A vida é difícil mas a gente facilita

Não conheço equivalente noutras línguas mas é um dos verbos mais úteis e polivalentes da língua portuguesa. Usam-no os arrumadores (o amigo não me facilita uns trocos?), um cliente que queira fiado (ó dona Lurdes, eu até levava uns bifes, mas só se facilitar...) ou qualquer utente de um serviço público quando tenta acelerar um processo (veja lá se me facilita isso, é que amanhã tenho consulta).

Os portugueses gostam de dizer que não facilitam, fazendo-se durões e intransigentes, mas não resistem a um bom choradinho, e lá vão facilitando.

"O homem estava desesperado, coitado, o que é que eu havia de fazer?"

Ora essa, que mais poderia ter feito? Facilitou, com certeza.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.