Rui Rio. Será só uma questão de estilo?

Anselmo Crespo

Um saco de gatos. Nunca uma expressão popular assentou tão bem num partido político como esta no PSD. Tem sido assim desde o tempo de Sá Carneiro - basta ler a biografia do fundador dos sociais-democratas, escrita por Miguel Pinheiro, para chegar, facilmente, a essa conclusão.

A contestação interna a Rui Rio está longe de ser uma coisa inédita no partido. Ferreira Leite sofreu o mesmo, Santana Lopes nem se fala, Durão Barroso não começou propriamente por ser consensual, Luís Filipe Meneses não teve um minuto de descanso, Marques Mendes, Marcelo Rebelo de Sousa, isto só para não ir ainda mais atrás.

É claro que o problema da contestação interna se resolve sempre da mesma forma: com o poder. É o melhor afrodisíaco para quem nunca esteve apaixonado por um líder, mas depois já não se importa de "ir para a cama com ele".

Não admira, por isso, que os líderes sociais-democratas que mais tempo se mantiveram no cargo tenham sido os que chegaram ao cargo de primeiro-ministro. Não será assim apenas no PSD? Não. Mas é muito mais evidente no PSD.

Desde que assumiu a presidência do partido, Rui Rio não teve um minuto de estado de graça. Em parte, por culpa dele, diga-se, mas a verdade é que não teve. E não faltam os que defendem - incluindo o próprio - que isso se deve a uma diferença de estilo. Sendo, em parte, verdade, o estilo de Rui Rio não explica tudo.

Rio é aquilo a que os ingleses designam de "what you see is what you get". Para o bem e para o mal, na relação que tem com a comunicação social, com os adversários políticos ou com os que lhe são mais próximos, Rui Rio não faz género. Diz o que pensa e pensa o que diz. E um dos erros que muitos dos seus adversários políticos cometem é tentar encontrar entrelinhas naquilo que ele verbaliza. Com Rui Rio, é tudo muito mais simples: ele diz exatamente aquilo que quer dizer e é uma perda de tempo andar à procura de uma mensagem subliminar.

Uma outra característica bem vincada na personalidade de Rui Rio são as convicções fortes, ou a teimosia, consoante a perspetiva. Rio é um político de ideias feitas que, dificilmente, alguém consegue moldar. E vive convencido de que, se essas ideias nunca o deixaram ficar mal eleitoralmente, não há qualquer necessidade de as mudar.

Se todos os problemas internos do PSD se resumissem a isto, às diferenças de estilo do líder, o problema resolver-se-ia facilmente: uma vitória ou uma derrota nas legislativas acabaria de vez com ele. Mas não é assim tão simples.

O verdadeiro problema do PSD é um problema de identidade, muito mais profundo do que aquilo que qualquer um - críticos ou apoiantes da direção - querem assumir.

Rui Rio assumiu no programa Bloco Central, da TSF, que o partido guinou - e de que maneira - à direita nos últimos anos e que o seu principal propósito é recentrar o partido. Mostrou-se pouco preocupado com um eventual crescimento eleitoral do CDS e aposta as fichas todas na conquista do eleitorado abstencionista.

Em tese, Rui Rio está a pensar bem. Nos 40% de abstenção, estão muitos eleitores que já votaram PSD, outros tantos que já oscilaram entre PS e PSD, e isto descontando os eternos insatisfeitos que nunca votam por acharem "que são todos iguais" mas que, na verdade, são apenas comodistas.

O problema é que, para ir buscar eleitorado à abstenção, não basta a Rui Rio mostrar às pessoas que é um político diferente dos outros. Ele precisa de ter claro na sua cabeça o que significa recentrar o partido - o que é ser social-democrata. Depois precisa de conseguir fazer passar essa mensagem dentro do próprio PSD porque, sozinho, nenhum líder consegue ser porta-voz de uma mensagem política eficaz e vencedora. Em terceiro lugar, Rio precisa de demonstrar ao país em que é que este PSD recentrado se distingue de um PS que governa à esquerda, com uma parte significativa do programa económico da direita. E, por fim, Rui Rio precisa de tempo, que é neste momento o bem mais escasso do atual líder do PSD.

Na economia, na forma como olha para o papel do Estado, na justiça, o PSD precisa urgentemente de se redefinir e, depois disso, de comunicar melhor. E, neste capítulo, Rui Rio não pode culpar apenas os críticos internos. No mesmo dia em que o presidente do partido diz publicamente que o PSD não se vai pronunciar sobre a continuidade da atual procuradora-geral da República, o secretário-geral - escolhido por Rio - vem dizer, a título pessoal (como se isto fizesse algum sentido), que defende a continuidade de Joana Marques Vidal. Ora, só isto é toda uma mensagem política contraditória.

Regresso, por isso, ao problema de identidade, que identifiquei atrás. Enquanto a mensagem política do PSD continuar a ser ziguezagueante, a várias vozes, cada uma a opinar sobre o que bem lhe apetece, o partido vai continuar a afundar-se eleitoralmente. Enquanto os próprios militantes não souberem o que são, o que têm de defender, é impossível mobilizarem-se. E enquanto o eleitorado não perceber o que distingue este PSD do atual PS, dificilmente se transferirá um voto dos socialistas para os sociais-democratas.

Estou em crer que Rui Rio, sabendo disto tudo, tem, ainda assim, a expectativa de que, em 2019, o eleitorado valorizará a diferença de estilo e que isso será o bastante, talvez, não para ser primeiro-ministro mas para ganhar tempo e continuar à frente do PSD a recentrar o partido. Se for assim, Rui Rio está enganado. É que, na comparação de estilos, António Costa, neste momento, não fica nada mal na fotografia.