma grande participação, porque, afirma ao DN, a Catalunha "vive num contexto de repressão com líderes políticos e culturais na prisão".

Mauri dá como exemplo o caso do presidente da Òmnium, Jordi Cuixart , lembrando que esta é uma associação com 57 anos de história, perseguida e fechada durante o franquismo e que conta agora com 125 mil sócios. Nós "vamos sair à rua para pedir a liberdade dos presos políticos e para continuar o caminho rumo à autodeterminação". O responsável sublinha: "A repressão do Estado tentou calar-nos e não conseguiu."

Torra espera mais um "outono quente"

O presidente do governo autónomo catalão, Quim Torra, defendeu na semana passada a continuação da luta pela independência, exortando o governo central do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, a aceitar a realização de um referendo de autodeterminação com carácter vinculativo.

Torra, fiel ao ex-presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, exilado na Bélgica, disse esperar um "outono quente" na Catalunha com a aproximação do primeiro aniversário do referendo sobre a independência a 1 de outubro. O líder catalão aposta numa "mobilização permanente da cidadania" e destaca que a situação poderá agravar-se caso haja uma condenação dos líderes independentistas que estão detidos. O julgamento deve começar no final do ano e pode trazer longas penas de prisão aos acusados por causa da organização daquele referendo de forma ilegal.

Para Elisenda Palusie i Hernández, "o discurso político é coerente com a independência". A líder da ANC insiste na mobilização da sociedade catalã não só a 11 de setembro, mas também a 1 de outubro e no primeiro aniversário da prisão dos detidos independentistas, 16 de outubro.

A responsável critica igualmente o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, pela forma como fala do problema catalão. "São palavras vazias e ele sabe disso", refere Elisenda Palusie i Hernández, aos jornalistas.

Na Òmnium Cultural considera-se que, com o governo do PSOE, "mudou a forma, mas a resposta é a mesma", diz Marcel Mauri. Em seu entender, Sánchez deve decidir "se quer ser parte da solução" e, nesse sentido, seria importante um gesto no sentido "da saída da prisão dos presos". O responsável desta associação catalã defende que o independentismo tem estado aberto ao diálogo e que poder votar num referendo é algo que está nas mãos do governo.

O futuro dos independentistas

Qual é o caminho a seguir pelos independentistas? "Avançar na única via possível, a via unilateral. E fazê-lo da forma mais rigorosa possível, sabemos que é difícil, mas vamos tentar", explica Elisenda Paluzie i Hernández.

Na ANC, refere, existe consciência dos erros cometidos "e das dificuldades enormes que existem, mas continua a ser feito um trabalho para, um dia, se chegar à independência". Mauri, por seu lado, acredita que esta Diada vai permitir "tomar o pulso dos catalães num outono e inverno preocupante". Está a ser preparada uma mobilização internacional para o julgamento dos chamados presos políticos.

No entender de Elisenda Paluzie i Hernández, "a opinião pública internacional está mais preparada para perceber que queremos a independência. O discurso que chega de fora é que somos uma região rica que não quer pagar pelas regiões pobres, mas devem perceber que não é assim".

Analisar os erros

A responsável da ANC reconhece que, no passado, houve "campanhas de pressão económica que tiveram muito impacto. Não soubemos responder com força às mentiras". Afirma que houve notícias falsas, como "fazer acreditar que a saída das sedes tinha impacto no PIB, e não é certo". Elisenda Paluzie i Hernández reconhece que o independentismo "chegou frágil às eleições de dezembro".

Neste contexto, o que dizer às pessoas para manter a esperança? "Não podemos mentir, não sabemos se isto vai longe. Não jogamos sozinhos. O Estado pode cometer outro erro que permita uma nova oportunidade. Devemos ter determinação e estar mais bem preparados", acrescenta a responsável da ANC. Elisenda Paluzie i Hernández sublinha que o independentismo está num momento semelhante ao vivido ente 2006 e 2010: "Vão acontecer coisas que não se vão ver" mas que terão efeitos posteriores.

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